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Pequena Odisseia I

Deixei a história na véspera da partida da ilha aqui há uns 15 dias quando descobri que tinha o passaporte caducado. Soltei um “ai…” e até tive que me sentar, com um barco à minha espera, dois marinheiros a caminho e o compromisso com o armador a coisa estava mal parada. Fui saber dos passaportes de emergência e no mesmo dia fui ao RIAC, o nosso equivalente da Loja do Cidadão. Para meu grande alívio e espanto, fizeram-me ali mesmo um documento novo que levantei no dia seguinte no aeroporto de Lisboa, e tudo por 100€. Quando sabemos que um passaporte novo, no prazo normal, custa 60€, só podemos achar uma pechincha quando um em 24 horas custa só mais 40. E podemos concluir que ainda há muita coisa que funciona bem neste país.

Os três voos para chegar a Lisboa foram sem história, o arquipélago continua repleto de turistas e o governo regional continua a gastar centenas de milhar em campanhas publicitárias mesmo quando se passou um Verão com a SATA esticada ao limite e os residentes com dificuldades de deslocação. Não tenho dúvidas de que, dada a política de preços da SATA, o governo decidiu por uma abordagem “mais é melhor”, porque ao mesmo tempo que apregoa os Açores como o paraíso na Terra vende passagens ao preço da uva mijona, o que permite atrair metade dos sandálicos e mochilistas da Europa e arredores, pessoal que pode ser muito simpático e ecológico mas além de simpatia deixa muito pouco na economia local. O mesmo com os navios de cruzeiro, que o governo está muito contente por atrair cada vez mais mas cujas visitas não beneficiam ninguém além da Portos dos Açores, empresa que eu gosto de ver com saúde mas os navios de cruzeiro têm outros custos que pouca gente está interessada em explicar.

Voltando à SATA, sugiro que acabem de vez com a vergonha de darem aos passageiros meia sandes de queijo mal descongelada e duas bolachas marias, o voo para Lisboa é só de duas horas e pouco, 3 se for a avião mais pequeno e mais vale não dar nada do que aquilo, dá mau aspecto. Dêm um copinho de água e uns caramelos e pronto, dá menos trabalho e despesa e não fazem má figura.

Fast forward para a escala no El Prat em Barcelona, que me lembrou da gloriosa luta dos independentistas da Catalunha no ano pasado e me deu vontade de perguntar “então que tal vos está a correr isso?”. Parece-me que as pessoas cuja carreira profissional depende da agitação e que  melhoraria muito numa Catalunha independente (passavam a ser eles os presidentes da junta) continuam a lutar por isso e o resto seguiu com a sua vidinha. Tenho para mim que metade dos problemas do mundo é causada pela ganância dos indivíduos, a outra metade pelas ambições dos políticos.

Mais um voo igual aos outros, cheio de pessoas que provavelmente já se queixaram  dos desmandos do capitalismo, das desigualdades e das alterações climáticas a caminho de mais uma férias, e aterrar em Split. No bar do aeroporto esperavam-me o Steve e o filho.Conheci o Steve há 16 anos em Les Sables D’Olonne quando se juntou a mim para uma travessia do Atlântico. Antes de deixar a sua Manchester para essa viagem que iria durar dois meses foi-se despedir da namorada que, com a capacidade de manipulação característica se despediu dele com as seguintes palavras: “ah, e fica a saber que estou grávida.Boa viagem!” .

Era esse garoto que ali estava, agora um rapaz de 16 anos a beber cerveja com o pai e que me meteu a passagem do Tempo bem pelos olhos dentro. Também o Miguel, o outro tripulante que também conheço há bastantes anos, veio para esta viagem tendo sabido há relativamente pouco tempo que vai ser pai, mas pelo menos esse não foi apanhado à traição nem usaram o facto para o fazer sentir-se mal e culpado.  É de tempos imemoriais que vem a verdade óbvia de que a vida de marinheiro não é indicada a homens casados, um dos meus autores favoritos de sempre , Joseph Conrad , expô-la magistralmente , como de resto fazia tudo, no seu romance “Nostromo” com palavras que não lembro exactamente mas para este efeito: “Deixar  a mulher para trás é sempre mau, porque ela ou não se importa, logo , passa bem sem ele, ou importa-se,  e sofre com isso”.

