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Um espelho distante

Acabei um dos  livros que me deu mais gosto ler, de História que é o meu género favorito. Foi publicado em 1978, não há edição portuguesa e foi escrito por Barbara Tuchman, uma americana que apesar de ser autodidacta tem uma erudição assombrosa e além do mais, porque só isso nunca foi suficiente, escreve narrativas absorventes.

O livro é sobre o século XIV na Europa, século que logo na capa é descrito como calamitoso, e chama-se A Distant Mirror . Ao longo de 618 páginas (e mais umas dezenas em notas, só a bibliografia são 16 páginas) a autora mostra muito claramente porque é que foi calamitoso e quem teve os principais papéis na calamidade, obviamente deixando  juízos de valor para os leitores. Acompanha a vida e carreira de Enguerrand de Coucy um dos maiores nobres da França, figura extraordinária que esteve em quase todos os momentos chave da época, e com isso traça um quadro tremendo de toda uma época e cultura.

É um quadro bastante medonho de uma época de abusos e explorações do “povo”  quase inimagináveis, perpetradas pelos nobres com a colaboração activa e entusiástica da Igreja Católica, cheio de episódios e histórias arrepiantes que explicam bem porque é que a época é muitas vezes chamada de Idade das Trevas. Por exemplo, alguém que leia com atenção  a história do cisma que levou à instalação de um papa em Avignon e outro em Roma (e a dada altura um terceiro em Pisa) dificilmente pode  acreditar que a motivação do clero superior era outra além de poder e dinheiro. Um exemplo, quando Clemente V foi instalado pelos franceses em Avignon a cidade tinha menos de 4000 habitantes e instalaram-se imediatamente 43 representantes de banqueiros europeus. Onde estava o papado estava a finança. A lista das iniquidades da Igreja, desde o frade mais baixo ao Papa, que é extensa demais e não é objecto do livro,  na minha opinião faz empalidecer a contribuição positiva e é uma herança impossível de renegar, amenizar ou tentar justificar,  percebe-se bem como é que apareceu a Reforma e como é que a Europa mergulhou em guerras religiosas  décadas mais tarde. Se há conflitos de origem difusa ou que são causados por vários factores, as guerras religiosas que se seguiram à Reforma e mataram , estima-se, 10 milhões de pessoas nos séculos XVI e XVII, têm origem clara nos abusos dos Papas e de toda a hierarquia.

A quem quiser contrapor a isto  factores como o trabalho da igreja na educação respondo que se somos uma organização dedicada ao controlo precisamos de quadros, pelo que a razão se ser das escolas religiosas não era tanto uma vontade de disseminar o saber mas uma necessidade de educar  quadros e precisamente controlar esse mesmo saber.

Sobre a condição e as espoliações e massacres sofridos pelos Judeus em toda a Europa… bom, as sementes do holocausto nazi estavam lançadas há séculos e acho que só não aconteceu antes, e se calhar até em França, por falta de meios técnicos. Já em 1325 havia muitas notícias falsas, e uma chegava para provocar um massacre. A simpatia que tenho pelos judeus vem de ler História, a aversão que tenho aos anti semitas vem da aversão que tenho à ignorância maldosa. Na primeira linha da condenação e perseguição aos judeus estava a Igreja, e se não estou em erro demoraram até ao fim do século XX,  mais de 500 anos , a apresentar uma lamentação formal pelo papel de liderança em séculos de atrocidades.

As cruzadas foram outra coisa medieval absurda e malévola que espalhou mais miséria, ódio e destruição do que alguma vez pode ser compensada pelo que ficou dos contactos com o Oriente, especialmente porque os contactos eram principalmente a ferro e fogo. Há um pormenor que acho delicioso, assim de uma maneira mórbida, na questão das Cruzadas. Os Papas que as convocavam declaravam indulgência plenária para todos os cruzados assim que chegassem à Palestina. As indulgências, para quem não sabe, eram o perdão dos pecados que a igreja  vendia, tal como anulações ou autorizações para casamentos com parentes e outros actos, enfim, tudo o que caísse sob  regulação da igreja podia ser comprado. As indulgências também podiam ser concedidas sem ser mediante pagamento directo, como no caso dos cruzados. Ora, as cruzadas começavam habitualmente no centro e norte da Europa e o caminho para a Palestina é muito longo. Vezes sem conta os cruzados, justificadamente, raciocinavam do seguinte modo:

