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Um nome

Conheci uma mulher que chegou aos Estados Unidos com 4 anos, refugiada do Laos,  casou-se com um americano, emigraram para aqui há uns anos e agora separaram-se, com duas criancinhas pequenas pelo meio. Como gosto de crianças (dos outros e por períodos curtos) fui “conversar” com os miúdos, mas são muito tímidos e quase que fugiam. Perguntei à mãe o nome deles, ela respondeu-me “Odin e Mitra” e eu escavaquei-me a rir, não consegui evitar.

Claro que pedi muita desculpa e expliquei que a minha reacção deveu-se ao facto de  no sítio de onde eu venho “mitra” significar algo muito diferente do deus romano ou lá o que quer que seja que eles tinham em mente quando baptizaram o miúdo. Disse-lhe que se ele vivesse sempre aqui ia dar ao mesmo, mas que se o garoto fosse por exemplo para Lisboa e se apresentasse na escola a dizer “Olá, sou o Mitra e tenho dez anos” os outros iam-lhe fazer a vida negra e ia para o resto da vida ver reacções como a minha. Sem maldade de espécie nenhuma ( excepto no caso dos outros garotos, todos conhecemos a crueldade de que são capazes as crianças)  , por simples surpresa e espanto.

Toda a gente conhece um Jean Pierre Silva ou um John Silveira, os “nossos” emigrantes do século passado demonstraram o que é para mim uma grande sagacidade e sensatez na hora de baptizar os seus filhos nascidos noutros países: eles vão viver aqui, temos que lhes dar um nome que os ajude a integrar, a preservação da raiz fica a cargo do apelido mas o nome deve ser um nome do país. De igual modo sempre me causou ligeiro espanto que pais emigrados por exemplo em Inglaterra chamassem aos seus filhos Ahmed ou Shrinavesh , fazendo questão de carregar as crianças com um nome que, quer queiramos quer não, lhes pendura ao peito um  cartaz a dizer “estrangeiro” quando não são estrangeiros. Sempre achei que a obrigação primeira dos emigrantes é adaptar-se aos usos e costumes do país de acolhimento mas  parece-me que isto afinal não é muito  pacífico.

Na altura da minha vida em que estive mais perto ( e ainda assim bem longe) de ser pai, tinha discussões ligeiras com a “mãe”, que era americana. Eu queria chamar Vasco a um eventual garoto  mas era porque não fazia conta de passar a vida toda na América e sonhava em viver cá, mas  se a coisa se tivesse dado acho que  não tinha sido preciso muito para a “mãe” me convencer a chamar-lhe outra coisa, o tal nome comum do país de nascimento.  Um nome pode influenciar a vida de uma pessoa mais do que imaginamos e pode ser determinante. Há uma canção muito engraçada do Johnny Cash  chamada A boy named Sue que conta a história de um pai que não ia poder acompanhar o crescimento do filho e como o queria rijo e forte deu-lhe esse nome, sabendo que sendo chamado Sue ia ter que lutar a vida toda. Resultou e ele cresceu forte e independente e seguro, mas no fim da canção, quando o filho encontra o pai, dá-lhe um murro na cabeça por lhe ter feito a vida num inferno a carregar esse nome. Acho falta de consideração, egoísmo e ignorância escolher um nome para uma criança só porque gostamos do nome, sem ponderar bem as consequências que pode ter na vida da criança, porque as terá.

Estava a explicar essa minha opinião à minha quase vizinha Laociana ( ela própria com um nome quase  impronunciável) e ela começa a desfiar a novena do mundo globalizado em que um nome é só um pormenor e a dizer que todos os dias instila nos filhos a ideia de orgulho no que está  e no  que é, e a indiferença absoluta às críticas e comentários alheios. Mais fácil dito que feito, e muito mais fácil ainda dizer a um garoto chamado Mitra que deve ignorar os outros garotos que vão gozar com ele à grande  por se chamar Mitra. Pais com 30 anos pensam que orientam bem e compreendem como se sentem e interagem crianças de 7 e transferem para eles as suas convicções e processos de pensamento quando as crianças…bom , são apenas crianças. A mãe pode-lhe dizer todos os dias “não ligues” mas quem lá está e quem liga ou não é a criança, não é mãe.

“Eu digo-lhes sempre, todos os dias, que se devem orgulhar de tudo o que são, que são perfeitos”.

