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O Campeonato

Saímos daqui na quinta feira à tarde com bilhetes de avião para estar na Terceira à noite. Não se conseguiram arranjar lugares no voo directo e assim só chegaríamos tarde na véspera da primeira regata sem sequer ter tempo de ver o bote.

Vai já o primeiro de alguns apartes : esta explosão do turismo já está a prejudicar os locais na medida em que o governo gasta milhões em publicidade à região, introduziram umas das medidas mais estúpidas  que já vi que é subsidiar os voos inter ilhas dos turistas com dinheiro público, claro que isto atrai batalhões de turistas mas a SATA tem o mesmo número de aviões pequenos de há cinco ou seis anos. Não é preciso ser engenheiro para perceber que se aumentou enormemente o número de visitantes sem acautelar transporte para todos, visitantes e locais. No alojamento e restauração, que dependem dos privados, a coisa ajusta-se. Nos transportes aéreos , que dependem do Estado, os problemas acumulam-se de dia para dia, não há resposta, há caos e segue-se um exemplo pessoal e claríssimo.

Tínhamos prevista escala em S.Miguel, lá chegámos sem novidade, só com uma ligeira hora de atraso. O voo para a Terceira estava marcado para as 21, até às 23.40 foram-se sucedendo os adiamentos até que pouco antes da meia noite foi anunciado voo cancelado por razões técnicas. estas razões técnicas, soube-se depois, prendiam-se com uma greve do pessoal da manutenção. 80 pessoas em terra com a vida encravada. Fila enorme para as reclamações até que somos informados de que “não há hotéis” . Estupefacção geral. A SATA torra por ano centenas de milhar em hotéis e indemnizações provocadas pela própria incompetência e desorganização (excepto a parte dos cancelamentos por razões meteorológicas) , e isso nota-se nas contas. Quando  não é desorganização, incompetência ou o mau tempo a cancelar voos, podemos sempre contar com os sindicatos a ajudar a manter os aviões em terra e  destruir a reputação e rendimentos da companhia.

Tenho amigos em S.Miguel, se lhes ligasse, memso àquela  hora,  vinham-me buscar de boa vontade, e trazer no dia seguinte às 6, mas nunca deixei tripulações atrás e não ia começar agora, assim ficámos todos por lá nos bancos e nos cantos, sem comida porque tudo no aeroporto já estava fechado. Turistas, idosos, crianças, uma vergonha.

No dia seguinte pelas 10 da manhã chegámos à Terceira e tínhamos uma carrinha da Junta de S.Mateus à nossa espera, lá nos instalámos no edifício da junta e apesar de estar toda a gente estoirada fomos ao porto para ver o bote. Estavam 12 na rampa, o 13º seria o S.Pedro, mas nem vê-lo. Telefonei,  informaram-me que estava no contentor onde veio, num canto do porto. Encontrar um reboque (uma treila) emprestado, tirá-lo de lá de dentro e levá-lo para o porto, tudo coisas que demoram e exigem esforço. Quando finalmente estava na rampa com os outros era hora de almoço, lá fomos para a Casa do Povo já sem esperança nenhuma de poder verificar e ensaiar o material, nem de dormir uma sesta e tomar um duche. A primeira regata foi às duas da tarde e informaram-me aí que estavam previstas duas para essa sexta feira. Vamos a isso.

É das partes mais bonitas, para quem não está podre de sono e estafado, 13 botes a arriar, as tripulações a levantar e aparelhar os mastros e a Walkiria e a Rosa Maria, as lanchas baleeiras nesta prova, a recolhê-los todos num reboque de seis cada uma, cada uma na sua amarra de 15 metros. Levam-nos até cerca de uma milha e meia da primeira bóia , alinham-nos a cerca de 90º do vento, soa a buzina e todos os botes largam a sua amarra, içam o pano e arrancam.  Rodar 3 bóias e cruzar uma linha de chegada mesmo frente ao porto, quando rodei a primeira ainda ia mais ou menos dentro do tempo mas quando rodei a segunda já a maior parte dos botes tinha rodado a terceira, acabámos por chegar em penúltimo, o que para mim nem foi muito mau porque a distância dos outros não foi assim tão grande.

