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Sobre a linguagem

Nunca li nada do Wittgentstein mas tenho pena e hei-de remediar isso, porque  tanto quanto sei a questão que o ocupava mais era a forma como a linguagem condiciona e determina o pensamento e as percepções. Isto é uma coisa que pode parecer óbvia mas não é nada óbvia e merece muita reflexão.

Quem li e reli muito foi George Orwell, que nos trouxe um conceito que ele talvez achasse distópico mas que hoje é quase  real : o newspeak , ou novilíngua , a linguagem inventada pelo Partido da Oceania na obra prima absoluta que é o 1984 . O Partido desenvolveu-a para assegurar conformidade com o Socialismo Inglês , ou Ingsoc (as contracções e simplificações máximas eram parte integrante da língua) . O objectivo era não só exprimir as posições do Ingsoc e dos seus aderentes verdadeiros  sem a possibilidade de ambiguidades mas também impedir o pensamento noutros termos que não os prescritos. Se não temos uma palavra para uma realidade, não a podemos conceber ou discutir, e se existe uma palavra, existirá a realidade correspondente, ou pelo menos a capacidade de imaginar isso. Como o Orwell viu, quem controla a linguagem controla melhor a sociedade do que quem controla por exemplo os famosos meios de produção, porque consegue controlar o modo de pensar das pessoas. O livro tem um apêndice inteiro sobre o newspeak, e ler aquilo  hoje (foi escrito em 1949) dá arrepios a almas mais sensíveis a estas coisas.

Tendo o Wittgenstein exposto logo na primeira metade do século passado a importância e modo como a linguagem determina o pensamento e tendo o Orwell (com muito mais divulgação do que o filósofo, ninguém faz filmes sobre filósofos) alertado para os perigos e potenciais da manipulação e alterações na linguagem, não é de admirar que ao longo dos anos um exército de ideólogos e de idiotas bem intencionados tenham dedicado esforços imensos a moldar a linguagem por um determinado ângulo político e social. O deles, que claro está, é sempre  o certo e justo.

Convencidos de que a sua causa é a causa justa ou que o seu poder é o necessário, convencidos de que os seus oponentes estão todos num patamar desprezível e que são prejudiciais, ideólogos de todas as estirpes tentaram , e continuam a tentar, com vários graus de sucesso , mudar o modo como as pessoas falam e estabelecer o que se pode e não pode dizer. Sem  nada a ver com questões académicas de gramática, semântica, ou vocabulário e tudo a ver com lutas políticas, a linguagem vai mudando. Muito devagar para a generalidade das pessoas, vertiginosamente para as vanguardas, e infelizmente não estou a falar de coisas de adolescente como substituir um “que” por um k , estou a falar de coisas mais sérias como o uso selectivo da palavra terrorismo, ou austeridade por exemplo.

Aqui há uns tempos o Bloco de Esquerda reuniu-se em convenção , entre outras coisas para debater a maneira de continuar a ser contra e a votar a favor, uma dialéctica que não deve ser fácil de manter. A dado momento um deputado subiu à tribuna e saudou “Camaradas e Camarados”. Quando li isso pensei que só podia ser a gozar, era impossível, um lapso…mas não é uma expressão passível de engano como podia ser   “senhoras e senhoros”, porque quando se saudam os camaradas está implícito serem os e as camaradas, desde que a palavra existe. Houve muito gozo e a coisa passou, talvez fosse uma brincadeira…até que o deputado escreve um artigo no público , intitulado precisamente “Camarados” em que começa por referir a sua utilização da expressão, não um lapso, de onde se depreende que, fosse por provocação ou outra intenção qualquer , foi deliberado.