Aqui calei-me de vez porque não é boa política confrontar pessoas com incongruências em relação ao modo como educam os filhos, especialmente quando não os temos, mas achei essa frase paradigmática do modo como muitos pais modernos criam e educam os seus filhos e as consequências que isso tem para toda a gente. Um diálogo a seguir a isso seria mais ou menos assim:

– Dizes-lhes todos os dias que são perfeitos?

-Sim!

-Mas sabes que não são perfeitos, ou não sabes?

-Como?

-Certamente sabes que não existe ninguém perfeito e que todo o ser humano carrega vários defeitos, ou não?

– Sim…

-Se compreendes que todas as pessoas têm defeitos e apesar disso martelas todos os dias na cabeça dos teus filhos a idéia de que são perfeitos, estás a deixar as bases para acontecerem  coisas muito desagradáveis quando a realidade lhes mostrar que afinal não são nada perfeitos e que o mundo não gira à volta deles.

É conversa que nunca vou ter, apesar de também me dizer a mim respeito, porque mesmo não tendo filhos tenho que viver ( e vou ser governado, entre outras coisas) com  uma geração que acredita que é espectacular, única, perfeita, e que o Mundo está errado quando não lhes reconhece esse valor nem lhes dá o que acham que merecem.

Desejo só felicidades e boa integração ao Mitra e ao Odin, vivam onde viverem.Da minha parte, se tivesse um filho, dava-lhe um nome antigo e comum no país onde fossem crescer e fazia questão de que soubessem desde pequeninos que não são perfeitos, não são super, não são geniais nem únicos nem muito diferentes de todos os outros e se querem ser melhores que os outros têm que trabalhar e demonsntrá-lo.

 

PS: a história da mãe desse dois, hoje sozinha num país estranho e sem nacionalidade  nem  passaporte  lembrou-me a de um tipo que conheci na Suécia há quase 20 anos. Tinha sido adoptado da Coreia do Sul ainda bebé, e ainda bebé os pais separaram-se e nenhum o quis, deixando-o sozinho à conta do Estado, sem mais nada nem ninguém. Ao menos chamaram-lhe Johann, o que lhe facilitou um pouco a vida.

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2 thoughts on “Um nome

  1. mon ami tu as vezes das relevancia a coisas destas. mas isso diz mais dos teus gostos que das conviçoes e raciocinios das pessoas que se fala…
    um dos principais feitos do cristianismo ocidental globalizador (o cristianismo é na sua essencia globalizador, desde logo o catolico, universal) foi batizar e dar nomes cristaos por todo lado… e dai vem os joaos como nome tao comum na america…

    e isso dos pais darem nomes que protejam os filhos é complicado. o meu pai, saido da revoluçao, cogitou chamar-me “camarada”. felizmente nao foi adiante. chamou me antonio, nome super comum cá. antonio matos. tomatos, tomatinho, tomatao, tomateco…ate aos 12 14 anos sofri. depois habituei-me agora gosto. adoro.
    que a rapariga do laos e o pai das crianças queiram ter dado odin e mitra aos filhos…deve ter sido influencia…asiática. os nomes lá te^m tendencia a ser “flor bonita”, ou “grande cavalo”. embora quando os asiaticos para ca veem prefiram rebatizar-se para fins sociais como…carlos! hehehe

    de qualquer forma, e como a globalizaçao já vai milenar, é bom de ver que tanto odin como mitra são nomes ocidentais, “indo-arianos”, ou seja, a nossa cultura. com o revivalismo neo romantico das series e filmes de hollywood vais ver que esse odin vai ter companhia. e ainda vai acrescentar umas tattos, tao em voga.

    abracao

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    • Isto é TUDO sobre coisas a que dou relevância e diz mais sobre os meus gostos, raciocínios e convicções do que sobre as as dos outros, até porque não passa da minha opinião nem pretende ser outra coisa. Não vejo nenhuma influência asiática em odin e mitra, sendo o odin do panteão dos escandinavos e o mitra dos romanos, mas seja qual for a influência dos nomes acredito que os pais não deviam usar os seus filhos para expressar as suas tendências e influências. Há uma coisa que no entanto é objectiva : a reacção das pessoas a um nome. Nos EUA foi demonstrado que se enviares um CV a responder a uma oferta de emprego com um nome mais comum entre os negros as tuas hipóteses de conseguir o emprego diminuem bastante. O mesmo ao telefone, se responderes, independentemente do teu sotaque, com um nome “estrangeiro” levas logo um rótulo, mesmo que inconscientemente. Isto é objectivo e real e passa-se em vários graus todos os dias. Por isso os nomes são importantes e ao escolhê-los os pais estão a influenciar directamente a percepção que se tem da criança. Abraço!

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