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Aí está

Os regimes autoritários nacionalistas estão à vista de quem quiser olhar.  Os elementos estão todos no lugar , desde a xenofobia ao primado da repressão, os inimigos externos, o passado de grandeza, as narrativas religiosas, o controlo da informação, a corrosão das instituições, os entraves à liberdade de imprensa.

Na Hungria, em Itália, na Turquia , na Inglaterra dos Brexiteers, na França da  Le Pen, na Polónia, na China, na Rússia e claro, nos Estados Unidos, o autoritarismo nacionalista ou se instala ou está cada vez mais confortável. A popularidade destes regimes cresce, a democracia liberal anda a perder encanto pelo mundo, ao que parece.

A história de separar as famílias dos emigrantes ilegais na fronteira sul dos Estados Unidos  é sintomática e exemplar de limites que se estão a ultrapassar no Ocidente. Não se trata das condições dos campos ou da legalidade das acções da polícia e do Estado, trata-se simplesmente de constatar que isto são pessoas que não hesitam em fazer sofrer crianças,  traumatizá-las para a vida,  por um objectivo político. É ignóbil, mas o Trump consegue sempre descer mais um degrau na escala da abjecção e apesar de poder acabar com aquilo com um telefonema,  culpa os democratas. Porque não querem reformar a lei geral e dar-lhe o seu muro.

Na Europa os problemas da imigração vão ser cada vez mais importantes , cruciais no caso dos homens fortes que querer  meter ordem nisto e que vão encontrar aí o bombo da festa, o bode expiatório principal. E claro, há que meter  medo a toda a gente para justificar o aumento da militarização e segurança e … a história é conhecida. Na China já existe um dispositivo de pontuação social, são-nos dados e retirados pontos na medida em que temos comportamentos ou palavras que agradem ou não ao Estado. Tipo pontos na carta de condução, ou andas na linha ou as coisas não te correm bem.  É o horror orwelliano, e é já hoje.

Quando pensamos em todos os temas , estruturas e organizações dos estados totalitaristas “clássicos” do Século XX e as imaginamos potenciadas pela revolução digital e de informação, temos que ter medo.

Em Portugal? Duvido bastante, creio que a nossa vacina ainda está dentro do prazo de validade mas o mundo não só dá muitas voltas como dá-as cada vez mais depressa. Ainda ontem vi duas coisas , desculpem a repetição, sintomáticas dessa deriva: uma quantidade enorme de pessoas ofendeu-se, protestou e insultou sem medida porque na marcha do orgulho gay de Lisboa alguém levou uma bandeira do arco íris e no centro a esfera armilar e o escudo de  Portugal. Levantou-se uma celeuma absurda  que mostrou claramente que há muita intolerância e ódio recalcado que quando apanha uma aberta assim , uma ofensa aos símbolos da Nação! , sai cá para fora tipo pus.

O respeito e sentimento todo que tenho pela bandeira do meu país não está nem de perto nem de longe ligado ao estado da bandeira em si, ao modo como foi dobrada ou se foi seguido o protocolo. E os elementos da bandeira são mesmo isso, elementos , pode-se fazer qualquer coisa com eles e toda a gente deve poder andar com a bandeira que quiser… desde que não hasteie a bandeira que quiser num edifício público. Para mim é mais ou menos isto, mas para os nacionalistas  foi uma oportunidade de mostrar  o seu desrespeito pela liberdade e a sua homofobia. Não sei se isto está a crescer ou diminuir em Portugal mas seria importante saber.

A segunda foi o Marcelo numa selfie com duas russas no metro de Moscovo. Tinha ido cumprir esse dever constitucional do presidente que é acompanhar a Selecção Nacional em todas as fases do Mundial. Antes disso tinha sido confirmada a sua actuação com os Xutos  no Rock in Rio e fiquei meio pasmado ( pasmado por completo já não) ao ver uma fila de dezenas de pessoas na feira do livro para tirar uma selfie com ele.

Porque é que isto importa no contexto do autoritarismo nacionalista? Porque este presidente que temos está a escancarar a porta a um candidato cuja  qualificação seja ser famoso, dizer o que as pessoas querem ouvir  e ficar bem na fotografia.

Isto não está muito bem encaminhado –  frase que poderia terminar crónicas deste género há séculos.

 

 

 

 

 

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One thought on “Aí está

  1. Tudo se resume numas frases que li por aí, “prós amigos tudo, prós inimigos nada, prós outros cumpra-se a lei” e eu acrescento, mude-se a lei pra cumprir o acima descrito. Abraço

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