Li o artigo com uma certa incredulidade, por duas vias diferentes. A primeira fica-se pela bizarria da expressão “camarado”, que vem atrás de outras como “presidenta” e “pilota” , nunca atingi onde é que está a discriminação quando se diz “a presidente”, tal como não dizemos as estudantas e os estudantos , porque se  dizemos  “presidenta” admitimos que “presidente” não é neutro em género e seríamos, respeitando a lógica,  obrigados a falar do presidento. As potencialidades são infinitas e não me parece que venham trazer clareza à comunicação, que eu acho que deve ser um dos principais objectivos.  Além disso, se achamos como os Blocos Capazes sem dúvida acham, que a opressão de género pela linguagem é um fenómeno global que se resolve inventando palavras novas, como é que se safam os falantes de inglês? Onde é que estarão os estudiosos progressistas  de Berkeley e os colunistas do Guardian nesta questão dos camaradas e camarados, presidentas e presidentos? Para eles é forçosamente irrelevante, por via da maneira como a sua língua é estruturada, nós queremos fazer disso uma questão política só porque a nossa língua discrimina e atribui géneros aos substantivos. É bom de ver que a questão está na recusa em admitir que só há dois géneros e que há substantivos , como “camarada” e “presidente”, que são neutros.

Só há dois géneros???” escandaliza-se uma  fracção da população para a qual basta um conceito vir embrulhado em jargão  académico moderno para ser logo aceite como a realidade. Então e os transexuais e os hermafroditas e os cisgénero? (estes últimos não sei o que são nem me interessa saber)  Bom , a menos que me digam que essas pessoas são mais do que uma comunidade residual (no sentido de muitíssimo pequena) não lhes reconheço o direito nem reconheço a necessidade de alterarmos a linguagem só porque talvez um dia possamos cruzar-nos  com um hermafrodita (como é que o sabíamos?) e arriscamos ofendê-lo se utilizarmos o pronome errado, ou um pronome antigo.É muita comoção , disrupção e atrito para uma possibilidade tão pequena.

A academia produz quilos e quilos de estudos sobre questões de identidade e género, numa proporção que nos leva a pensar que é um dos problemas mais prementes da sociedade e que é sobre esse tema que gira o futuro da nação. Não é. Procurei alguma coisa e em toda essa produção académica não encontrei um estudo que seria um verdadeiro estudo ( e verdadeira ciência social) que determinasse : em Portugal temos x% de cidadãos homossexuais, y% de transexuais e por aí além, ou seja, que nos desse um retrato claro da dimensão dessas comunidades, porque estamos aqui a fazer política, a policiar a linguagem e a exigir mudanças  de comportamentos  em prol de um grupo do qual ninguém conhece bem a dimensão, e isso não me parece correcto. Creio que o primeiro passo em qualquer reivindicação é definir quem são os reivindicantes, e isso não está feito. Além disso tenho a impressão de que há muito activismo por simpatia, muita gente que de repente por uma razão ou outra abraça a luta de um grupo que não é o seu. Claro que isto só por si não é mau, mas pode levar a uma perda de perspectiva e uma distorção da realidade, como quando ouvimos por exemplo uma branca da classe média alta a dizer-nos “tu sabes  lá o que é o racismo?” , pois, nem eu nem tu, mas no entanto…

Tirando as minorias de dimensão  desconhecida , que na minha opinião seriam bem defendidas se lhes garantíssemos todas as protecções e direitos que se garantem a toda a gente só por ser gente, há a questão bem mais premente e real que são as desigualdades de género, entre os géneros clássicos. Sabemos bem quantas mulheres há e quais os abusos e injustiças que sofrem, desde sempre. Quanto ao que há a fazer para corrigir isso…aí está um busílis, não há consenso. Há muito a fazer para alcançar a igualdade de tratamento e direitos entre mulheres e homens mas duvido muito que passe por termos presidentes e presidentas, camaradas e camarados. Sei bem que muita gente ao ler isto vai dizer “este tipo é um reaccionário e um idioto” . Não faz mal , estas coisas são para ser pensadas e discutidas e só sabemos das insuficiências e falhas das nossas ideias quando as expomos, e para as expormos é preciso não ter medo de fazer figuras tristes ou de ofender alguém, outros dos dramas da nossa época, cala-se muita coisa sensata e de discussão importante porque “eh pá tu nem te metas nisso!” e poucas pessoas querem ter opiniões impopulares. Quem é que marca a popularidade das opiniões? Os media e as redes sociais, em ambos impera a manipulação, o espírito de manada, a moda e o tribalismo.

