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Epílogozinho

Sem uma ressaca muito pronunciada a manhã foi dedicada a recolher papéis, pagar contas e levar o barco para o pontão da alfândega, onde ficou até termos ido mostrar-nos em pessoa à Imigração e receber o primeiro carimbo do meu passaporte novo. Esperámos perto de uma hora pelo regresso do agente com o resto da papelada e depois lá atravessámos a baía para esta marina. 

O Steve foi-se embora com o filho ao fim da tarde e o Miguel foi na manhã seguinte, pouco depois de ele se ter ido embora chegou o dono do barco e o filho, radiantes. A primeira razão para o barco ter ido para a Turquia era a renovação da teca do convés, trabalho enorme que pede que se procure mão de obra experiente mas barata como na Turquia, e acesso à matéria prima. Era também uma espécie de “regresso a casa” ou fechar um círculo, porque o barco foi comprado a um alemão na Turquia, por um turco, depois disso atravessou a Atlântico e parou em Cuba onde o fui buscar quando o turco o vendeu a este inglês, e agora ao fim de tantos anos e tantas aventuras, regressa à Turquia,  eu também gosto dessas histórias.

Só ficámos na marina o tempo suficiente para receber a visita de pessoas  com propostas para o trabalho, a primeira de um alemão estabelecido ali há muitos anos que ficou incomodado quando o dono do barco lhe disse que ainda ia ouvir outras pessoas. Achei curioso, o homem não tem noção de concorrência ou de tentar conhecer os preços do mercado, tinha uma lengalenga que era “nós também somos marinheiros, os nosso clientes são nossos amigos” e aparentemente  achava que isso servia para lhe garantir contratos. A seguir a isso, voltar a mudar o barco para outra marina noutro canto da baía, eu já não lhe queria pegar mais e fiquei satisfeito quando o filho dono pegou no leme , só tive que fazer de marinheiro e o moço manobra o barco muito melhor do que eu. Na outra marina esperava-nos um inglês que lá vive há uns quinze anos, também tem um Halberg Rassy e gere uma companhia de charter. Além dos preços para organizar a renovação do convés, que ele não chegou a especificar, gerou logo uma sensação de confiança e afinidade que o alemão nem podia sonhar, não só por ser alemão mas por ser um bocado bruto. Apesar de ter certas dificuldades em calar-se por mais do que 5 segundos o homem mostrou-se a pessoa certa não só para organizar o trabalho mas para tomar conta do barco no entretanto, entretanto esse medido em meses.

Nessa mesma tarde estávamos a tratar dos bilhetes para o meu regresso, eu tinha dito ao dono que tinha que ser ele a comprá-los porque eu já tinha esgotado o cartão de crédito, e não andava muito longe da verdade. À mesa do restaurante íamos vendo aqui e ali até que  apareceu o mais barato e menos longo: Dalaman para Istambul, Istanbul para Chisinau na Moldávia e daí para Lisboa. Olha que curioso, vou ver Moldávia, nem que seja o aeroporto, e disse-lhe que sim , que marcasse esse.  Daí fomos jantar, com o inglês da marina, a um restaurante no meio da cidade, bem longe da marginal, em que não se via um turista e os menus eram todos em Turco.

Aproveito para referir outras das minhas coisas preferidas na Turquia: as pessoas adoram gatos (e cães, em menor grau) e “toda a gente” trata bem os gatos e os deixa andar por todo o lado, como por exemplo nesse restaurante. Este era o gato mais famoso de Istambul e quando morreu fizeram-lhe uma estátua, nesta mesma posição de suprema gatitude:

laid-back-cat-statue-tombili-istanbul-2

Há um prato muito comum em muitos restaurantes do género que eu frequento, em Portugal ou fora, e que é a minha escolha automática, até ver nunca me desiludiu, mesmo sendo eu difícil de desiludir com comida: a infalível grelhada mista, até é um prato que eu faço em casa para mim só que aí costuma ser só “grelhada”, nunca tenho paciência para a parte da “mista”. Foi isso que jantei, o resto perdeu-se em pratos de nome impronunciável e componentes que permaneceram misteriosos mas que toda a gente adorou, mais uma garrafa de tinto turco que eu achei excelente e esse jantar para 5 pessoas saiu por cerca de metade do jantar para 4 no outro dia na marginal de Marmaris. Não me estou só a lamentar , estou também a apontar o facto, que me parece que é muito esquecido, de que quanto mais nos afastamos dos centros e beira mar das cidades mais barato se come, e este mais barato raramente é igual a pior.

Na madrugada seguinte o James foi-me levar à estação de autocarros a Marmaris, onde começava uma viagem de hora e meia para o aeroporto de Dalaman. Despedidas, garantias de que nos vamos ver no futuro, desejos de sorte e tudo isso,  lá embarquei no autocarro e fui apreciando a paisagem, que é grandiosa. Lembrei-me de outra coisa boa que me aconteceu na Turquia, uma vez ia num passeio  num  land rover 110 aberto com  uma data de turistas, eu ia no banco da frente e vi que mais à frente na beira da estrada estava meia dúzia de miúdos, todos de uns 10 anos e com a farda da escola. Estavam de punhos fechados e com a expressão de quem se prepara para fazer alguma, vi-os levantar as mãos e encolhi-me, a pensar que vinha aí algum ovo ou balão de agua ou pior, pedras como já me mandaram uns selvagenzinhos num pseudo país.

