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Pequena Odisseia II

Deixámos Dubrovnik terça feira de manhã, já aprovisionados e na posse de uma folha de papel com os nossos nomes, os dados do barco e uns carimbos, a dizer que o destino era Marmaris. Tinha dito ao armador que o meu plano era seguir directamente para a Turquia, vendo a Grécia ao longe,o tempo urge sempre e entre outras coisas não sou amigo da Grécia. Com o vento Sul que estava, e com o Leste previsto para mais tarde, havia ainda a possibilidade de fazer tudo, ou quase, à vela sem escalas mas essa possibilidade ia-se reduzindo.

Fizemos um primeiro bordo para Sudoeste, bolina cerrada até à costa da Itália, e já quase a ver Brindisi, no fundo do Adriático, quando estávamos quase a virar de bordo, o vento começou a rodar e permitiu-nos fazer rumo quase directo a Kefalonia, nada mau. Entretanto fomos caindo na rotina do vida a bordo e no sistema de quartos de vigia, o filho do Steve ficou mal disposto e começou-se a suspeitar de que fosse mais do que enjoo. O miúdo não dizia uma palavra e passava o tempo com a  cabeça enfiada no telemóvel mas pensei que isso fosse só por ser um adolescente.

Nesse dia os moços notaram um cheiro a borracha queimada, foi-se a ver e eram as correias do alternador, que tinha um rolamento partido. Já tinha sido avisado de que fazia muito barulho e era para substituir mas esperava que aguentasse, não aguentou. O alternador é uma parte muito importante porque é o que fornece electricidade ao banco de baterias de bordo quando  o motor está a trabalhar. Sem isso tem que se recorrer a um gerador e fiquei logo com dúvidas de que o combustível seria suficiente para motor e e gerador a viagem toda, e não estando disposto a experimentar para ver até onde é que dá, apontei a Kefalonia, onde aportamos depois de mais um bordos, na quinta feira de manhã.

O meu problema com os gregos é sobretudo fruto de preconceito e generalizações, e é assim que devem ser vistas as minhas opiniões sobre a Grécia e os gregos, país de raízes milenares mas modernidade e unidade questionáveis, habitado por um povo  que é   grande expoente  (desde a antiguidade clássica) da capacidade e impulso de aldrabar tudo, como de resto está patente ainda hoje em coisas desde  a qualidade das construções às contas públicas. Timeo Danaos et Dona Ferentes , e além do mais acredito que desde a morte do Sócrates ou perto que  cessou a contribuição grega para o Mundo. Nós cometemos o erro de “ficar à sombra” e estar constantemente a falar da nossa glória por termos feito grandes coisas há 500 anos, os gregos é um bocado o mesmo mas com mais de 2000. Parou ali.

Mesmo por cima de Kefalonia fica Ítaca, e foi por irmos para a Turquia ,  onde  fica  a antiga Troia, que chamei a isto pequena odisseia. Como estão lembrados, a Odisseia é a história do regresso do Ulysses à sua Ítaca natal depois das guerras de Tróia. Uma vez  muito longe há muitos anos estava num veleiro Hylas e perguntei ao dono o que é que a marca significava. Ele disse-me que o Hylas era o navegador do Ulysses. Eu ri-me bastante e disse que não devia ser grande coisa, já que levou 10 anos a percorrer  mil milhas, mas depois concedi que se temos os deuses a alternadamente  empatar ou ajudar no nosso caminho as coisas podem levar muito tempo. Felizmente que os deuses deixaram de se manifestar há uns anos bons. Essa do Hylas é mais ou menos como o Moisés a guiar o seu povo pelo deserto. Quarenta anos lá andou ele a guiá-los por um percurso que se faz a pé em seis dias, uma pessoa podia pensar que devia haver pelo menos um que, passados uns meses e tendo em conta a posição relativa em relação ao nascer e por do sol, perguntasse ” é pá mas andamos aqui em círculos ou é impressão minha?”,  mas  aquilo era um povo que viu um gajo a descer de um monte e que lhes disse “falei agora ali em cima com Deus, ele deu-me estas regras e vocês têm que fazer como eu digo” e pensou “faz sentido, eu aceito e nunca mais questiono nada”. E assim lá andaram quarenta anos , e o Hylas 10, porque agradava aos deuses.

Já me explicaram que os 40 anos no deserto serviram para eliminar uma geração, para que os que chegassem à Terra Prometida não tivessem memória do cativeiro. Não percebo que propósito é que isso serve, os que têm memória do cativeiro são sempre os que apreciam mais a liberdade, mas na relação homem-deus a liberdade nunca existiu, por isso não sei, mas não sou teólogo . Deve haver uma razão para isso, e gostava de a conhecer porque deve ser interessante.

Bom, Kefalonia, uma aproximação linda e um dos portos mais protegidos que pode haver. Lembro-me de um livro que li e adorei, chamado “O Mandolin do Capitão Corelli”, que se passa em Kefalonia no termpo da Segunda Guerra. Fizeram depois um filme que não fui ver, porque para mim  o cinema nunca faz juz a um bom livro e se gosto muito de um livro nunca vou ver o que fazem com ele no cinema, 9 em cada 10 vezes sai uma coisa com pouco a ver, no mínimo  uma distorção, ou grande simplificação, no máximo uma corrupção total. Estava a ler uns guias que há a bordo e ainda senti a decisão de não ver o filme mais reforçada quando li que o governador da ilha censurou o filme de modo a eliminar  as referências menos elogiosas (ou seja, todas) à resistência comunista da ilha durante a guerra, das partes mais divertidas do livro que não chegaram ao cinema por causa da atitude clássica de um comunista.