Voltando ao senhor dos camarados e ao tema disto que era a linguagem , vou voltar ao texto dele para falar de outro problema diferente da neutralidade de género ou das palavras inventadas: as imprecisões, hipérboles alucinadas e falácias que se encontram todos os dias no discurso político.

Diz o senhor – ” (eu) Tinha, ainda, acusado Nuno Melo de alta traição por se aliar a esses carrascos do povo português.

Alta traição é um crime bem definido no código penal e não abrange declarações em favor ou contra certas medidas. Carrasco é o que executa uma sentença de morte. Estas pessoas atiram assim livremente estes termos sem pensar, como se estivessem a escrever poesia, tal como passaram anos a chamar fascista a tudo o que fosse de direita, não  lhes contaram a história do Pedro e o Lobo em pequeninos e quando o fascismo chegar, se chegar, vão andar aos berros que vem aí o fascismo e as pessoas vão dizer ó pá cala-te, já andas com essa conversa há anos e nunca aconteceu nada. 

Adiante: “O debate sobre a linguagem inclusiva não é sobre meras discordâncias linguísticas, esconde questões mais profundas. A linguagem inclusiva não é um fim em si mesmo, garantindo todas as inclusões. É mais um passo numa luta em várias frentes, mas com um mesmo objetivo: vencer a agenda patriarcal”.

No meu caso é mesmo sobre discordâncias linguísticas mas admito que o debate esconde questões mais profundas e verdadeiramente reaccionárias. Quanto à inclusão, esse farol que orienta tantas lutas (notar que o deputado refere “todas as inclusões”, turvando ainda mais as águas para quem gosta de definições claras) não sei se deva ser o objectivo primordial das políticas, mas eu sou um individualista que está excluído de muita coisa, umas vezes por vontade própria, outras por força das circunstâncias e estou bem assim, não preciso que me incluam em nada a não ser no número dos cidadãos de pleno direito,  uma coisa bem simples. Muitas vezes a febre da inclusão leva  à redução ao mínimo denominador comum,  um dos dramas do socialismo : não podemos ser todos ricos, mas temos que ser iguais, sejamos todos pobres. A Maria Leal é muito mais inclusiva que a ópera e as bifanas são mais inclusivas que as ostras mas ninguém propõe substituir uns pelos outros ou que, a bem da inclusão e na impossibilidade de irmos todos apreciar ópera e ostras, passemos todos a comer bifanas e ouvir Maria Leal porque é mais inclusivo.

Por fim, o grande desígnio do deputado Pedro Filipe Soares , vencer a agenda patriarcal.  Isto enferma do mesmo problema das teorias da conspiração: a crença numa “agenda” , entendida como um conjunto de métodos  e directrizes estabelecidas por um grupo para alcançar determinado objectivo. Dizia no outro dia não me lembro quem que “só acredita em teorias da conspiração quem nunca organizou um jantar para dez pessoas” , e acreditar que há uma agenda definida de um grupo, seja “o patriarcado” sejam “os judeus” sejam “os comunistas” ou “os patrões” é uma pena. Acreditar e falar  na agenda do patriarcado (e na possibilidade de vencer essa agenda imaginária) é ignorar ou recusar que a sociedade é um sistema aberto e complexo , feito de milhões de acções e interacções de indivíduos distintos que não segue nenhuma direcção pré estabelecida, mas é verdade que este pessoal caiu no caldeirão do Marx em pequenino por isso é mais propenso a acreditar em explicações dessas, no devir histórico, no progresso num sentido determinado . Não se pode vencer a agenda porque não há agenda para vencer , o que há a fazer é ir lutando pela Liberdade de cada um ser como é, pelo direito que todos temos a ser respeitados como pessoas e pessoos : a levar a nossa vidinha  como bem entendermos; a usufruirmos  dos mesmo direitos do resto dos cidadãos e a aproveitar ao máximo as nossas potencialidades,   livres de ter que aturar malucos e, idealmente , ideólogos e demagogos. Ou demagogas.