Foram mãos cheias de pétalas de flores que os miúdos turcos mandaram ao carro dos turistas que passava, e por anos que viva nunca me vou esquecer dessa, é sempre das imagens que vem logo à cabeça quando me falam de Turquia, essa e outra “revelação” que tive em Istambul na mesma altura. Tinha tirado uma semana para ser turista na cidade, só me faltou ter comprado o Lonely Planet e ter tido paciência para esperar mais de cinco minutos numa fila para um monumento. Andava quilómetros, a maior parte das vezes perdido, andava sem rumo nenhum até me estafar e depois metia-me num taxi e voltava ao hotel. Nessa tarde andava perdido num bairro miserável, já na fase de andar à procura do taxi, e vejo ao fundo de umas escadas de madeira um turco gordo, sujo hirsuto, feio e seboso, aquele gajo que  os políticos que querem meter medo às pessoas escolheriam para nos meter medo dos turcos. No cimo das escadas estava uma criancinha com uns 3 anos a tentar descer, mas com medo. Fiquei ali a ver o modo como o turco horrível a encorajava e depois amparava, com uma doçura e uma paciência enorme, como a abraçou quando finalmente desceu e como depois se foi embora com a criança agarrada às calças. Isto foi há mais de 15 anos e foi outra de que nunca me esqueci. Como lembrava o Sting sobre os Russos, é bom lembrarmo-nos de que os turcos amam os seus filhos como os outros, é esta a Humanidade comum que nos une e nos deve fazer pensar um bocado.

Lá chegámos ao aeroporto de Dalaman, uma construção gigantesca com uma boa metade que fecha na estação baixa. Saquei da minha reserva e fui consultar o quadro de partidas.

– Olha que interessante, quem diria que há 2 aeroportos que servem Istambul.

Passou-me despercebido, outra daquelas coisas que me acontecem por não prestar atenção suficiente. O bilhete para Istambul era para Sabyah Gokcen, o bilhete para a Moldávia saía do Ataturk. Tive um ligeiro arrepio e como já não tinha internet fui perguntar quanto distavam os dois aeroportos e quanto demorava, ouvi entre a hora e meia e as três horas. Se o meu voo não atrasasse nada dispunha de hora e meia  para recuperar a mala , mudar de aeroporto e fazer o check in no Ataturk, o aeroporto com mais controlos de segurança que conheço. Estas duas horas de intervalo não bastavam para chegar a horas, bastavam para não perder o avião, não é bem a mesma coisa. Perdendo o avião…noite em Istambul e novo bilhete, lá ia boa parte do rendimento por água abaixo. Decidi que de qualquer maneira tinha que ir para o Ataturk o mais rápido possível, sentei-me no avião e tirei o relógio do pulso, o tempo não estica por estar a olhar para ele, até parece que encolhe.

Passei o voo de uma hora a rogar-me pragas por ser tão estúpido que começo uma viagem a aperceber-me de que tenho o passaporte caducado e acabo-a comprando um bilhete de avião para o aeroporto errado e depois acho-me um grande viajante. Aterrar no Sabyah Gokcen, as malas no tapete com uma rapidez de fazer corar a Groundforce e arranco desencabrestado para a rua à procura dos taxis, ainda nem tinha parado um ao pé de mim já lhe tinha metido a mala no banco de trás, sentado à frente e dito:

-Ataturk, o mais depressa que conseguir

Vi logo que me tinha calhado o motorista ideal quando ia atropelando duas pessoas na passadeira e saiu da fila do aeroporto pela berma a ultrapassar pela direita. Entrámos numa autoestrada novíssima e ele perguntou

-Quando é o voo?

-Uma hora

-Insha’Allah

Pensei que seria mesmo bom que o Alá inchasse, também não tinha sido mal que o carro fosse um nadinha nada mais potente que este dacia 1200 que mal dava 140 mas o que é certo é que o motorista compensava a insuficiência do carro com a sua perícia e, sobretudo, ausência de medo, quer de medo de se entalar entre dois camiões quer de medo da polícia que o podia bem prender por conduzir como um possesso. Felizmente que nenhum dos painéis da auto estrada indicava distâncias em quilómetros, além de já não saber que horas eram não sabia quanto faltava, o que ajuda a reduzir os nervos. Está a ser feito tudo o que pode ser feito.

Passámos uma ponte novísssima sobre o Bósforo e entrámos em Istambul mesmo. Conduzir depressa numa autoestrada não é difícil, as bermas são grandes e cabe sempre, agora numa cidade congestionada a coisa é diferente.Já via aviões a descolar pelo que já tinha ideia da localização do aeroporto mas ainda era longe e mau caminho. Meia dúzia de manobras daquelas que nos fazem gritar “olha-me esta besta!” e “os taxistas são todos a mesma merda” e que naquela situaqção em que estava aplaudi, e lá chegámos ao aeroporto. A corrida, pela minha conta de câmbio, ficava em €40, e eu que sou o forreta anti gorjetas dei-lhe €60 mais o molho de liras que me sobravam,  o homem protestou genuinamente mas deixei-o a falar sozinho, se alguém merecia um boa gorjeta era ele.

