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Façam alguma coisa!

No meu voo de hoje vinham alguns jovens turistas, já lá vai o tempo em que no inverno a ilha  fechava para o turismo, agora temos turistas todo o ano. Jovens, europeus do Norte ou americanos, a maior parte dos de hoje em idade escolar. Com o lustro e a beleza física que resultam  de gerações em segurança e bem estar e com o respaldo financeiro que permite a miúdos terem férias de dois mil euros. Com as roupas da moda, mas não da alta moda ou lá como se chama, não é a doença das marcas mas ainda assim é moda, é um certo visual que quer mostrar que somos modernos mas modestos, globais mas tribais, ambientalistas mas não hippies, à vontade mas com pinta, baixo custo mas com impacto.

Smartphone em punho porque é o sistema de suporte de vida, usar um  saco de pano cru e um telemóvel de 800€  não  parece incongruente. Garrafa de agua  (não de plástico, claro, uma de 50€ que se usa várias vezes) sempre à mão, não vamos correr o risco de desidratar nesta travessia de terras inóspitas em que a possibilidade de encontrar água potável é incerta.  É esta juventude privilegiada que desembarca aqui às centenas, à procura do que temos de único e do que nunca paramos de martelar na publicidade:  o que é natural . Temos carros de aluguer , percursos em trilhos marcados, passeios de barco a motor, casas com ar condicionado  e wifi por todo o lado para toda a gente que vem procurar o natural.

Todos estes visitantes, desde a juventude dourada que é  a mais bem tratada , bem educada, alimentada , alojada e informada de sempre na História da Humanidade e apesar disso acha que é oprimida e tudo isso, até aos mais velhos, as primeira gerações e possivelmente as últimas a usufruir de um sistema de segurança social que é um puro esquema de pirâmide que se mantém em andamento à custa de crédito e de investimentos nos (horrorosos) mercados financeiros, toda este gente, dizia eu , põe a preservação do Ambiente num patamar muito elevado.

Todos são muito conscientes dos problemas que nos afectam e do que nos espera. Todos acreditam e são capazes de desenvolver ideias sobre o Antropoceno. Todos concordam que as alterações climáticas são reais e todos acreditam que os governos têm a obrigação de fazer alguma coisa. E é daí que vem o meu problema com isto, todos exigem que se faça alguma coisa, muito poucos estão dispostos a fazer alguma coisa.

Já tinha visto umas coisas aqui e ali mas deparei-me agora com este artigo sobre manifestações de adolescentes por toda a Europa. Exigem acção. Protestam. Bloqueiam e fazem greves escolares. Vi vídeos das jovens líderes dos movimentos, testemunhos sinceros de jovens preocupadas com o seu futuro. Apelos emotivos. Ted talks.

O que me faz sorrir, como macaco  velho, cínico e insensível que sou, é que esta garotada toda está perfeitamente em sintonia com a música dos tempos: Indignamo-nos e exigimos que alguém faça alguma coisa, mas não nos perguntem o que é que estamos nós dispostos a fazer.

De que é que prescindimos nas nossas vidas para “salvar o planeta”? Que tecnologia poluente vamos deixar de usar? Que hábitos alimentares estamos dispostos a mudar? De que confortos ou conveniências vamos prescindir? Que indústrias propômos encerrar? E a roupinha, vamos usar as roupas até se gastarem ou continuar o ciclo da “moda” e adorar a variedade? E os cosméticos, é para abandonar ou as modelos da PETA precisam do seu rouge e sei lá que mil merdas mais que as mulheres põem na cara antes de nos virem falar sobre o seu amor pelo natural? Sabem que os metais raros que estão em cada um dos nossos telemóveis são extraídos em minas em países como o Congo, que funcionam como o próprio Congo em geral? Não me venham com lamentos sobre as crianças mineiras se não conseguem largar um objecto que existe porque elas existem. E esse instrumento máximo para assinalar a virtude nos nossos dias, o carro eléctrico, que trabalha a baterias, nem vale a pena dissecar o custo ambiental do seu fabrico e que acabam por ser carregados com electricidade produzida pela queima de combustíveis fósseis, esses carros cujo impacto ambiental total deve ser pouco mais que insignificante? Podíamos andar todos de Prius amanhã que o mundo ia  continuar a cozer lentamente, não se iludam.

Vejam este gráfico, os motores do crescimento das emissões :

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Diz respeito aos EUA mas os números na Europa não hão-de ser radicalmente distintos. Por cá querem-nos convencer de que são os automóveis o problema, os diesel em particular. Uma narrativa especialmente apelativa para as pessoas urbanas , servidas por transportes públicos e que não precisam de carro. Para esses, cada vez mais a maioria , é confortável exigir restrições aos carros e aplaudir a intrujice dos “limites de emissões” que só servem para os fabricantes venderem mais carros  e para se apaziguarem algumas consciências.

