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Espertalhões

Como contei aqui há pouco tempo, recebi a visita de um amigo skipper inglês que não via desde que nos encontrámos a última vez em Ponta Delgada em 2014.  A visita foi curta mas dá sempre para trocar umas histórias, e a última dele era que já este ano tinha sido contratado por uns jovens dinamarqueses que tinham comprado um Swan 74  por 30 mil euros nas Caraíbas e o queriam na Dinamarca. Um Swan 74 por esse preço é como comprar um BMW por 300€, a razão era que o barco era um salvado dos últimos furacões que assolaram as caraíbas e foi vendido pela companhia de seguros. O meu amigo explicou-lhes bem o que uma coisa dessas envolvia, os riscos e as probabilidades, e lá foi. Duas vezes voltou para trás até que abandonou a empresa quando os novos donos se recusaram a pagar as reparações que ele achava necessárias para viagem. Dois garotos que fizeram fortuna ao ecran de um computador tiveram a audácia de contradizer a opinião sobre um barco de um tipo com mais de 300 000 milhas navegadas, e pior do que isso, não lhe pagaram o que deviam. Como em todas as profissões, sempre a aprender lições , umas mais caras que outras.

Na semana passada vi um barco a aproximar-se do porto das Lajes e fiquei a ver a manobra, especialmente para ver como é que o skipper se desenrascava sozinho. Aplaudi interiormente, não teve defeito nenhum, e como o mundo é pequeno nesse mesmo dia recebi uma mensagem do meu amigo inglês pelo FB:

-Está um tipo nas Flores que precisa bem de um amigo, chama-se Morten , boa pessoa.

-Um dinamarquês sozinho, barco de aço,  estai de vante partido?

-Esse mesmo.

Fiz conta de o ir lá ver, oferecer-lhe uma boleia para algum lado e companhia para uma cerveja, e no dia seguinte recebi um telefonema da marina. Resumindo a história, o Morten ia-se embora e o dono do barco queria alguém para o levar para o Faial, não tinha experiência. Viagens longas já não me interessam mas daqui ao Faial é viagem para sair de manhã e chegar lá na tarde do dia seguinte, e a oportunidade de ganhar em dois dias o que ganho no restaurante num mês, disse que sim e fui ver o barco.

É um barco de uns 45 pés, de aço e principalmente ferrugem, comprado no Panamá por 10000 dólares e num estado um bocado lastimável. Dei os parabéns aos Morten por ter conseguido atravessar sozinho naquilo sem grandes dramas, não o levei nada a mal por largar o barco numa desordem medonha e fiquei à espera do proprietário, que chegou hoje.

Mais um yuppie dinamarquês que está cheio de dinheiro, sonha com voltas ao mundo à vela mas como é mais esperto do que o resto das pessoas achou que era um negocião comprar aquele  barco por aquele preço e que compensava comprá-lo, aparelhá-lo, pagar o transporte do Panamá para a Dinamarca e lá fazer os fabricos todos para o deixar em ordem. Deve ser muito bom de matemáticas mas nisto ignorava muitos custos e variáveis e a cara e atitude do homem quando estive com ele hoje no barco era de desânimo. Já conheci muitos, e ainda não percebo bem como é que alguém compra um barco pela internet sem o ver ao perto só porque as fotos são bonitas e o preço é em conta. Sem ter a noção dos custos de navegação e recuperação e de tudo o que encolve uma travessia oceânica. Estes yuppies, como são ricos aos 30 e leram muitas revistas de vela, pensam que sabem mais que os outros e quando a sua ideia peregrina começa  a encravar e as facturas começam a chegar, lamentam muito, sentem-se enganados.

Está aí com duas filhas pequenas, não vi mais ningúem, com uma expressão desconsolada e inquieta, e o facto de o nosso porto ser desconfortável não ajuda. Já me pediu para o ajudar nas reparações necessárias para zarpar, eu já lhe disse que sim , mas vai pagar à dinamarquesa, e vamos então ver se para a semana lá levo  o chasso para o Faial.

Não vai antes porque daqui a umas horas embarco para a Terceira com a tripulação do S.Pedro, que já foi a semana passada num contentor. Este fim de semana corremos as três regatas do Campeonato Regional de botes Baleeiros, já estou cheio de nervos. Ainda podia recomendar aos interessados verem na RTP Açores mas o ano passado já deu para perceber que a RTP manda 2 repórteres mais 3 técnicos, carros e barcos e passa as tardes a acompanhar a prova e depois passa dez segundos de imagens pelo que não vale a pena.

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