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Pequena Odisseia III

Uma das razões pelas quais aceitei fazer esta viagem foi poder fazê-la com tripulantes que não só são competentes como são amigos há muitos anos, eliminando assim uma das coisas para as quais me faltava mais paciência: conhecer gente nova, orientá-los na parte da marinharia e viver com eles 24/24 no espaço pequeno do barco durante períodos relativamente longos de tempo. Com amigos que sabem o que estão a fazer é um descanso.

Fui-me deitar ainda antes de entrarmos no Golfo de Patras com a instrução “chamem-me quando chegarmos à frente do Canal”, instrução vaga que nunca servia com outra tripulação mas  neste caso bastou, e seriam oito da manhã quando o Steve me chamou, estávamos mesmo à frente da entrada Oeste do Canal de Corinto. 

O Canal é daquelas ideias milenares que levam tanto tempo a ser executadas que quando finalmente se concretizam já perderam a  maior parte do interesse e utilidade. A primeira ideia para um canal no istmo tem mais de 2500 anos mas o promotor, depois de fazer umas contas, decidiu criar antes um caminho em que os barcos eram transportados por terra , coisa só possível quando temos milhares de escravos à disposição. O imperador Nero deve ter inventado aqui algo que os políticos hoje em dia ainda fazem : uma cerimónia em que pegou numa picareta e deu a primeira cavadela no que seria o canal…mas não foi. Só no século XIX finalmente se construiu o canal, depois das peripécias sempre associadas a uma obra destas , especialmente por ser na Grécia e envolver franceses, e assim que ficou terminado começou logo a decair e perder importância. Navios maiores , com mais autonomia e mais velozes, fizeram cair o interesse no canal, que hoje é mais uma atracção turística que outra coisa.

Chamei pelo canal 11, disseram-me para  ancorar fora do porto e esperar até às 1400, como ainda eram 8 perguntei se podia antes amarrar no porto de Corinto, sem problemas, lá fomos ver mais uma cidade grega. O Steve foi procurar outro hospital, eu e o Miguel fomos beber um café. Parámos num café de esquina, super moderno e tecnológico, que também tinha um serviço de entregas. Fiquei maravilhado com aquilo, um espaço de uns 20m2 comportava 8 empregados activos e ainda andavam pelo menos 3 estafetas que entregavam cafés ao domicílio. O café nem era nada caro e não percebo como é que numa cidadezinha de província com 40 mil pessoas num país, diziam-nos “devastado pela austeridade”, um negócio que emprega 12 pessoas ao domingo de manhã a tirar cafés é rentável. Há muita coisa que eu não percebo, como é bom de ver.

Faltava um quarto para as duas quando o Miguel me vem perguntar se não devíamos ir andando. Eu pensava que era um quarto para a uma, ainda estava com a hora croata e seguiu-se uma corrida para deixar a doca e voltar à entrada do porto, onde já estava  mais meia dúzia de iates à espera para fazer o trânsito.Passado pouco tempo o operador começou a fazer a chamada e como nos tínhamos “inscrito” de manhã cedo fomos logo o primeiro veleiro atrás de um iate a motor grego que deve fazer aquilo todas as semanas.  Por falar em iates a motor gregos, um amigo meu trabalhou num, propriedade de milionários gregos, que também fazia “charter”. De cada vez que chegavam turistas  eram inscritos como tripulantes e não como passageiros, evitando assim a taxa turística. Um armador podre de rico a fazer isso para evitar pagar uns trocos é muito grego.

Bom , o canal é uma vala profunda, nada mais, é isto, numa foto que obviamente não fui eu que tirei:

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Uma curiosade turística e uma vantagem para a náutica de recreio. Como éramos os segundos do comboio e o iate a motor à nossa frente devia ter “via verde” , amarrámos logo no pontão de espera à saída e corri para o escritório. Nem sei muito bem porque é que corri, é aquela sensação permanente de pressa. O homem à secretária mandou-me sentar e passou-me um grande impresso em triplicado, eu saquei dos documentos do barco e comecei a preencher mas ele apontou para a linha final:

-É só assinar e pagar , explicou com um grande sorriso, que eu retribuí.  Zarpar outra vez e já estávamos no Mar Egeu, com uma brisa muito ligeira e seguindo a motor. Ao fim do dia via-se bem a luz e o manto de poluição de Atenas, cidade que espero nunca mais visitar, o país tem sítios lindos mas Atenas não é um deles.

A parte mais difícil estava feita, a previsão meteorológica dizia que nos tínhamos finalmente visto livres das bolinas cerradas e agora era a um largo até Marmaris, velas rizadas que a brisa refrescou e uma navegação fácil sempre à vista de uma ilhota ou outra. Logo na primeira noite no Egeu o motor parou, os sintomas eram claros, falta de combustível, eu tinha-me esquecido de que o manómetro do gasóleo não lê correctamente e deixei o tanque principal secar. Houve que sangrar e voltar a ferrar o motor, tendo mesmo que abrir os injectores, mas não foi nada de mais, só tive um ligeiro arrepio a pensar no que teria sido se acontecesse seis horas antes, a meio do Canal de Corinto, com 10 iates atrás de mim e sem espaço  para parar , desviar ou dar a volta, havia de ter sido lindo.