Do aeroporto um taxi para o cais dos ferrys que ligam Split com a miríade de ilhas croatas, o barco estava em Milna, na ilha de Brac. Split é uma cidade magnífica que ao contrário de por exemplo Dubrovnik tem vida e carácter próprio e não está transformada em parque de diversões e museu povoado por turistas, servidores de turistas e figurantes. O que conheço de Split ia ficar na mesma porque desta vez havia que chegar ao barco quanto antes.

O taxista era um taxista dos bons, que mesmo falando pouco inglês e a propósito de nada mais do que ultrapassar um Audi de matrícula bósnia começou uma tirada contra os bósnios, uns mafiosos que vêm para a Croácia… (inserir discurso xenófobo clássico) . Bilhetes de ferry comprado e esplanada para uns refrescos a fazer horas, ainda deu tempo de nos cruzarmos com o filho do dono do barco que ia no outro sentido, ocasião para mais umas notas de última hora , mesmo que já me tivesse mandado tudo por email, moço consciencioso e atento ao pormenor como ele é. E afinal de contas já nos conhecemos há mais de 10 anos, pelo que nem que fosse para o cumprimentar valia a pena.

O ferry para Brac leva cerca de uma hora, é barato e muito cénico, facto que escapou a boa parte dos turistas que preferiram concentrar-se nos ecrans dos seus telemóveis. O ferry parava em Supetar, do outro lado da ilha o que incluiu mais uma viagem de taxi e com isso nos mostrou mais um bom pedaço de paisagem croata. “É bonito”, digo eu com o meu domínio do estilo descritivo.

Na marina nota-se bem que a estação chegou ao fim, pouco ou nenhum movimento, muitos lugares vagos e o meu  Vita, pelo qual o tempo parece que não passa e continua uma joia aos meus olhos.

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Como já o conheço muito bem dispensei a inspecção do costume, e como os donos o tinham deixado em ordem de marcha era só mesmo questão de comprar mantimentos e zarpar. A meteorologia, especialmente as previsões para o Sul do Adriático, não eram encorajadoras mas nestas coisas se uma pessoa fica à espera das condições ideais raramente sai, é uma das razões pelas quais um veleiro moderno passa em média 90% do seu tempo no porto e o resto a navegar .

Uma das coisas que há que observar sempre são os requerimentos burocráticos, mesmo que sejam imbecis, irrelevantes ou inconsequentes , e um deles é declarar a saída do país, formalidade que se observa especialmente em países que usam a figura do agente de navegação na náutica de recreio e por isso têm que manter os mesmo ocupados. Como Milna não é porto de saída e Dubrovnik é, lá tive que fazer o sacrifício de uma escala em Dubrovnik, oficialmente para obter o papel e o carimbo que ninguém nunca mais me iria pedir. Além da curiosidade de ver Dubrovnik também havia uma razão séria, chegámos num Sábado à noite e íamos sair a um Domingo e por isso em Milna não havia um supermercado decente onde comprar provisões para a viagem.

Zarpámos Domingo pela manhã, um dia lindo e a baía repleta de velas, ainda havia muitos barcos de charter e uma regata em curso. Não muito longe dali todos os Verões duas vilórias juntam equipas de remo, vão até uma ilhota lá perto, amarram os barcos de cada vila a uma ponta da ilhota e têm uma competição de remo a ver qual das vilas consegue rebocar a ilhota de volta às suas águas, é muito divertido e acaba sempre em embriaguez colectiva e arraial. Os croatas podem não ter o oceano à porta mas aproveitam bem o seu mar. Nós, nem por isso.

