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Fica tudo aí

Programei a visita natalícia ao continente para ser o  mais breve possível, não que não tivesse saudades e muitas pessoas para ver mas por causa dos animais, a velha questão que torna as ausências difíceis de gerir. 2 cães e 30 ovelhas não se deixam a um amigo como quem deixa um gatinho .

Os cães são de “necessidades especiais”, o Rofe tem epilepsia e não é um bicho ao qual as pessoas se cheguem assim à vontade, a Bruma é um dínamo e um feixe de nervos e se estiver aborrecida, sozinha ou confinada destrói tudo e fica um bocado neurótica. Por isso não é só ir lá uma vez por dia dar-lhes comida e água. As ovelhas , nem vale a pena falar nisso agora.

Sendo assim fui por 5 dias e deu tempo de estar com a família um pouquinho além do dia de Natal, ver brevemente três  dos meus melhores amigos e o mosteiro de Alcobaça, que faz sempre bem. Encontrei a actividade para fazer com os meus 5 sobrinhos pequenos, é sempre a minha “prenda de natal”, ainda não foi este ano que fomos a um jogo do Sporting, e sinceramente não estou bem a ver isso acontecer no futuro. A minha relação com o clube anda fria  e  mesmo que houvesse jogo em Lisboa e meios para lá levar cinco miúdos, não estou muito motivado.

Fomos ao Jardim da Fundação Gulbenkian, que além de ser um belíssimo jardim no meio da cidade tem a vantagem de ser de entrada gratuita. Valia pelo passeio e pelo verde, que faz pouca parte da vida deles, e queria aproveitar para lhes falar um bocadinho do Sr. Gulbenkian, tentando fazer perceber estes pontos:

  • O sr Gulbenkian enriqueceu porque além de ter estudado  e trabalhado muito sabia falar com as pessoas.
  • Veio viver em Portugal porque havia guerra, na terra dele era muito perigoso e em Portugal havia paz. Hoje muitas outras pessoas fazem isso, não são ricos  como o sr.Gulbenkian mas também procuram aqui refúgio de guerras e misérias várias.
  • O sr Gulbenkian  era muito rico mas queria fazer e fez coisas boas e belas para os outros, como este jardim, e é por isso que fica na história e todos se lembram dele como uma boa pessoa.

É difícil prender a atenção daqueles cinco, ou dos três que já podiam perceber e guardar alguma coisa, não sei se passou a mensagem , para a próxima tenho que escrever uma história antes .

Dia 27 regressei e dia 29 ao fim da tarde estava a caminho do centro de saúde, com dificuldades respiratórias sérias. Fui no meu carro mas já não estava capaz de conduzir, uma amiga veio comigo. Deram-me oxigénio e um aerosol, acalmou, disse ao médico de serviço quer tenho um enfizema pulmonar exuberante, (é a única parte da minha pessoa que é exuberante) . Fez-me um raio X, perguntou-me se me sentia melhor, eu disse que sim . Você tem que fazer inalações de eucalipto e ginástica respiratória. E tem que fazer análises, venha cá quarta feira para tratar disso.

Voltei para casa, passei uma noite difícil e assim que amanheceu um amigo levou-me aos bombeiros, que me deram oxigénio, meteram na ambulância e arrancaram logo. Fiquei internado , primeiro nas Flores e depois transferido para a Horta, onde estive até dia 9.

É fácil de calcular que o médico que me recebeu e, com um raio X dos meus pulmões na mão, me mandou para casa inalar eucalipto vai ter problemas na sua vida a curto prazo. A  primeira coisa que fiz quando regressei foi ir pedir o livro de reclamações, a senhora da secretaria até ficou pálida mas disse-lhe que não só não tinha reclamação a fazer sobre nenhum outro pessoal do centro de saúde como só tinha elogios e agradecimentos pelo modo como fui tratado.

Além do médico passar a odiar-me e receber talvez uma advertência  superior não prevejo realmente consequência nenhuma, não faço ideia de como são encaminhadas estas reclamações nem do que pode acontecer, mas tinha que apresentar uma reclamação formal. A verdade é que eu podia ter morrido em consequência da decisão dele, não é uma coisa que me aconteça frequentemente e levei a mal.

A morte, em especial uma boa morte, é uma coisa em que penso bastante, muito mais desde que abandonei a fé que postula a vida eterna e o juízo divino. Se rejeitamos um  conjunto de explicações e coordenadas é bom que encontremos outro para o substituir, porque isto não pode operar no vácuo apesar de todos os dias muitas pessoas nos provarem que sim ,  é perfeitamente possível viver sem pensar muito.

Se uma pessoa acredita que a morte biológica é o fim da nossa pessoa e pronto , a vida deixa de ser encarada em termos de uma preparação ou antecâmara de outra, essa sim a que importa, quanto mais não seja porque é eterna. Seja numa ascensão a um paraíso , de corpo e alma ou só alma, quer seja pela reencarnação noutro corpo novo, as religiões apostam tudo na ideia de que isto não acaba aqui, que podemos esperar recompensas se formos bons e castigos se formos maus, ambos eternos.

Nada  me leva a crer que isto não acaba aqui, não existe  evidência nenhuma de que há vida após a morte, e sendo assim o foco todo é viver a única vida que temos o melhor possível. Se o fizermos mesmo bem, a nossa memória pode perdurar e podemos ter impacto da vida de pessoas muito depois de mortos. E além disso podemos morrer sem angústias nem terrores,  creio ser um objectivo importante.

De qualquer maneira, ainda não dei o que tinha a dar e se bem que a morte não me mete medo  não quero morrer entretanto. Não querer ir é parte  de conseguir ficar. A pensar na pressa com que vi a minha família e amigos, a correr porque tinha muito que fazer, para depois ficar 10 dias no hospital e tudo acabar por se  resolver e fazer  sem dramas, tive que pensar outra vez numa expressão  que só ouvi aqui e é das que gosto mais : a gente morre e fica tudo aí.

 

 

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