Calor, brisa boa , boa companhia e uma velejada que muita gente paga bom dinheiro para fazer, os últimos dois dias de viagem foram um consolo, e a entrada na baía de Marmaris uma coisa bastante dramática, no sentido de espectacular, por ser uma baía com uma entrada relativamente estreita e cercada de montanhas altas.

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Direitos à marina , de onde nos informam que o pontão da alfândega é na outra ponta do porto, numa zona fechada onde param os ferrys para Rhodes e companhia. Lá amarrámos, lá veio um tipo que nos informou  que precisamos de um agente.

-E há aqui um agente?

-Vou ver

E lá vai o homem, daí por quinze minutos volta um tipo novo que me pede os documentos do barco e os passaportes. Num cálculo que levou dois segundos a fazer disse-lhe que não , voltámos à marina e amarrámos no sítio que nos indicaram.  Não tive a sensação de “desacarga” porque sabia que o tinha que levar o barco para outra marina no dia seguinte e a coisa ainda estava longe de estar feita. Escritório da marina, escritório do agente e uma espécie de catch 22 em que a marina precisa do registo da alfândega para nos aceitar e o agente precisa da entrada na marina para nos registar, mas não há nada que não se resolva com muita paciência, dinheiro e, sempre que possível, sorrisos. Paciência às vezes escorregava e os moços repararam cedo numa espécie de tique que eu tenho de esfregar a cara  com a mão direita quando me começo a enervar, e riram-se bastante à conta disso o resto do tempo.

Com o processo em andamento e os documentos deixados com pessoas credíveis passámos à próxima fase, um duche e uma visita à cidade.  A marginal é como uma marginal de uma cidade turística, cheia de restaurantes caros, depois há um castelo, a única construção antiga que resistiu a tremores de terra e invasões, um bazar por detrás e depois  a cidade em si. No primeiro bar quis saber onde é que se podiam ver os espectáculos de dança do ventre, que tinha visto em visitas anteriores e me tinham deixado muito impressionado. O google tinha sugerido uma sala de espectáculos chamada Karavansarai mas dizia que estava fechada, o homem do bar confirmou: há quatro anos as autoridades proibiram os espectáculos de dança do ventre.

Ora, uma das várias coisas de que gosto na Turquia é de nas cidades ver passar uma mulher de abbaya, ou de simples lenço na cabeça e vestido comprido, e logo atrás outra de top com os ombros à mostra e calções curtos e apertados, como manda esta abençoada moda. Ou seja, as mulheres podem vestir-se como quiserem e eu acho isso importante. Acontece que o Erdogan, o actual presidente, quer manter-se o actual presidente para sempre e para isso precisa do apoio dos clérigos, raça daninha que está no seu mais feliz quando está a oprimir e condicionar as mulheres e a ditar moral aos outros. Isso explica o fim das actuações das dançarinas e outras medidas puritanas que se fazem sentir mais longe da costa, onde está a maior base de apoio do homem.

Sem espectáculo de bailarinas passei a outra coisa que gosto de fazer quando viajo, seja para a Turquia seja para destinos exóticos tipo Praia da Vitória na Terceira, é procurar um barbeiro à moda antiga para cortar o cabelo e fazer a barba à navalha, e lá fomos visitar o bazar onde se encontra um monte deles. Outra coisa que queria era um hamam, o verdadeiro banho turco que é uma das melhores coisas que pode haver mesmo quando não se chega de 10 dias der viagem, mas  não houve tempo. Recomendo vivamente, não a interpretação ocidental que lhe chama spa e multiplica o preço por dez, a coisa genuína onde por 5€ podemos ter uma experiência física inesquecível. Eu pelo menos nunca mais me esqueci, mas é verdade que para isso é preciso ir à Turquia e afastarmo-nos um pouco do litoral.

Jantámos na marginal, eu sou forreta por natureza e um kebab numa tasca tinha bastado mas há que observar certas convenções, entre elas o capitão à chegada oferece um jantar num restaurante bom. Já me estava a enervar, se eu sou forreta é porque tenha razões muito claras e vivas para isso e não gosto de ser gozado por querer gastar pouco dinheiro e por não ligar muito a comida, acabámos num restaurante na marginal a comer uma refeição de qualidade… marginal, por preços que só não eram exorbitantes porque a lira turca tem caído muito nos últimos meses, 20% em 3 meses para ser mais exacto, o que aliviou a coisa.

Paralela à marginal há uma ruela forrada de bares e discotecas e frequentada por turistas e predadores locais. “Isto é um degredo, parece Albufeira”, comentou o Miguel, e foi nesse degredo que passámos o resto da noite. Inglesas bêbadas a arriscarem-se a sair nas notícias, Zezés Camarinhas turcos, música a fazer estremecer as paredes, bar após bar meio vazio com gorilas medonhos à porta. Enfim, é um mistério mas ali ficámos até já ninguém saber as horas e o que é certo é que no dia seguinte ninguém dizia “é pá noite espectacular, temos que voltar àquela rua”. Fazem lá festas da espuma, outra coisa que se pensava ter acabado nos anos 90 e ninguém falava mais disso por vergonha, mas lá está, o que está a acabar nuns sítios está a começar noutros.

Na manhã seguinte havia que terminar e pagar as formalidades e levar o barco para a outra marina na outra ponta da baía, já andávamos a ver voos para casa, estava quase feito.

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