Este texto pode estar confuso e ter  imprecisões, preconceitos e falhas de raciocínio ou informação, mas nunca é demais repetir, está aqui na qualidade de opinião de um gajo e nada mais. Grave e importante  é quando lemos nos jornais ou vemos na televisão pessoas de responsabilidade a embrulhar tudo e a descer por planos inclinados levando-nos todos atrás, vide o que se passa no EUA onde o presidente hoje em dia pode dizer seja o que for em que termos for e os seus apoiantes nem pestanejam e seguem fiéis. Tenhamos cuidado com as palavras e a linguagem, é ela que determina quase tudo.

3 thoughts on “Sobre a linguagem

  1. Muito bom. Concordo.

    Atribui se ao Confúcio: a ordem do mundo depende da retificacao dos nomes. Mas claro que ele pode na realidade ter dito algo diiferente que se “perdeu na traducao”. Ou seria transliteração? Ou teria sido na interpretacao? Nao sei. Mas dessa sentenca pode se tirar qualquer sentido. Dos meus estudos fiquei com a ideia que indicava seguir as hierarquias e ritos que mantinham a ordem. Mas poderia ser um apelo a paz e amor…

    Nesta questao parece me que este pessoal de esquerda, mesmo acreditando nas suas boas intencoes, e crendo que tendo algo de bom ( porque faz debater e pensar em contraditorios), anda a dar tiros nos pes. Porque em vez de diminuir as diferencas acaba por aumenta las, e as vezes estao mesmo a cria las! De qualquer forma, acho que sao capazes de utilizar qualquer coisa insignigicante e transforma la numa guerra fundamentalista para se darem importancia e atencao. As “vitimas” continuam vitimas. As vezes tornam vitimas que antes nao eram. Como muitos passamos a ser encarados como agressores so porque nao embarcamos em delirios linguisticos pos contemporaneos…

    A posicao mais simples e lucida que vi nisto foi a do morgan freeman: https://youtu.be/MYMBg6CKJt8

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  2. Aconselho a perder uns minutos no YouTube sobre esta questão.
    Nos EUA, berço do SJWismo, também há todo um newspeak. Como por exemplo HERstory vs HIStory e huMANkind (que não me lembro qual é o contra agora) ou essa questão dos géneros. Uma pessoa cisgénero é o oposto do trangénero, ou seja identifica-se com o o sexo biológico. Agora, os 70 e tal géneros (juro!) que dizem que existem é que também lançaram um outro newspeak, the pronomes como zhe e zher e coisas do género… o que levou a que um professor de psicologia do Canadá ficasse muito conhecido por se recusar a seguir a lei (!) que fizeram no Canadá de que as pessoas deveriam ser tratados pelos pronomes (inventados) que queriam. Esse senhor veio dar uma conferência à Nova SBE, tiveram que mudar de sala consecutivamente até à sala maior que tinham e os bilhetes esgotaram em 2 horas. Chama-se Jordan Peterson o senhor.
    Beijinhos

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  3. Olha, sendo assim sou cisgénero , tenho que ir ver em que medida é que me andam a oprimir, e mais importante, que falta é que fazia um termo novo para definir uma pessoa que se identifica com a forma como nasceu. A da objecção à HIStory não lembra o diabo e 70 géneros desafia a imaginação. O Jordan Peterson, fui ver quem era assim que os malucos no twitter o começaram a insultar e a ter convulsões porque ele vinha cá falar. Não vi muito mas pareceu-me que expõe o quase óbvio e de senso comum de uma maneira clara sem se enredar em termos alucinados, claro que tem que ser detestado pelas vanguardas progressista dos 70 géneros que são contra a HIStory 🙂

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