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Cool Farm

O Observador publica uma reportagem muito bem feita e muito instrutiva sobre um projecto falhado que a meu ver junta tantos dos nossos problemas e é um retrato tão bom da nossa realidade que vale muito a pena ler.

Em 2014 , no meio da febre mediática  das startups e do empreendedorismo que nos ia salvar e estava ao alcance de todos , 4 amigos, 3 engenheiros de software e uma bióloga,   juntaram-se para empreender. A ideia era criarem uma app que conseguisse controlar plantas à distância, através de um toque no telemóvel. Para quem não leu o artigo digo já que a empresa faliu  com um milhão de euros em dívidas.

A ideia do controlo de plantas por meio de apps parecia  boa, e passaram ao circuito dos eventos como o   programa de aceleração de startups da Beta-i, o Lisbon Challenge, em 2015. Aí se calhar alguém lhes disse por outras palavras e com vários termos em inglês  que o mercado para curiosidades dessas parecia um tanto  reduzido e volátil, e a operacionalidade talvez duvidosa, e  alteraram o modelo de negócio: em vez de desenvolverem uma solução direcionada ao consumidor final, optaram por direcioná-la às empresas e transformaram a app num sistema de controlo — igualmente à distância — para estufas

Já não era uma app, era um sistema. O que permitia àqueles amigos ou conhecidos  aspirar a criar uma app se calhar já não estava presente quando o projecto passou a ser produzir um sistema para vender a empresas, que na minha opinião de leigo é como passar das distritais para a primeira divisão, ou mesmo para um desporto diferente. Os engenheiros informáticos e biólogos passaram para a engenharia metalomecânica e de automação agrícola sem pelos vistos pensarem muito nisso, ou se pensaram concluíram que eram capazes. How hard can it be?, como se diz no empreendedorismo.

Como engenheiros de software se calhar não gastaram muito tempo a pesquisar as empresas às quais pretendiam vender o sistema, teriam  percebido que há décadas que os israelitas são líderes mundiais no que é automação e optimização de sistemas de regas e estufas, arrisco que a abordagem deles era mais baseada no conhecimento de tecnologia digital do que no conhecimento de agricultura. Algum dos gurus lá das incubadoras e aceleradoras lhes deviam ter apontado que são precisos ambos os conhecimentos, e que eles queriam entrar num mercado global e fortíssimo.

Com a ideia de redescobrir os sistemas de automação de rega, nutrição e ventilação em hidroponia (ainda o ano passado estive para comprar um sistema  no olx, existem há muitos anos) seguiu-se o passo de todo o empreendedor prudente que ainda não tem nem produto nem clientes :   Em maio e junho de 2016, a empresa participou em três feiras internacionais: em Berlim, no Dubai e nos EUA. Objetivo: “Avaliar o potencial de várias áreas geográficas” para o produto que estavam a desenvolver. Contudo, “a informação recolhida durante as feiras, embora valiosa para o processo de desenvolvimento, resultou em contactos feitos demasiado cedo, tendo em conta o estado de maturação do produto. 

Não seria preciso ir em pessoa ao Dubai, aos EUA e à Alemanha para perceber que não só há agricultura moderna noutros sítios como também que a necessidade que eles queriam satisfazer já estava coberta, mas isto só se vive uma vez. Noto que entretanto os pagamentos à segurança social já estavam  a falhar, mas isto é preciso é prioritizar as despesas. Ir à feira no Dubai até teria sido um investimento se eles tivessem regressado convencidos de que não tinham hipótese nenhuma.

Em maio de 2017, a CoolFarm foi distinguida como “Startup do Ano” na terceira edição do evento Ativar Portugal Startups, realizado pela Microsoft Portugal na sede da empresa, no Parque das Nações.  

A empresa faliu este ano, é fácil ver  erros olhando para trás, especialmente alguns que nós já cometemos, mas para mim é um exemplo claríssimo de um mundo em que as pessoas pensam que por saberem de  sistemas digitais sabem ligá-los a sistemas analógicos ou mecânicos de um modo produtivo, útil e  rentável , com possível criação de valor.  Um mundo que vive numa bolha de hypes e websummits e ecrans e palestras TED sobre disrupções e futurismo e depois o mundo real passa um bocado ao lado, o mundo em que uma app não resolve todos os problemas. E por fim, como foi mais uma vez este caso, depois de erros sobre falhas, quando os subsídios estatais não se materializam acaba a viabilidade. É o nosso capitalismo e o nosso empreendedorismo.

Isto mostra que há ideias más e mal pensadas que podem fazer muito caminho, um milhão de euros de caminho, basta ter fé,  não nos deixarmos desencorajar e acreditar sempre no nosso potencial e nas nossas capacidades.

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