A diferença de nível entre botes que fazem regatas todo o verão e são tripulados por quem anda naquilo há anos e o nosso, em que a primeira regata que o oficial (neste caso, eu) fez na vida foi o ano passado e que nunca participou noutra desde então e treina sem outro bote que seja para se medir, é abissal. Ficámos à espera da chamada para a segunda regata e já havia cabeças a pender de sono, lá se repetiu o ritual, e dessa vez ficámos mesmo em último, não apareceu assim na tabela porque um dos botes virou e abandonou. Varámos o bote estafados, foi jantar e tentar dormir, mas isso fui eu, porque a rapaziada foi para Angra do Heroísmo. Destaque especial para o sr. Medonça, 70 anos, que passou uma noite num banco de aeroporto, correu duas regatas de vela e no fim ainda foi para a festarola para Angra, incrível.

O meu amigo que faz a proa do bote ressona valentemente, não adormeci, e pela uma ou duas chegaram os moços meio bêbados e contentes, foi mais uma noite mal passada. A regata desse dia correu ainda pior, não consegui acabar o percurso no tempo determinado, podia dar umas quantas razões tipo as condições dificílimas de ventos muito variáveis, mas foram muito variáveis para todos e só eu e outro é que não acabámos. Há um tempo determinado para acabar o percurso, esgotado isso levam-nos  a reboque para dentro. Pediram-nos que não varássemos os botes na rampa porque ao fim do dia ia haver uma tourada no porto, deixei o S.Pedro amarrado ao de um amigo do Pico, ficou o último de quatro botes amarrados a  uma traineira. Fui perguntar à organização se podia ficar lá à noite, disseram-me que sim, que fizesse como entendesse, fomos para os copos.

Nesse dia havia mais 3 touradas na Terceira e mesmo assim em S.Mateus estava mais gente a ver do que vive nas Flores. Fui espreitar, só para ver o animal, e era um touro a sério. Não vi mais nada, olho para aquilo e só penso na desorientação e fúria e confusão do animal. Fiquei com outros da mesma opinião numa esplanada cá para trás, e às tantas, quando um dos vários bêbados locais se veio assegurar de que estava tudo bem connosco e garantir as boas vindas à freguesia, perguntei-lhe:

-Ó senhor, se chegasse aqui alguém do governo e dissesse que as touradas eram para acabar , o que é as pessoas faziam?

Ele pensou um bocado nessa proposição tão descabelada, largou-se a rir como se eu tivesse contado  a melhor anedota do ano e foi-se embora a rir. Eu acho que eles diziam que sim, que estava bem,  no dia seguinte faziam uma tourada e tenho pena de quem quisesse impedi-los.

Lá acabou a tourada, pela meia noite já estava tudo a carburar bem quando me vêm avisar de que tenho que tirar dali o bote, a traineira vai sair. Foi complicado, dada a hora, o grau alcoólico, a tripulação reduzida, o facto de estes botes não serem feitos nem estarem equipados para amarrar a um cais, mas ao fim de nem sei quanto tempo lá acabei por o deixar em segurança aqui:

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Seguiu-se mais uma noite mal dormida pelas mesmas causas, eu gostava de saber se também ressono mas não faço ideia, nunca está lá ninguém para ouvir por isso parto do princípio de que não ressono, mas na nossa tripulação não faltava quem ressonasse. Da próxima vou prevenido com tampões para os ouvidos. No dia seguinte o humor e disposição da tripulação, incluindo o meu, estavam de rastos. Ao cansaço e esforço da coisa toda juntava-se o desagrado por perder, ninguém gosta de ser último e a responsabilidade é sempre do mesmo.

Lá fomos para a última das regatas, eu como não acredito em milagres e já tinha visto que todos os botes conseguiam orçar pelo menos mais 10º do que nós,  sabia que ia correr mal e consumia-me de culpa por antecipação. Estava um dia limpo e vento estável , nem largámos mal mas quando rodámos a primeira bóia já iam 11 botes a rodar a segunda , é preciso ânimo e saber que se pode abandonar a prova a qualquer altura mas abandonar , apesar de ser o que se tem vontade, não pode ser de maneira nenhuma, tem que se levar até ao fim. O Senhora do Socorro, bote ultra campeão da freguesia no Salão , no Faial, cortou a meta em primeiro ainda nem tínhamos rodado a última bóia. Só perderam uma regata, para o Maria Pequena cujo oficial é um amigo meu francês que mora no Pico há muitos anos. Quem estiver interessado no contraste entre um marinheiro científico e um marinheiro instintivo é ver esses dois. O do Faial é uma máquina e o bote sempre numa afinação extraordinária. O do Pico é só coração , instinto e desenrascanço, mas pede-lhe meças facilmente, já lhe ganhou e há-de tornar a ganhar. São ambos cavalheiros, com as respectivas diferenças. A dada altura aproximei-me do antepenúltimo bote, Senhora da Guia, tripulação feminina do Faial. Pensei logo que tinham tido algum problema porque não era natural estarem ali tão para trás, mas lá o resolveram e em dois bordos deixaram-nos atrás.