Comparem as emissões dos camiões com as dos aviões. Estima-se que a aviação tem um impacto de cerca de 2% nas emissões de CO2. Sabem quem é que faz essa estimativa? As companhias aéreas.  E a conta não fica por aí porque obviamente não se trata só de calcular o combustível queimado em cada voo, há toda uma série de emissões laterais, mas de qualquer maneira não vejo ninguém , muito menos a juventude urbana moderna e privilegiada da Europa e dos EUA, interessado em deixar de voar ou vir dizer do alto de um palanque num protesto : Temos que viajar menos de avião!! Uma continha para os meninos que andam a entupir as ruas aos berros de “façam alguma coisa” : um voo transatlantico de ida e volta emite CO2 suficiente para derreter 10 metros quadrados de gelo polar.  Todos os dias há cerca de 4500 voos transatlânticos. Paramos com isto ou não? Aqui há uns meses aterrou aqui uma cineasta brasileira. A sua vida é fazer documentários sobre minorias étnicas oprimidas e tal, veio cá mostrar um filme feito em África. Passa literalmente a vida a voar de um lado para o outro e não lhe pareceu um tanto prejudicial ao ambiente voar 4 mil kms para vir dizer a 50 pessoas : eu fiz este filme, alguma pergunta? Claro, não foi só isso, veio conhecer, porque as nossas viagens individuais não fazem mal nenhum, más são as viagens em agregado, especialmente as dos outros.

Nunca vimos nem vamos ver  uma campanha a pedir o fim das viagens aéreas, ou mesmo a sua redução,  viajar de avião é uma necessidade do mundo globalizado e uma  aspiração  da juventude moderna, que sofre muito e exige a solução de um problema que, é certo, não foi ela que causou mas que não contribui com grande coisa para resolver, porque o problema radica nos nossos hábitos de consumo e no modo como a nossa economia está estruturada. Metade dos putos americanos que andam pela rua de T Shirt do Che Guevara quebravam-se em lágrimas se acordassem num sistema socialista, mas esta é a época da imagem, e se a estética da revolução é apelativa, os detalhes deixam de importar muito.

Muito acima dos aviões na escala dos maiores emissores estão os navios de carga. Esses navios andam a abastecer as fábricas e o comércio internacional, para trazer a estas populações o conforto e todas as demais coisas que eles querem , nomeadamente porque passaram o último século a ouvir prometer-lhes tudo  e a ver a publicidade convencê-los de que precisam de tudo isso para terem uma hipótese de serem felizes. Quando as promessas falham, enchem-se as ruas .

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Perguntem a estas pessoas que sacrifícios concretos estão dispostos a fazer em prol do ambiente, porque separar o lixo não só não é um sacrifício como não vai arrefecer o planeta, tal como não mandar lixo para o chão em Bruxelas não vai retirar 500 toneladas de lixo diárias das ruas de Port au Prince…que acabam no mar.

Esta “Ted Talk” é impressionante , primeiro porque a miúda consegue em 10 minutos descrever o problema todo . É igualmente impressionante ver uma miúda de 15 anos com aspergers subir a um palco e fazer de memória um discurso poderosíssimo na sua segunda língua. E é impressionante porque mostra que os mais pequenos ainda acreditam que é possível mudar o sistema antes que seja tarde, que os poderes vão ouvir o apelo e , mais importante do que isso, conseguir coordenar acção global e consequente. E finalmente é interessante notar o aplauso estrondoso que ela recebe, de pessoas que tenho a certeza mudaram pouco ou nada na sua vida quotidiana depois de ouvirem aquilo e saírem da sala, terão talvez mudado na convição e determinação de  exigir que se faça mais.

Já desde o tempo do Al Gore que ouço dizer , com dados e argumentos férreos, que acabou o tempo. Que alterações dramáticas estão à porta e são irreversíveis, salvo alguma acção conjunta e revolucionária, que obviamente nunca vai acontecer, por mais manifestações e exigências que se façam. Não costumo precisar que me digam seis vezes a mesma coisa para perceber.

E o que é que eu faço, já que não acredito em ir para a rua gritar contra o governo e o capitalismo global e exigir ? Reduzo os meus consumos ao máximo que sou capaz e tento empurrar esses limites. Mantenho o meu pedaço do planeta o mais limpo e produtivo que consigo. Reconheço as minhas contradições e tento melhorar. Tento alertar os outros sem ser muito chato nem muito hipócrita e tento adaptar-me às mudanças que já estão aí e vão aumentar. Para mim até é fácil, não tenho filhos, não quero impressionar ninguém  e levo muitos anos a preparar-me para isto.

2 thoughts on “Façam alguma coisa!

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