-Quando chegarmos à Terra Santa vamos receber o perdão integral dos pecados, todos os pecados acumulados até lá serão perdoados, logo…

É fácil de calcular (para nós, para a Igreja não era, ou não interessava) as devastações e abusos que estas hordas cometiam  a caminho da Palestina, seguros da absolvição papal. Também as cruzadas tiveram o mérito de fazer florescer o tráfico em relíquias, trouxeram-se e venderam-se centenas de Cruzes Verdadeiras, lágrimas de nossa senhora, costelas de S.Pedro, espinhos da coroa de Cristo, enfim , quem voltasse da Palestina (ou convencesse as pessoas que voltava da Palestina) e pegasse num pau encontrava dezenas de pessoas, incluindo abades e letrados, dispostos a pagar fortunas pelo pau se dissesse com convicção que era um pedaço da cruz ou que um trapo era um pedaço da mortalha de Cristo. É desta época que nos chega o Sudário de Turim, que ainda hoje é visitado por devotos apesar de os métodos modernos de datação provarem que é uma obra  da Idade Média. Sobre os resultados a longo prazo das Cruzadas, é olhar para lá, para a “Terra Santa”, para o poder dos “Infiéis” e o modo como ainda hoje a palavra cruzado é dita no Islão com asco e ressentimento.

Não tenho o hábito de anotar os livros à medida que vou lendo  mas vou trabalhar nisso, especialmente naqueles que sei que me vai dar vontade de falar neles a seguir, neste caso só já bem depois de meio é que me lembrei, deparei-me com uma frase tão espectacular que deixei uma marca e volto lá agora. A autora falava de Wycliffe , um clérigo inglês que entre muitas outras coisas era reformista, logo, herege:

“Num cúmulo de heresia, transferiu a Salvação da agência da Igreja para o Indivíduo: Porque cada homem que será condenado será condenado pela sua própria culpa, e cada homem que será salvo será pelo seu próprio mérito“. Desapercebido, aqui estava o começo do mundo moderno”. 

Outra parte extraordinária é a descrição da batalha de Nicopolis  , em que uma coligação de Franceses, Húngaros, Venezianos, Romenos, Polacos, Genoveses e Ingleses, e ainda um contingente de Hospitalários enfrentou os Turcos do Sultão Bajazet, e foi redondamente derrotada.  Foi a última cruzada medieval, marcou o fim da época da cavalaria no sentido romântico do termo e foi daquelas batalhas que tinha tudo para ser ganha e no entanto foi deitada a perder pela arrogância, vaidade e excesso de confiança dos Franceses que assim condenaram os Balcãs a 500 anos de domínio Otomano. Este livro não fez nada  para melhorar a minha opinião sobre a igreja, antes pelo contrário,  e dá-se o mesmo em relação aos Franceses. Eu sei, a História também serve para aprendermos a não generalizar e para combater preconceitos mas os meus deram-me muito trabalho a cultivar e defender e não os vou largar assim por uma coisa qualquer, até porque nunca passam do plano das ideias e reconheço-os pelo que são. Para mim   criticar a igreja é quase uma obrigação, criticar os franceses é mais  um  desporto, que  ainda tem mais piada quando falo destas coisas com amigos franceses.

Tinha mais meia dúzia de páginas com o canto dobrado a indicar que havia ali alguma coisa que queria ressalvar mas agora não encontro exactamente o que era. Só há 3   referências a Portugal, uma para dizer que um almirante português ao serviço do Duque de Lencastre capturou o navio do tal  Enguerrand de Coucy num “raid audacioso” ; um parágrafo para falar dos projectos  do Infante d. Henrique , “um neto de John de Gaunt” (que nós só conhecemos por Duque de Lencastre);  outra referência ao vinho e nada mais, em toda esta História europeia do século XIV este canto da península não conta para muito aos olhos desta historiadora americana, e com certa razão já que escolheu como fio condutor da sua narrativa um nobre francês.

Hei-de ler este livro outra vez, calculo que o título evoque o reflexo de nós mesmos e da nossa sociedade que vemos quando olhamos com atenção para as profundezas do passado.

Agora vou-me abalançar a fazer a tradução de um pequeno ensaio chamado Socialismo e História que está noutro livrinho que veio nesta fornada e quero pôr aqui porque o acho extremamente importante, fala de experiências socialistas séculos antes do Saint  Simon, Marx, Engels  e restante rapaziada. Não haja suspense, correu sempre mal.

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