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Ófaxavor!

Num dia estava a levar a minha vidinha plácida e lenta entre o cuidado do rebanho e das terras, a produção de cerveja e a preparação e treino nos botes baleeiros, no dia seguinte tornava-me empregado de mesa num restaurante, foi das mudanças mais estranhas e inesperadas da minha vida mas as coisas são mesmo assim.

Aqui há tempos apareceu no facebook  um anúncio em que a melhor e mais famosa unidade hoteleira da ilha procurava um recepcionista. Não morro de amores por turistas, cresci numa casa de turismo de habitação, das primeiras do país, e a permanente intrusão e vai e vem de estranhos na casa deixou-me um trauma que dura até hoje. Apesar disso não vivo do ar e os meus projectos e planos avançam muito lentamente, na medida em que chegam a avançar, e vi naquilo uma oportunidade de melhorar as minhas condições de vida, que materialmente são um bocado precárias.

Fiz a barba, encontrei uma camisa lavada e pouco amarrotada e lá fui no mesmo dia. Não tinha um CV pronto mas expliquei-lhes as minhas qualificações que relevavam para essa função e fiquei à espera de resposta. Expliquei que para mim o Domingo era um dia como os outros e que os únicos dias de folga de que precisava eram 4 em Julho e outros 4 em Agosto, fins de semana prolongados em que vamos à Terceira e ao Faial competir nas regatas de botes baleeiros. O trabalho de recepcionista numa unidade tão pequena não me metia medo nenhum, a pessoa que me entrevistou parecia ter ficado apenas à espera de uma formalidade e eu voltei para casa a pensar que ao fim de 21 anos, altura em que pela última vez piquei um cartão, podia  ter um emprego normal que ia mudar bastante a minha vida. Podia, mas sendo pessimista por natureza fiquei à espera de uma resposta negativa. Nem negativa nem positiva, não me diziam nada,  ao fim de dez dias  liguei para uma amiga que também é amiga da gestora da unidade hoteleira a pedir-lhe que lhe desse um toque, para me informarem da decisão caso se tivessem esquecido, o que é sempre possível. Passados 15 minutos recebi o telefonema, não podiam contratar-me por causa dos 4 dias em Julho e outros 4 em Agosto que eu tinha que tirar por estar comprometido com os botes. Sem problema, até me podiam ter dito simplesmente que tinham encontrado uma pessoa mais adequada, é a coisa mais natural do mundo.

Só que a minha amiga ficou a pensar que eu  andava activamente à procura de emprego e, como boa amiga, lançou-se no networking. Passados dois dias recebo outro telefonema , dos meus vizinhos alemães que têm um restaurante aqui ao lado. Eu pensava que queriam falar comigo sobre a produção de cerveja, já tínhamos discutido possibilidades de sociedade, mas o que eles queriam nesse dia era propôr-me a posição de empregado de mesa, das 6 da tarde ao fim do dia, todo o Verão.

A idéia pareceu-me péssima desde o início por juntar logo três coisas que não me interessam mesmo nada  e que não aprecio: contactar  com desconhecidos , comida e servir turistas. Além disso eu sou um gajo bastante orgulhoso e depois das coisas que fiz na vida, e faço, ser empregado de mesa é uma “despromoção” considerável, e foi esse o segundo  factor que me fez aceitar: faz-nos bem sermos reduzidos de vez em quando, é bom vermos o ego a sofrer um pouco e é bom podermos não só  estar no lugar dos outros como apreciar em que medida é que a opinião dos outros sobre nós varia consoante a nossa ocupação.

O primeiro factor foi obviamente o dinheiro, quando uma pessoa passa dificuldades e lhe oferecem uma oportunidade de as mitigar com trabalho honesto, recusar é para mim impensável. Aceitei logo mas durante essa noite mal dormi e cheguei a pensar em recusar no dia seguinte, mas não fui capaz, comecei no dia 1.

Detesto tudo, excepto as pessoas com quem  trabalho. Além de gostar das pessoas e do dinheiro que me vai resolver alguns problemas imediatos só há duas  coisas positivas :  o restaurante é a dois minutos de casa a pé e todos os dias trago uma caixa de restos para o Rofe, que se anda a consolar (e  a engordar, tenho que resolver isso) . De resto é um exercício de auto controlo, paciência  e esforço, sorriso postiço, horas a correr de um lado para o outro, rodeado de turistas, comida e cheiro a comida. A ver pessoas a gastar num jantar o que me leva ali uma semana a ganhar e aturar gente petulante ou simplesmente parva , que aparece sempre no meio das pessoas normais. Felizmente os patrões concordaram que era melhor ser a outra moça a tratar dos pedidos apesar da minha facilidade com as línguas. Não sei se ia conseguir lidar bem com as questões que nunca acabam :  Isto é o quê?Leva o quê? É feito como? É comida, nesse caso carne, feita ali na cozinha, no fogão. Ainda agora o suicídio do Anthony Bourdain me fez recordar o que eu abomino os glutões, os que vivem para comer e a obsessão nacional com a comida num país em que, para recuperar as palavras do próprio Bourdain “as pessoas ao almoço já estão a falar do que vão jantar”. Há quem ache divertido, eu acho doentio.

Há outra coisa positiva neste trabalho: nunca mais vou entrar num restaurante da mesma maneira, não é que seja ocasião frequente ou que alguma vez tivesse tratado os empregados com alguma coisa mais do que cortesia comum mas agora vejo as coisas de outra maneira, há uma empatia.

Tenho um calendário em que vou riscando os dias até 27 de Setembro, não vão  ser quatro meses nada fáceis mas acho que vou chegar ao fim uma pessoa um pouco melhor.

2 thoughts on “Ófaxavor!

  1. pois eu teria um orgulho enorme em ser servido pelo maitre de sala Jorge Ventura, dois problemas se colocam, avião e “gastar num jantar o que me leva ali uma semana a ganhar”, o primeiro ainda daria para ultrapassar agora o segundo…..
    Será bom para termos mais uns capítulos aqui no Ave de Arribação. Vai Correr tudo bem certamente, força, abraço

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