Entrámos no porto de Gruz, que serve Dubrovnik, e seguiu-se uma deambulação já clássica à procura de amarração, amarrar, ser informado de que não posso ficar ali, ir para outro sítio, a mesma coisa, até decidir ir para uma baía mais acima onde há uma marina e um supermercado, deixar lá o barco e ir por terra a Dubrovnik, tratando da alfândega no dia seguinte, em Gruz. Essa marina é moderna e tem todas as facilidades mas fica quase na foz de um rio num vale profundo que só me fazia pensar que as pessoas ali devem sofrer bastante no inverno, porque têm à vontade menos 6 horas de luz do que as que moram mais alto, passam dias na sombra gelada e aquilo deve ser muito deprimente.

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Autocarro para a cidade velha de Dubrovnik, eu lembro-me bem da guerra da Jugoslávia e do bombardeamento da cidade em 91, que ficando ao sopé de montanhas acessíveis é, como Sarajevo, o sonho de um artilheiro. Claro que hoje está tudo reconstruído mas o olho atento vêm bem onde aterraram os morteiros e obuses, e lembra  que bombardear uma cidade assim, sem qualquer valor estratégico, serviu mesmo fins políticos, mas acabou por trabalhar contra os Sérvios que queriam arruinar a moral dos Croatas e acabaram por recolher o opróbrio de maior parte da “comunidade internacional” que se chocou mais com o bombardeamento de uma cidade histórica do que por exemplo com o massacre de Srebrenica.É assim, a nossa sensibilidade é muito selectiva. Acarinhar os cães, comer os porcos.

Em Dubrovnik não há paz nem sossego nem nada genuíno além dos edifícios, é um formigueiro permanente de turistas que se desloca entre “atracções” e a mim custa-me perceber como é que alguém se pode sentir bem no meio das multidões fotografantes mas o que é certo é que estão em expansão, creio que para os chineses é como a vida normal só que noutro sítio e ainda bem que há quem goste porque o turismo continua a ser grande esteio de muitas economias, entre elas a croata e a nossa. Além disso fica-me mal, como pessoa que pôde ver o mundo em trabalho, criticar ou desvalorizar os que o querem ver no seu tempo livre , se esforçam por isso e apreciam o que veem. Só não me peçam para ir a esses sítios ou viajar assim no meu tempo livre.

Não há cidade um café ou bar frequentado pelos locais, não há uma loja que venda alguma coisa além de lembranças, todos os restaurantes são caríssimos, todos os metros de rua  disponíveis estão ocupados por esplanadas, todos os croatas que ali andam se dedicam a servir e explorar ( no sentido positivo ou negativo do termo) os turistas. Mas não deixa de ser bonito e de dar ocasião a imaginações mais activas para idealizar como seria uma cidade mágica, misteriosa  e magnífica há 100 anos atrás.

Regresso à marina e pela segunda vez na mesma noite mandámos parar um táxi e era conduzido por uma moça nova, gira e simpática, facto chocante, as probabilidades de isso acontecer em Portugal são nulas. Falando em moças giras e Portugal, soube por essa altura do novo tema “quente” da nossa actualidadezinha, a mulher que não sei quantos  anos depois do facto está a acusar o Ronaldo de violação e a tinta que isso está a fazer correr. Só quero dizer isto: na minha visão de filho do heteropatriarcado e blah blah blah uma mulher que conhece um tipo numa discoteca, farta-se de “flirtar” com ele, apregoar os seus dotes e depois sobe ao seu quarto de hotel é um bocado puta. Acontece que na minha visão mesmo as putas, parciais ou completas, amadoras ou profissionais, merecem respeito. De de igual modo acredito que se uma mulher, independentemente da sua profissão ou inclinações morais, diz “Não” ou “Pára” um homem com H maiúsculo tem mais é que parar. Por isso fiquei desiludido com o Ronaldo, mas continuo a admirá-lo por tudo o resto, temos que viver com contradições dessas.

E com isto faço uma pausa, amanhã ou depois continuo a narrativa. Estou em Lisboa a ver levantar-se um vendaval que é bem capaz de me cancelar o voo de amanhã para as ilhas. Quem diria, um voo da SATA cancelado por causa do mau tempo…em Lisboa.

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