Amarrámos na doca da cidade e comecei o processo de obter a licença de trânsito,e  afinal só envolveu uma visita ao edifício das Finanças e uns tempos na polícia marítima e por 60€ barco e tripulação ficaram autorizados a cruzar a Grécia durante seis meses, pareceu-me razoável. O Miguel foi encontrar correias para o alternador e o Steve foi com o filho ao médico e voltou com um diagnóstico de amigdalite e uns medicamentos.

Ninguém nos veio cobrar pela amarração no cais da cidade, é verdade que não há lá nada a não ser os cabeços para amarrar o barco mas sendo a Grécia esperava pagar , e até achava natural, mas não. Apesar disso decidi que não ia ficar para a noite, a ilha de Kefalonia pode ter muitos encantos mas a cidade nem por isso, o relógio nunca pára e além dos custos de amarração há sempre outros que incorremos nas escalas, e não incorrer custos desnecessários é um dos princípios orientadores da minha vida, assim em geral.

Depois do almoço organizei uma compra de combustível, levamos o barco para a doca da guarda costeira e vai lá um camião ter connosco. Deram-me uma lista de 8 fornecedores diferentes, deve ser uma das razões pelas quais a doca de combustível prevista (segundo o piloto) há 10 anos nunca foi construída: é mais prático e económico mas ia deixar sem trabalho esses 8 , por isso continua-se a vender gasóleo como há 60 anos,

Saímos de Kefalonia com os tanques atestados e dadas as previsões meteorológicas, decidi rumar ao Golfo de Patras e fazer o Canal de Corinto em vez de rumar a Creta e chegar à Turquia “por baixo”. De cada vez que se toma uma decisão destas há sempre uma dose de ansiedade porque pode correr mal, como parecia pelas primeira milhas ao fim do dia e durante a noite, com 20 e 25 nós de vento directamente no nariz, seguindo a motor devagarinho. De manhã cedo ainda nem tínhamos entrado no golfo propriamente dito, as rajadas passavam dos 40 nós e quase nem 3 nós de velocidade se fazia, mesmo ali a duas milhas, com um canal à vista e tudo, fica um porto , Mesolongion , e lá entrámos para nos abrigar um pouco e esperar que a coisa abrandasse.

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Mesolongion  tem 18000 habitantes e como fonte de fama tem ser o sítio onde morreu Lord Byron, indivíduo sobre o qual eu só sei que era um poeta romântico que também andou por Sintra e tinha um feitio miserável. Quanto à poesia dele, não faço ideia nem quero saber.

Para Mesolongion os deuses que me andavam a atrasar a Odisseia reservaram-me um desafio de merda, uma das sanitas entupiu, coisa que acontece em equipamentos velhos e sobretudo quando se mandam lá para dentro coisas que não foram comidas antes. Isto obrigou a desmontar tudo para desentupir e depois limpar, não é o género de manhã de Domingo que se espera passar mas às vezes calha.

Um passeio pela cidade que veio reforçar outra vez os meus preconceitos, uma vila de 18 000 habitantes tem pelo menos, só no centro,  12 cafés esplanada e todos bem ocupados, muitos deles sofisticados e luxuosos. Lembro-me de outros centros de outras vilas desse tamanho noutros países em vários continentes e nunca vi nada assim, nem em Espanha há tanto amor por ficar sentado na esplanada…a discutir, outra característica dos gregos. Essa é reconhecida desde a Antiguidade e foi o que permitiu desenvolver a Filosofia, a Retórica e outras fundações da sociedade europeia. O problema é que se a maioria das pessoas quer e gosta é de discutir e especular e argumentar, sobram menos para carregar e limpar e construir e todas as outras actividades práticas que são necessariamente colocadas num patamar inferior. Valoriza-se muito mais passar a tarde numa esplanada, bem vestido a comentar a actualidade ou as vidas dos vizinhos do que passar uma tarde a rachar lenha, e necessariamente fica muita lenha por rachar.

Do amor pela retórica e pela conversa decorre outro problema , ou característica, grega:  fala-se tanto sobre as coisas que dificilmente se chega a fazer algum coisa. Não acho que seja nada mau, um modo de vida tranquilo com tempo para os amigos , a comida as festas, a vida ao ar livre , as conversas intermináveis, as esplanadas e os fóruns onde se exibem as roupas e as ideias. O que acho menos bom é abraçar esse modo de vida e depois reclamar que nos faltam coisas da parte material e que não temos o mesmo nível de vida de sociedades que escolhem outras prioridades e modos de organização, é só isso.

A meio da tarde decidi deixar Mesolongion convencido de que o vento estava a cair. Não estava , e ainda nos íamos arrastar muitas horas antes de voltar a fazer velocidades decentes. De qualquer maneira, o Canal de Corinto seria no dia seguinte, uma travessia a juntar aos canais do Panamá, do Suez e de Kiel.

Continua…

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