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Terra Comum

Este diálogo teve lugar ontem  no café da vila:

-Ó Jorge, não queres comprar lã?

-Ome não! Já dei a minha toda este ano , só serve para pôr no pés das arvores de fruto. ( este ome não/ome sim é dos meus regionalismos favoritos, volta e meia dou por mim a usá-lo e as pessoas sorriem)

– Dantes a minha mãe fazia isso tudo, lavava, cardava, fiava e depois fazia-nos camisolas. A gente não gostava nada daquilo porque dava muita comichão mas a minha mãe queria que as levássemos por causa do frio, a gente não tinha outras, dizia-nos que as camisolas salvavam dos relâmpagos, para a gente não as tirar. Dantes havia mais relâmpagos do que agora.

Este dantes , quando as pessoas daqui tinham que fazer a própria roupa, de péssima qualidade, com o que saía da terra, com esforços que hoje poucas pessoas concebem , é o passado que muitas pessoas romantizam, para minha irritação profunda.

Isto a propósito de uma proposta do Orçamento Participativo dos Açores,   que está a votação entre outras 12 para a Ilha das Flores. Um orçamento participativo é um dispositivo mediante o qual os políticos dispensam uns milhares  de um orçamento de milhões para financiar propostas dos cidadãos, dando assim uma ilusão de participação nas decisões sobre alocações de fundos. As pessoas ficam contentes e agradecidas por verem dez mil euros concedidos a um projecto por um gabinete que consome isso em ajudas de custo para os seus funcionários por semestre ou perto. Podia ser pior, podia não haver maneira de ver uma ideia saída da sociedade civil financiada sem ser pelos processos habituais, nomeadamente as boas ligações familiares e políticas.

Fui ver que propostas havia este ano porque recebi uma mensagem de uma amiga a pedir-me para ir votar na proposta deles. Começou mal porque um dos hábitos contemporâneos que mais me irrita ( isto hoje anda de irritações, deve ser do tempo que faz) é enviar  mensagens  a 500 pessoas a pedir alguma coisa. Se me querem pedir alguma coisa ao menos escrevam o meu nome, é o mínimo, se começam com um olá genérico e é aparente que aquilo é copiado e colado para toda a gente perdem logo 50% da minha eventual atenção e boa vontade.

Bom , então a proposta dos meus amigos chama-se Terra Comum e “abraça o conhecimento popular, resgatando a simplicidade e autonomia da vida antiga da ilha, aliando-a ao conhecimento moderno, tornando assim a vida quotidiana mais sustentável, saudável, diversificada, participativa e solidária.” 

Começo por dizer que sou amigo dos proponentes disto , sempre me dei bem com eles e considero-os pessoas impecáveis, mas isso comigo não isenta ninguém de críticas, tal como  recebo bem críticas que me fazem amigos que também me acham um gajo porreiro mas discordam de mim em muita coisa, acho que deve ser assim.

O meu problema com a Terra Comum começa logo no nome, porque eu acho que a terra que é comum são as estradas e os edifícios e terrenos públicos e tudo o que tem proprietário não é comum. As ideias e propostas comunitárias esbarram logo num conceito  quase tão velho como andar para a frente, a simples , famosíssima e ainda assim demasiado ignorada Tragédia dos Comuns .  Exemplo flagrante dessa tragédia  no nosso tempo é a devastação dos Oceanos, o bem comum por excelência, mas esses exemplos cristalinos não demovem os apologistas da comunidade. Além dos Oceanos e do seu estado evidente temos mais exemplos de  desgraças na  gestão pública, quando a coisa é de todos, todos são responsáveis e isso acaba por se traduzir na prática em ninguém ser responsável.

Para mim uma das maiores e mais fundamentais distinções nas bases ideológicas das pessoas é  entre  os que acreditam que os Homens são naturalmente “bons” e solidários e os que acreditam que os homens são naturalmente e geneticamente dedicados a prosseguir os seus interesses particulares. Na impossibilidade, para mim evidente, de se alterar a natureza humana, o que se deve fazer é conciliar e organizar os interesses individuais de modo a gerar o máximo de bem comum, como por exemplo no comércio: eu tenho 5 quilos de X , o meu vizinho tem 5  moedas, vendo-lhe 2,5kgs por 2,5 moedas e ficamos ambos melhor do que o que estávamos. Isto é complicado demais para  muita gente que acredita que eu devia, por altruísmo e igualitarismo, dar metade do meu X ao meu vizinho por ele não ter nenhum X e que ele , por sua vez, por solidariedade, me daria 2,5 moedas porque o que seria justo era termos todos o mesmo número e quantidade de objectos e moedas, só porque somos todos humanos. Recuso isto, para mim a igualdade que importa é a igualdade perante a Lei e a igualdade de tratamento entre os Homens, de resto todo o Homem que se levante acima dos outros sem desrespeitar essas igualdades fundamentais merece lá estar.

