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O Armistício

Tenho nesta altura em espera uma pilha de 9 livros na tábua que funciona como mesa de cabeceira, isto porque encontrei um site de venda de livros com envio à borla que tem uma infinidade de títulos que me interessam e não resisti a um impulso consumista. Além desses tenho uma lista de desejos bastante grande, e dela faz parte este livro, The Sleepwalkers , “Os Sonâmbulos” , largamente considerado uma obra definitiva sobre as razões que mergulharam a Europa e o Mundo na Primeira Guerra Mundial, o fim da qual se celebra hoje. Como esse título indica, a Europa mergulhou na guerra sem estar acordada nem saber para onde ia.

Ainda não li esse  mas já li outros sobre o tema e tenho um fascínio assim um bocado mórbido por processos históricos nos quais as coisas ganham vida própria, o controlo escapa das mãos de quem acha que tem tudo controlado, a realidade contradiz os discursos e a loucura humana vem ao de cima. Ensinam-nos que a Grande Guerra começou por causa do assassinato do Franz Ferdinand em Belgrado mas isso foi apenas a faísca, os montes e montes de acendalha e lenha já se estavam a juntar há muito tempo. Quando se junta um monte enorme de lenha seca a única coisa que vai acontecer é uma fogueira.

Quero dizer umas coisas rápidas sobre estas comemorações do Armistício.

1 – Por cá comemorou-se na semana passada com uma grande parada militar em Lisboa. Não foi oferecida nem existe nenhuma razão válida para assinalar uma efeméride na semana anterior à data, a única razão para isto foi que o Presidente da República queria estar em  Paris hoje para as comemorações internacionais por isso tivemos que nos despachar a semana passada.

2- A mesma pessoa disse na ocasião que os soldados lutaram   “pela compreensão contra o ódio, pela liberdade, contra a opressão, pela justiça, contra a iniquidade, pela Europa aberta contra a Europa fechada, o mundo solidário contra o mundo dos egoísmos, das xenofobias, das exclusões” . Isto é um absurdo de uma vacuidade e demagogia atroz, para não falar da ignorância, se um aluno do primeiro ano de História respondesse assim a uma pergunta sobre as razões que levaram à guerra, chumbava.

Os homens que se estavam a homenagear e lembrar, de ambos os lados, lutaram por duas razões, como lutam desde que há guerra : a maior parte porque os mandaram , outros porque era a sua profissão. Quando saltavam das trincheiras para a morte quase certa não o faziam com um hurrah contra a exclusão e a xenofobia, faziam-no por causa do camarada que estava ao lado e a quem nunca podiam deixar ficar mal,  como de resto podia ter explicado ao sr presidente qualquer militar. O resto são tretas de políticos, e ainda me perguntam porque é que eu não suporto o Marcelo.

3- A participação portuguesa na guerra só não foi uma vergonha total por causa do brio e coragem dos soldados, porque como decisão política foi miserável e inútil e como operação militar, da parte da preparação e logística e treino, e dos resultados, foi o que se podia esperar de um país como o nosso a querer ir fazer figura para os campos da Flandres. Mais uma vez a vaidade, ignorância e indiferença de políticos asquerosos a mandar para a morte dezenas de milhar . Uma  curiosidade, nessa altura aconteceu o “Milagre de Tancos”, os recrutas do CEP foram lá treinados e por intervenção da senhora de Fátima foram dados como aptos para combate em tempo record e foram despachados para as trincheiras. Isto é verdade, andaram a dizer às pessoas que as tropas estavam prontas e preparadas, e tinha sido milagre. Claro que como estávamos em 1917 as pessoas acreditaram, e é curioso verificar que 100 anos depois deu-se outro fenómeno paranormal em Tancos e hoje as pessoas também parece que aceitam uma explicação que é tão válida como dizer que foi milagre, incluindo quem devia saber melhor, o tipo que acha que a guerra foi “contra a injustiça”.

4- Nas comemorações deste ano em França está a faltar, que eu veja, a primeira ministra do Reino Unido. Mais uma prova da distância que continua a ser cavada entre a Grã Bretanha e o Continente. Também está a faltar o presidente dos EUA que não foi às cerimónias no cemitério onde estão enterrados os soldados americanos mortos na Flandres porque estava a chover . Mais uma prova da estatura do senhor, que ou é uma florinha de estufa que não pode estar um bocadinho à chuva ou fez birra por outra coisa qualquer e lembrou-se dessa desculpa. Estadista.

5- A Primeira Guerra Mundial foi vendida como a guerra para acabar com as guerras. Não foi bem assim, nunca será assim e em vez de os políticos continuarem a debitar mentiras e efabulações deviam fazer um esforço para perceber e comunicar às pessoas que a ameaça não desaparece, a possibilidade mantém-se real. Em 1912 não faltava quem dissesse que o conflito era inconcebível.

 

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