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Pressão da Igreja

Aí temos o carnaval à porta, outra ocasião que me é indiferente e não foram os posts dos meus amigos de Alcobaça mascarados nas palhaçadas do costume eu nem me lembrava que existia. Já houve um tempo, na época em que fazia coisas porque os meus amigos faziam coisas, em que saí umas vezes mascarado, e lembrei-me há bem pouco tempo da mais memorável.

Estava a pensar sobre tanto que o mundo mudou em 20 anos e no que era aceitável dantes e não é aceitável hoje e lembrei-me da vez que nos mascarámos, uns 10, à Klu Klux Klan, com cruz a arder e tudo. Hoje as pessoas têm que pensar quatro vezes nas implicações de tudo e pensar muito bem em quem é que podem ofender, e a espontaneidade é uma das vítimas do politicamente correcto. Já fui mais detractor do famoso politicamente correcto do que sou porque acho que é melhor fazer um esforço para não ofender ninguém do que ser tudo à balda, mas isso deve-se muito ao facto de viver sozinho e muito longe de qualquer centro urbano e não ter que aturar malucos nem pensar cuidadosamente em cada interacção ou acção, não vá o diabo tecê-las. Se não falas com ninguém não podes ofender nem chocar ninguém, assim se resolve um problema antes dele aparecer.

Mas falava de Carnaval e suas tradições e brincadeiras, a mais importante de todas é, creio eu, a possibilidade de brincar e gozar com tudo. Crítica social, fantasia e sátira embrulhada em festa, sempre foi isso o Carnaval. Uma terra de tradição carnavalesca fortíssima é Torres Vedras e já lá deve andar tudo ao rubro,  vejo hoje uma notícia que em circunstâncias normais me tinha passado com um encolher de ombros, dada a minha não relação com carnaval, mas  nestes tempos que vivemos e com o que continua a saber-se, não sou capaz de deixar passar.

Então Torres Vedras instala todos os anos um monumento ao Carnaval, uma paródia escultórica. Este ano uma das figuras era a Nossa Senhora da Bola, uma escultura igual às tradicionais da Nossa Senhora mas com uma bola de futebol em vez de uma cara. O escultor recebeu prontamente a chamadinha telefónica da Câmara que , perante pressões da Igreja, o instava a retirar a peça.

Ora, têm vindo a público nos últimos meses toda a sorte de relatórios, investigações, denúncias e confirmações de uma quantidade assustadora de  abusos sexuais dos mais nojentos que há e com uma tónica comum : praticados por padres católicos sobre os mais fracos ao seu cargo , cuidado ou sob a sua orientação. Houve uma altura, como sempre, em que havia denúncias mas andou-se na fase da negação. Era uma campanha dos ateus ou coisa assim. Já não, até o chefe máximo da organização admite, assume e lamenta. Lamenta muito, farta-se de rezar pelas vítimas.

Por cá um dos directores gerais disse na semana passada que havia registo de uns dez casos, pouquíssimo se pensarmos no número de padres. Sim , só dez, muito poucos, o melhor era nem falar mais nisso. Outro canalha que, se houvesse inferno, ia ter que se retorcer bem para lhe escapar porque quem ajuda, desculpa e encobre o criminoso fica com boa parte do crime colada a si.

No outro dia abri um artigo do NYT que falava de um relatório a descrever como dezenas de freiras eram regularmente abusadas por padres e que as que engravidavam eram  levadas a abortar. Tive um refluxo gástrico , estive para escrever sobre isso na altura mas pensei , não, é sórdido demais, ninguém merece.  Agora acho que merecem tudo.

A coisa é de tal maneira que em Roma se reuniram 115 bispos a discutir os abusos sexuais  na Igreja. Como sempre ao retardador, agora que a verdade não pode mais ser varrida para debaixo do tapete, a Igreja tenta lidar com o nojo e a hipocrisia de décadas. Como se trata de um culto religioso, por definição irracional, os fiéis vão aceitar qualquer explicação que lhes seja oferecida pela cúpula e qualquer reacção lhes vai parecer boa e adequada ( o Papa falará sobre isto ex cathedra e como tal, será infalível) e se não parecer , encolhem os ombros e dizem que as vias do senhor são misteriosas e isto é só mais um teste à fé,  há homens maus em todo o lado e vamos sair disto reforçados e purificados.

Até vir essa conclusão do Papa, que entretanto veio comparar os abusos a rituais pagãos não resistindo a tentar encontrar  escapatória retórica, a Igreja e os seus representantes deviam andar , como se costuma dizer, colados às paredes. Não mexer uma palha , não soltar um pio, não dar uma entrevista nem emitir uma opinião até acabar esta reunião magna e o Papa falar por todos, sob pena de se enterrarem mais ainda ou de aparecerem com um discurso que corre o risco de estar desactualizado e ser contraditório quando o infalível falar para a semana.

No meio desta tempestade em que meio mundo olha de esguelha e o outro meio com asco, o que é que faz a Igreja de Torres Vedras? Apresenta uma queixa porque um escultor instalou uma senhora da Fátima com cara de bola no monumento ao Carnaval. Foi o que os incomodou, sentiram-se atacados e forçados a reagir.

Isto diz muito sobre este clero, que durante décadas  abafa , encobre e não castiga os crimes mais sórdidos praticados no seu seio mas que se sente beliscado na sua dignidade e forçado a chamar os poderes à atenção quando se brinca com os seus mitos e crenças. Agora já todos os padres, leigos e beatos e tudo, todos  já acham que a “denúncia é uma obrigatoriedade de todos”. Criaram no Verão passado um sistema para lidar com um problema que tem pelo menos 100 anos.

Ficamos então à espera de uma explicação para o facto de mais uma vez a Igreja Una Santa Católica e Apostólica mostrar que muitas  vezes não é nenhuma dessas coisas.  O Cardeal Patriarca admite um estudo sobre os abusos sexuais na igreja portuguesa, uma verdadeira posição de força e determinação perante um problema tão grave. Cada vez tenho mais dificuldade em perceber como é que se pode ter  confiança numa instituição com esta história e este modo de operar.

Disse há pouco o Papa no twitter: “Todo o abuso é uma monstruosidade. Na ira justificada das pessoas, a Igreja vê o reflexo da ira de Deus. Temos o dever de ouvir atentamente este grito silencioso.”

É pena que Deus não seja capaz de manifestar  a sua ira directamente e faça tudo por reflexos, e também é pena que não tenha reflectido a sua ira um bocado mais cedo.

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