Voltando à proposta da Terra Comum, o que se propõe é recolher os saberes e modos de fazer ancestrais da agricultura, coisa que levaria , acredita-se, a um futuro mais sustentável, palavra que está em risco de se gastar de tão usada. Ora, se todos vivêssemos em barracas de madeira sem electricidade, andássemos a pé ou de burro e comêssemos o que se produz na nossa vizinhança segundo os modos e saberes ancestrais não há dúvidas de que o meio ambiente não sofria, o ar , a agua e os solos seriam limpos e não teríamos todas as pressões consumistas que temos.

De igual modo, se recusarmos a medicina e a farmacopéia moderna e nos virarmos para os saberes ancestrais também negamos lucros exagerados às diabólicas multinacionais e evitamos habituações e efeitos secundários tenebrosos, mas voltaremos a um tempo em que a esperança média de vida andava pelos 40 e de cada 3 crianças que nasciam morria uma, era mais natural.

As pessoas que defendem, particularmente nesta ilha, esse regresso aos saberes ancestrais esquecem-se de que existem boas razões pelas quais grande parte deles foi actualizado ou substituído: encontrou-se uma maneira melhor de fazer as coisas. Um projecto que defenda uma agricultura como ela era há 50 ou 100 anos defende uma agricultura no limite da subsistência em que a variedade alimentar andaria  pelos dez géneros distintos e em que havia FOME, há que dizê-lo com todas as letras, muita fome nesta ilha, a razão que fez com que de uma população de 12000 pessoas no século XIX passámos a 3500 hoje. As pessoas emigraram em massa por causa da miséria, miséria causada e perpetuada por uma agricultura incipiente, “ancestral”, que exigia esforços hercúleos e dava recompensas magras. As pessoas emigraram em massa porque a “autonomia” que este projecto reclama condena-nos ao isolamento e priva-nos dos contactos e comércios com o exterior, o motor da evolução .

Como disse, conheço pessoalmente os promotores da Terra Comum. São todos jovens da classe média urbana aos quais nunca faltou nada na vida e se faltou foi por escolha e rebeldia. Jovens que tiveram todas as oportunidades de estudar e viajar e aprender e evoluir, jovens que não morreram de varicela porque foram vacinados, jovens que se alimentaram bem porque a agricultura e distribuição moderna lhes permitiu isso, jovens que queimaram carbono às toneladas nas suas viagens pelo mundo nas quais descobriram as maravilhas de um mundo idealizado no qual se tivessem nascido dificilmente teriam passado de camponeses sub nutridos, estáticos e ignorantes, mergulhados no obscurantismo.

São pessoas assim que hoje por todo o lado no ocidente evoluído reclamam  um regresso a um passado de doença, escassez e desconforto (como as camisolas de lã da infância do meu vizinho) e que não desistem de idealizar e romantizar esse passado enquanto diabolizam  o progresso material da humanidade como causa dos nossos problemas.

Precisamos de idealistas, precisamos de pessoas empenhadas na conservação do património cultural , na defesa do ambiente e na busca de soluções para os problemas reais e dramáticos que enfrentamos como espécie e sociedade, mas não precisamos nada de pessoas que acreditam que voltar ao passado, mesmo que fosse possível, resolveria  alguma coisa. Já lhes disse que apoio a ideia deles de recuperar terras incultas e trabalharem na agricultura biológica, têm em mim um cliente regular se os preços forem competitivos e sei que há  muito dinheiro a ganhar na horticultura nesta ilha, para quem esteja disposto a mourejar na Terra de sol a sol…como era antigamente.

Desejo-lhes sorte, se a proposta deles ganhar vou-lhes dar os parabéns porque, como já disse, são excelentes pessoas e bem intencionadas…mas eu votei numa proposta que pretende melhorar o ensino de música na ilha.

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