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Paris já está a arder?*

Escrevi um rascunho deste post a semana passada, tinha ido beber um café, coisa que não faço todos os dias e muito menos no Inverno, e na TV passavam imagens de uma carga da polícia de choque nos Campos Elísios.Fiquei a ver um bocadinho, com um certo gosto por várias razões. Uma , são franceses , que como povo não me são simpáticos. Duas,  já estou na fase de acreditar que isto não pode de maneira nenhuma continuar  em paz,  uma paz que me parece que ninguém valoriza.Quer-me parecer  que  ninguém ouve os centristas e os moderados e que cada vez há mais gente que acredita que a solução para as suas dificuldades do dia a dia passa por uma espécie qualquer de ruptura violenta.

Já tinha visto que havia manifestações e protestos, muita  gente anda a partilhar uma informação que acho muito relevante, creio que em França o salário mínimo são 1400€, a gasolina subiu para um preço ainda menor do que o que nós pagamos e esse aumento dos combustíveis foi o suficiente para inflamar a rapaziada. Também é sabido que em França proliferam grupos de , digamos, jovens desenquadrados e marginalizados, noutros sítios conhecidos por corrécios e delinquentes, de várias cores e religiões cujo sentido da vida é a bordoada, eles até têm um nome para isso e desde há muitos anos que podemos ver o que se tornou uma tradição de ano novo dessa juventude : incendiar automóveis às centenas. São jovens incompreendidos e rebeldes dizem uns , são delinquentes comuns dizem os reaccionários radicais. Juntando isso às taxas de desemprego jovem e aos subsídios estatais que fazem com que estar desempregado nem seja  assim um drama muito grande para muita juventude, quer  dizer que mão de obra para motins e distúrbios nunca falta.

Antes das últimas eleições francesas  um canal  que eu via de vez em quando  em casa do meu vizinho mostrou  um trabalho de “opinião pública”, entre outros entrevistou duas famílias de férias a almoçar numa esplanada, o operador de câmara foi mauzinho e mostrou a mesa cheia de marisco e vinho branco e aquelas bestas, que tinham feito centenas de kms nos seus carros do ano para gozar as suas férias na praia com mariscadas, nem viam o absurdo e o insulto que era  queixarem-se de que as coisas estavam muito mal, os seus direitos ameaçados e o nível de vida a cair. Os famosos “protestos de barriga cheia” , que nós conhecemos tão bem, sempre foram das coisas que mais asco me deram.

Para muitas pessoas estes protestos em França por pagarem o gasóleo mais barato que o nosso enquanto  ganham o dobro querem  dizer que nós somos uns tansos e mansos, a mim diz-me que os franceses, que acham que inventaram o protesto popular,  ainda acreditam que distúrbios, bloqueios e manifestações lhes resolvem o problema, e quando não têm um problema inventam um.

A quem acha que resolvem,  quero lembrar o mais famoso dos protestos revolucionários de sempre, precisamente a Revolução Francesa. Em 1789 os revoltosos derrubaram o regime com um banho de sangue e a boca cheia de Liberdade, Igualdade e Fraternidade  e  em 1804 , meros 15 anos depois (faz hoje anos, por isso peguei no rascunho e publico isto), estavam a coroar Napoleão Bonaparte Imperador dos Franceses  e o homem  já estava bem lançado no seu projecto de ser Imperador da Europa. Foi um projecto que nós pagámos com muito sangue e tesouro, por três vezes, mas os amigos são os franceses e os pérfidos são os ingleses. Ainda ninguém me conseguiu  explicar porque é que um imperador é melhor que um rei mas aquela gente ganhou a fama de ser a pátria da liberdade  depois da Revolução e pronto, assim ficou.

