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Moda

Morreu  o Karl Lagerfeld, e ver falar dele nas notícias  fez-me  lamentavelmente lembrar da figura que fiz a usar rabo de cavalo até aos 40.  Tenho  um  desprezo  considerável pela  actividade conhecida por “alta costura”,  em linha com o meu filistinismo em geral mas na questão da moda é mais agressivo por causa do excesso e vacuidade que proclama e propaga e porque é um sector que , digam o que disserem , não melhora o mundo em nada. O que faz é permitir  a uma minoria exibir o seu poder de compra,  distinguir-se melhor dos outros e proporcionar uma carreira a pessoas que o que têm para oferecer é a sua aparência física,  sendo  aceite como normal que ganhem fortunas por causa disso, é daquelas coisas que não percebo  lá muito bem e me custa um pouco a aceitar.

Mesmo  quem dá, com todo o direito e propriedade, valor ao desenho e confecção da roupa tem que recorrer ao valor “marca” para explicar as diferenças abismais de preço entre peças de roupa de “gama alta”. Pagam-se os materiais, paga-se a originalidade, paga-se a qualidade do trabalho e por fim paga-se bem forte a etiqueta, paga-se o privilégio de dizer “ah, isto é um Não Sei Quê , comprei em Nova Iorque.” Nas famosas passadeiras vermelhas dos espectáculos para os pobres que se têm que entreter com vidas ficcionadas e os sonhos dos outros  perguntam sempre às actrizes “estás a usar o quê?” . Toda a gente pode ver o que é que elas estão a usar e toda a gente pode formar uma opinião sobre se é bonito ou não, se a pessoa tem classe ou não, se está na moda ou não, mas essa opinião só se forma mesmo quando se sabe o nome de quem fez o fatinho, é o nome que determina o valor.

Vi há pouco uma peça que infelizmente não consegui voltar a encontrar para pôr aqui mas que mostra bem o espírito inerente a isto da moda. Então na Califórnia juntaram uns tantos “influencers de moda ” ,  fizeram uma sessão especial , uma espécie de campanha,  na Foot Locker, uma cadeia de sapatarias, e mudaram os preços de várias sapatilhas, inflaccionando-os de morte. Os broncos invadiram a loja para ver os seus “influencers” e as câmaras de TV e desataram a comprar por 400 e 500$ sapatilhas de 30 e 40.  Entrevistados, mostravam alegremente as sapatilhas de merda que tinham comprado pelo preço de dez pares e notavam características de design e qualidade. Basta pôr a etiqueta certa e desaparece a noção do valor intrínseco da coisa, todo o valor é depositado na imagem , ou pior ainda, no que se pensa que é a imagem da coisa. Patético.

Não sou fã da China nem dos Chineses em nada, ou nada de que me lembre, sem dúvida por ignorância , alguma coisa boa lá haverá, mas uma coisa que me deu e ainda dá muito gozo é a indústria das falsificações de marcas de luxo, porque ao mesmo tempo que reduz o valor percepcionado de coisas como o logo da Louis Vuitton e enerva os que dão 1000 paus por uma mala e depois vêem uma que à distância é igual e custou 50 como expõem os ignorantes pretensiosos que compram essa mala de 50 ou o rolex de 100 para fazerem figura do que não são. É um duplo ganho, mas como desvantagem trouxe o esforço dos ricos e das marcas em criar e comprar coisas ainda mais absurdamente caras e não falsificáveis, levando a indústria da vaidade, exibicionismo e desperdício a níveis nunca vistos.

Os ingleses , ou alguns, ou melhor ainda, alguns que eu conheci, dizem que Bentleys e Lamborghinis são coisas de jogador da bola e que só se dá por um verdadeiro aristocrata quando ele abre a boca, não é quando chega ao parque de estacionamento nem quando passa da porta para dentro. É um pouco por isso que grande parte das despesas das chamadas classes altas são hoje em dia em educação, e cada vez há uma maior selecção e segregação económica de estabelecimentos de ensino, porque essas mesmas classes já viram há muito tempo que virtualmente qualquer pessoa pode chegar a andar de Aston MArtin e vestir-se de Karl Lagerfeld, mas uma educação de excelência é trabalho de gerações e não está ao alcance de todos. Nem está na moda.

E voltando ao Karl Lagerfeld , o senhor tinha um gato, do qual gostava muito, de resto como todas as pessoas que têm gatos. A diferença está no facto de o gato do Lagerfeld ter duas empregadas a tempo inteiro para tomar conta dele , duas, e de estar contemplado no testamento do homem. Duvido que me volte a interessar pela história dele mas seria interessante saber quantos dos seus 150 milhões de libras deixou ao gato (que tinha uma conta no Instagram seguida por 50 mil imbecis) e quantos deixou por exemplo a uma instituição que se ocupe de gatos abandonados. Duvido que uma pessoa que viva num mundo em que é normal que um  gato tenha   dois empregados tenha sequer conhecimento de que essas instituições existem.

As elites , sejam as económicas , sejam as culturais sejam as hereditárias, vão-se distanciando cada vez mais do resto das pessoas e as desigualdades de toda a ordem não param de aumentar, isto não é só uma opinião que eu tenho , está identificado, estudado e quantificado por quem o sabe  e pode fazer. Tenho alguma, pouca, esperança que parte dessas mesmas elites entenda que não conseguirá viver numa bolha se o sistema colapsar, que mesmo os seus mega iates precisam de plebeus para funcionar e que não   serve de muito ter uma pista de ski ou uma praia privada se fora da vedação só há miséria e guerra. Que entendam isso e acedam aos clamores cada vez maiores para que os bilionários paguem mais impostos e para que se acabe com os paraísos fiscais. As hipóteses de isso acontecer serão as mesmas de se encontrar uma política global de combate às alterações climáticas.

Hoje em dia é quase consensual entre os historiadores que a República Romana caiu por causa das desigualdades e da xenofobia. Depois da conquista de Cartago, Espanha e Grécia a afluência de riqueza a Roma foi imensa , e toda concentrada nas mãos da classe política que em Roma era a mesma que a classe militar. Isto causou ressentimento profundo entre a população , cuja qualidade de vida pouco ou nada subia e que era mantida quieta com promoções do Jumbo , TV e futebol, perdão, pão e jogos de circo. Às conquistas territoriais sucedeu-se outra afluência enorme : de estrangeiros, quer escravos quer soldados livres que tinham servido nas legiões e tornados cidadãos. Estes estrangeiros foram alvo fácil para o ressentimento das massas e , juntamente com a desigualdade galopante, foram o fermento da guerra civil, da queda da República e do surgimento da ditadura imperial.

A História está aí, para quem quiser aprender com ela, de falta de aviso ninguém se pode queixar.

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