Fomos mais uma vez os últimos a cruzar a linha de chegada, a lancha  já andava a recolher as bóias , passou por nós sem um aceno nem uma oferta de reboque, os moços ressentiram-se, eu também , um bocadinho. Varámos o bote já os outros estavam quase todos arrumados, chegou o Zé Lizandro , o trancador que faz 90 anos este ano e anda sempre connosco.

-Ome então?

-Olhe, é o que está, encolhi os ombros.

– Ficaram atrás das moças?

Abanei a cabeça que sim, e  passou um desconsolo pelos olhos do homem

-Ome é assim , ninguém se pisou e o bote tá bom, já é bem bom.

Sem pausa fomos carregar o bote num atrelado e enfiá-lo no contentor onde veio, ambiente funerário. Nunca mais, disseram quatro dos moços, e eu , no fim do contentor estar fechado também disse que acabou. Não me estou a divertir com isto, consumo-me e sofro e é uma frustração, já para não falar do trabalho e tempo gasto nas Lajes e no que que obriga a coordenar , para estar aqui, para vir fazer esta figura. Juntando a isso passar 4 dias 24 sobre 24 com 4 tipos  que são boas pessoas e tal mas que são, para simplificar, muito diferentes de mim em tudo, é demais.  Fui passear antes de jantar e tirei essa foto, das minhas preferidas de sempre, como sou um moço do meu tempo publiquei-a no facebook . Das quarenta a tal pessoas que “gostaram” só uma mão cheia sabe que isso é  a linha de chegada da regata. Olhei bem para ela e para tudo o que significa e percebi logo que não seria capaz de largar isto agora. São regatas mas isto é muito maior que as regatas.

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No jantar e na entrega dos prémios, 200 pessoas , todas as envolvidas no campeonato. Agradecimentos, discursos, um apupo geral à SATA pelo que nos aconteceu. As tripulações com pódio vão todas ao palco mas até ao terceiro lugar só vai o oficial. Subiu o oficial do ultimo bote, depois chamaram-me a mim e lá fui, com um sorriso conformado mas lembrei-me de endireitar as costas (não tenho ido ao yoga…) e de que há mais pessoas que foram ao espaço do que pessoas que fizeram uma regata ao leme de um bote baleeiro.  No palco o director da prova disse-me que ia fazer um agradecimento especial ao S.Pedro por ter trazido os 30kgs de lapas que toda a gente tinha acabado de comer.

-Se é para os chamar ao palco chame agora, disse eu, e lá vieram os moços , sob um aplauso enorme de 200 pessoas que sabem de onde nós viémos, o que nos custou lá chegar, as condições que temos e o esforço que é estarmos ali a competir. Foi bonito e aqueceu o coração. Daí para a frente foi vinho tinto com fartura e nessa noite peguei no colchão e fui dormir para o fundo do corredor, o mais longe possível dos roncos e assim descansei alguma coisinha.

O dia seguinte foi passado em viagem, a SATA chegou a horas , às 4 e meia, cheguei a casa exausto, com a vontade correspondente de ir trabalhar para o restaurante e vejo que me faltam 7 ovelhas. Passei hora e meia à procura, a rogar mil pragas e a dizer a mim próprio que isto não pode continuar, tenho demasiadas coisas na minha vida e sou só um, alguma tem forçosamente que ficar para trás e  se queremos fazer muitas coisas acabamos por não fazer fazer  nenhuma bem. Não ir trabalhar estava fora de questão, felizmente os patrões disseram-me para não me procupar com o serviço e ir procurá-las , um amigo ajudou-me a encontrá-las em menos de uma hora e quando finalmente cheguei a casa depois do restaurante fechar , mais  morto que vivo eram quase onze da noite, as ovelhas estavam todas onde deviam estar e o cão no seu estado de felicidade natural . Esqueci-me de jantar e na manhã seguinte às 9 já estava no meu novo trabalho, agora também sou jardineiro e se este verão não acaba depressa fico maluco.

Mesmo que metade dos moços se mantenha firme na decisão de abandonar o bote há 3 que não vão a lado nenhum, comigo quatro, hei-de arranjar os 3 que faltam e quando o S.Pedro chegar à grande rampa do porto da Horta a 11 de Agosto vai ter companha completa, vai arriar com os outros 20 ou 30 que lá vão estar e vai fazer a regata no Canal sem medo nenhum. Haja saúde.

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