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O Ministro e o gasóleo

Durante muitos anos fomos incentivados a evitar comprar carros a diesel porque são mais poluentes que os carros a gasolina e aceitámos isso como certo. São estudos e até dá na televisão.  Não é bem assim , ou pelo menos isso não está demonstrado para lá de qualquer dúvida, muito porque os motores a gasóleo funcionam de modo diferente, apesar de  serem de combustão interna como os a gasolina, e a composição do gasóleo é diferente. Nunca foram recolhidos e analisados dados suficientes para chegar a uma conclusão sobre qual polui mais, em termos absolutos, se um carro de 1300cc a gasóleo se  outro a gasolina, e  não podemos afirmá-lo com certeza. Têm eficiências diferentes, os processos de produção do gasóleo e da gasolina são diferentes, é uma conta diabólica de fazer mas não é feita pela dificuldade, não é feita porque ao fim e ao cabo não interessa a ninguém fazê-la.

Nestas coisas de causa e lutas é sempre preciso ter um inimigo bem identificado e o diesel serve o propósito lindamente. Os fabricantes de automóveis vendem igualmente carros a gasolina, tal como os vendedores, pelo que é  difícil organizar a defesa do diesel, não é uma causa popular, sobretudo nos centros urbanos, onde estão as pessoas que votam e que interessa convencer, agradar e dar a ilusão de acção.”Estão a ser tomadas medidas”.

Um facto que gosto e referir é que os 15 maiores navios de carga do mundo poluem mais do que todos os automóveis do mundo.  Leiam outra vez a frase, por favor, e se quiserem aprofundem com os artigos disponíveis nesse link. “Poluição”, como na comparação entre gasóleo e gasolina, não é uma categoria fixa , no caso dos navios, que queimam fuel muito mais pesado que gasóleo e gasolina , estes níveis de poluição referem-se sobretydo a óxido de enxofre e óxido de nitrogénio, podemos ir esmuiçar os compostos diferentes emitidos por carros e navios e o seu nível de perigosidade mas está estabelecido que, se definirmos “poluição” como “nível de compostos químicos venenosos libertados para a atmosfera”, os tais 15 maiores navios são uma das maiores ameaças que temos.

Vamos admitir que o óxido de nitrogénio e o óxido de enxofre nem são assim tão maus, comparados com o que soltam os motores dos automóveis que queimam combustíveis refinados. Vamos reduzir a proporção para metade e admitir que os 30 maiores navios poluem tanto como metade dos carros do mundo. Isto já é seguro de dizer, com os dados que temos, e  mais interessante se torna quando reparamos que no mundo existem cerca de 52 000 navios mercantes, óbvio que nem todos são semelhantes aos 15 maiores mas todos queimam fuel pesado. Ao pé das emissões destes navios todos, globalmente, as dos automóveis mal registam.

Lembremo-nos disto quando por exemplo a Câmara Municipal de Lisboa quiser banir os carros a diesel do centro da cidade e depois se congratular com o número de navios de cruzeiro que aportam na cidade.

Com essa imagem passemos para o actual ministro do Ambiente, que aqui há uns meses chegou às páginas dos jornais por sugerir por outras palavras que uma boa maneira de sofrer menos com os  preços elevados da electricidade era consumir menos electricidade. Não deixa de ser verdade mas é um raciocínio perigoso da parte de um ministro, que pela mesma ordem de ideia pode aconselhar as pessoas a viver em casas mais pequenas e mais longe dos centros, comer menos, circular menos e por além, como forma a não sofrer com o aumento dos preços. No tempo do Passos um ministro dizer isto daria direito a linchamento imediato, hoje as sensibilidades estão menos apuradas. Além disso o senhor afirmou que na sua casa tinha contratada a potência mínima, 3,5kw. Só se for na casa de férias , disseram os cínicos, “vamos confirmar isso”, diriam os jornalistas num país com jornalismo digno do nome habituado a confrontar o poder. Eu acredito que a maneira de sofrer menos com os preços altos é consumir menos, mas esforço-me por ser coerente com esse raciocínio, o ministro não, de tal maneira que negou logo essa interpretação das suas palavras.

Voltou recentemente às primeiras páginas , com a  questão do diesel, que continua o arqui inimigo do ambiente. Entre outras coisas o ministro diz que quem comprar um carro a diesel hoje , daqui a 4 anos não terá valor de troca. 