Logo à entrado do terminal, controlo de segurança. Uma pessoa pode chegar ali com 50kg de bombas numa mochila e carregar no botão que ninguém pode fazer nada, mas vinte metros mais à frente já não pode, a utilidade de revistar tudo e todos à entrada do aeroporto é para mim muito duvidosa , mas é assim. Lá se arrastou a fila, lá passei, lá encontrei  o balcão da Air Moldávia ao qual cheguei sem fôlego.

-Devia estar aqui há duas horas, porque é que se atrasou? , começou assim a minha relação com a Air Moldávia, que deve gastar fortunas a treinar o pessoal para interagir com os clientes.

-Enganei-me no aeroporto

Pus o saco no tapete e o passporte no balcão e respirei, ou tentei respirar, fundo. Tinha chegado. Do check in para a frente ainda há outros dois controlos de segurança, e pude finalmente perceber como funcionava algo que sempre me tinha deixado curioso: como é que as mulheres que andam enfiadas nos sacos do lixo nas burkas e abbayas, e que estavam ali às dezenas na fila, passavam o controle de identidade? Bem , afinal é simples, chegam-se ao guichet com um homem (sempre com um homem, as mulheres no Islão não valem nada sozinhas) , e levantam o véu de repente, o suficiente para a oficial do outro lado confirmar que é a mesma pessoa, e seguem. A mim mandam-me tirar o cinto e o boné, aquelas nunca mais a partir desse momento saem debaixo da coberta, é interessante.

O voo para Chisinau foi num avião de 70 lugares como os que a SATA tem, e a Moldávia vista do ar é uma grande planície pontuada de explorações agrícolas  e pequenas aldeias. Tenho que referir que à chegada subiram a bordo nove senhoras da limpeza,contei-as,  nos Açores a um avião daquele tamanho geralmente vão duas depois de um voo. É curioso, não sei como não se estorvam umas às outras. Nem pus o pé fora do aeroporto, pequenino e de interior moderníssimo, a maior parte ocupada pela loja dos perfumes, chocolates, alcool e tabaco. A Moldávia é daqueles países que vou riscar na lista porque tecnicamente estive lá mas que não precisava nada de ter estado nem tenho razão nenhuma para voltar a ver. Tive no entanto uma experiência nova e interessante: pela primeira vez em mais de 20 anos e dezenas e dezenas de aviões de regresso a Lisboa de várias partes do mundo embarquei num avião em que não seguia nem um português. Ah, sabes lá se não, as pessoas não têm escrito na cara… Têm , muitas vezes têm e eu prezo-me de ser bom fisionomista e aposto que de uma amostra aleatória identifico 7 em 10 portugueses. Além disso não se ouvia uma única palavra de português, excepto de uma menina que ia fazendo perguntas em português e os pais respondiam em Romeno, muito engraçado. A conclusão de só haver moldavos e um tuga acidental no voo para Lisboa é que não há portugueses na Moldávia.É uma conclusão forçada e discutível, mas é a que eu tirei lá.

Voo sem história, são os melhores, e aterrar em Lisboa já tarde mas ainda assim na confusão do aeroporto, dá-me logo vontade é de nem sair de lá até ao voo para casa. Recuperar sonos e forças em casa da minha irmã, sem a qual as minhas viagens (e por extensão, a minha vida) teria sido muito mais difícil para não dizer impossível, e acompanhar a chegada do furacão Leslie, nesse dia ainda pensei que ia haver ironia da boa e o meu voo da SATA ia ser cancelado por causa do mau tempo…em Lisboa.

O regresso ao arquipélago foi tranquilo, excepto por ir demasiado perto de um casal cujo homem, além de não se calar, falava a um volume que podia ser ouvido no avião todo.Não sei se as pessoas que falam assim têm a noção ou se nem reparam , é muito estranho. E incomodativo. No banco ao lado do meu ia uma avó com uma neta, “americanas” das ilhas, a neta teria uns 12 anos e já era redonda mas a avó não estava satisfeita e ia-lhe dando mais opções. A miúda coitada, ria-se, dizia “ok” e lá enfardava mais um pacote de oreos. Acho que é um absurdo dizer-se como o outro que obrigar os miúdos a beijar os avós é  uma violência, violência é a maneira como a maior parte dos avós alimenta os netos.

O meu carro estava onde o deixei, a 30 metros da porta do aeroporto, aberto como sempre (até porque já nem fecha), a diferença é que se for para o deixar mais de uma semana tiro a chave da ignição. Encontrei tudo em ordem relativa e agora ainda estou a recuperar o trabalho atrasado. O rendimento desta viagem dividiu-se em dois: metade foi para acabar de pagar uma terra que comprei o ano passado, a outra para pagar um empréstimo que fiz para comprar 16 ovelhas. Nunca levem a sério nada do que eu escrevo sobre economia.

 

 

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