Vi  há pouco um pequeno clip de umas dezenas de manifestantes com o colete amarelo a dançar  a macarena no meio de uma auto estrada. Eu acredito que se as coisas estão más ao ponto de se bloquearem as vias públicas, restringir o movimento de toda a gente e confrontar a polícia, o caso é muito grave e  a luta é séria. Se transformam aquilo numa palhaçada, lá se vai a credibilidade e simpatia. Noutro tom, vi instalada uma guilhotina em tamanho real  na praça do Louvre, e  chamem-me o que quiserem mas eu estou sempre do  lado oposto aos que gostam de execuções públicas, reais ou figuradas. (nota:  foi em 1977 que os franceses guilhotinaram uma pessoa pela última vez, lembrem isto quando vos vierem com merdas sobre os franceses e os direitos humanos)

É claro que parte daquele arraial é  feito pelos que não fazem outra coisa e vivem para o protesto e as manifestações, incluindo hooligans, neo nazis, bolcheviques modernos, socialistas revolucionários e muitos outros que acham que é a coisa francesa a fazer, mas tem que haver líderes e organizadores e gostava de saber se algum jornalista já foi perguntar a esses cabecilhas e porta vozes, dado que todos exigem a demissão do governo, qual é que é o plano para o dia seguinte e em que medida é que a demissão do governo vai fazer baixar o preço da gasolina ou aumentar os salários ou baixar os impostos, a menos que esta gente toda acredite, como é muito possível, que os governos imprimem e distribuem o dinheiro que querem e controlam toda a economia.

Causam-se prejuízos de milhões, lança-se o caos na vida de centenas de milhar, cai o governo,  e depois? Avança o homem ou mulher providencial com a bala de prata, a panaceia para os males modernos? Ou somos adeptos do para já vamos assim e depois logo se vê? É que eu aplico esse princípio muita vez na minha vida, mas acredito que não se pode nem deve trabalhar assim na gestão dos Estados, nunca dá bom resultado. Exemplo bem actual, o descalabro do Brexit.

Os franceses são dos povos mais ricos e que têm vidas mais confortáveis no mundo inteiro, fazerem esta destruição e caos  por causa do aumento da gasolina, ou porque estão descontentes com a economia e o aumento de preço foi o catalisador  é, entre outras coisas, uma certa falta de respeito e consideração por sociedades em verdadeira crise, seja económica, social ou política.

E ainda há aqui outro problema: somos todos muito democratas, concordamos que a democracia representativa é o melhor regime possível e gostamos de ter regularmente eleições livres… excepto quando não são os nossos que são eleitos ou quando a realidade não se mostra conforme as nossas expectativas, aí passa ser legítimo derrubar governos nas ruas. O governo agora ou reprime e aguenta ou vacila e cede , não é uma escolha que eu gostasse de ter que fazer. Com o meu pacote de pipocas na mão gostava de ver mesmo Paris a arder,  o governo a cair e o poder passar para as mãos de um comité de cidadãos numa praça, com a boca cheia de slogans, abstracções e demagogia, pronto a duplicar os salários e cortar em metade os preços por decreto. Passados meses entraria um Melenchon , que é um Maduro com educação e sofisticação; ou uma Le Pen, que é o Trump de saias e  alfabetizado. Quero ver isso, e quero ver esta gente toda que hoje  berra e rasga as vestes com as malfeitorias da União Europeia, quero vê-los a lidar com a alternativa.

 

 

*Paris já está a arder ? é um livro sobre a libertação de Paris dos nazis, depois da derrota vergonhosa, rendição e anos de colaboracionismo entusiástico pontuado por episódios de resistência esporádica e organizada, financiada e treinada pelos ingleses e americanos. Outras pessoas interpretam esses anos de outra forma e não tem muito a ver com a situação actual, escolhi-o para título porque soa bem nesta altura.

4 thoughts on “Paris já está a arder?*

  1. É mesmo isso.
    Teria piada se nao fosse tao dramatico. Acho que em breve o trump de saias e equivalentes vêm mesmo e ai esta gente que se entretanha toda de pau na mao…nas cidades civilizadas de que tu, e agora eu, nos afastamos

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