Quatro anos é muito tempo, não sei o ministro disse aquilo assim de repente porque lhe saiu ou se foi uma declaração ponderada, nesse caso devia por exemplo ter ido ver o que se previa há quatro anos. Em 2014  pensadores e decisores como o  ministro diziam que por 2018 o uso dos carros electricos estaria generalizado. Tendo a palavra  “generalizado” o sentido que lhe é dado pela maioria das pessoas, noto que isso não se verificou nem está nada perto disso, pelo que esta afirmação do ministro não vale muito. Muita coisa muda em 4 anos e creio que a única maneira de se garantir que isso ia acontecer seria ficando este governo no poder e criando esse facto por via fiscal, taxando os carros a gasóleo até à extinção, o que não é impossível.

Também noto que o ministro acha que um automóvel novo hoje perde o seu  valor em 4 anos, é o mesmo quando me dizem casualmente que o meu carro não vale nada. Vale sim, vale mil euros , compreendo que felizmente num país rico como o nosso para a maioria das pessoas mil euros não são  nada mas para mim e para mais alguns ainda é bastante. Dá para comprar um carro.

E por fim a outra afirmação do ministro, que infelizmente não tenho link para ela mas posso encontrar : “o tempo de vida de um carro são 4 anos”. Aqui temos a demonstração de como esta gente  (uso o termo com  plena consciência de que é depreciativo) olha para o mundo,  do seu nível superior e sem fazer a mínima ideia de como se vive cá em baixo. Ele acha que um carro dura quatro anos porque toda a sua vida (fui verificar) ocupou altos cargos do Estado, que trazem invariavelmente “carro de serviço”. Quanto mais alto se sobre na escala, melhores são os carros, e mais importante, renova-se a frota a cada quatro anos, aqui sim, plenamente em regime SCUT, sem custos para o utilizador.  Arrisco dizer que o ministro do ambiente nunca comprou um carro para si desde que começou a trabalhar, nem comprou combustível, nunca pagou portagens nem estacionamento nem seguro, pelo que é esta a ideia que tem dos automóveis: duram quatro anos e os a gasóleo são terríveis para o ambiente.

Para mim um automóvel é um meio para nos levar de A a B  permitindo transportar o que precisamos. O meu carro é de 1996, tenho-o há uns 15 anos, é a gasóleo e espero ficar com ele até ele deixar de cumprir a sua função de meio de transporte. Compreendo que para muitas pessoas o carro seja um meio de afirmação de qualquer coisa e que a maior parte engula vorazmente a publicidade que faz com que as pessoas pensem que uma coisa está “desactualizada” e tem que ser trocada. Igualmente compreedne que para muitas pessoas o carro seja uma paixão que lhes consome tempo e rendimentos e gostam de ter carros potentes e recentes. Eu provavelmente também tinha se pudesse,  mas como não posso não tenho e isso não me tira sono, além disso há várias vantagens nos carros velhos além do preço mas não vale a pena agora falar delas.

O que é absolutamente falso é afirmar que a vida de um carro sejam 4 anos, nem sequer  são 12 como dizem os vendedores e fabricantes, é a mesma história com os telemóveis que as pessoas compram como topos de gama para dois anos depois se convencerem de que já não servem. Um Ministro do Ambiente em condições devia combater este género de consumismo daninho e incentivar as pessoas a comprar menos coisas e a usar o que têm ao máximo, mas isso acho eu, que sou um bocado maluco. A maior parte dos políticos, seja de que pelouro for, quer é manter a máquina em andamento.

Ministros do Ambiente que estivessem seriamente preocupados com a poluição atmosférica deviam apertar os calos à indústria da navegação e em vez de forçar os cidadãos automobilistas a largar o diesel  deviam forçar a Maersk, Hapag Lloyd , CSC e todas essas comapanhias a trabalhar a sério para reformar os seus sistemas de propulsão.

O Ministro do Ambiente de Portugal podia por exemplo denunciar e acusar os crimes contra o ordenamento do território ou multar pesadamente a Celtejo que leva anos a conspurcar e contaminar o rio Tejo sem consequências, em vez de participar em plantações de sobreiros em areais à beira mar ou tentar coagir o cidadão a trocar de automóvel frequentemente.

 

3 thoughts on “O Ministro e o gasóleo

  1. Concordo com tudo e assino por baixo.
    Estes gajos pensam que os comuns trocam de carro de 4 em 4 anos, pra eles é fácil andam sempre em viaturas do melhor pagas pelo povo.
    Já agora vamos ter tractores a gasolina?
    É um fartar de vilanagem, é tudo uma cambada, que se armam em donos disto tudo, e pior, das pessoas. Abraço

    Gostar

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