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Sofrer até Deus querer

Desejo a todos os deputados que votaram contra a despenalização da eutanásia uma agonia prolongada no leito de morte, já para lá da idade de recuperação possível. Desejo-lhes, a eles  e às famílias, anos e anos de olhar para o tecto sabendo que não há cura, é para a morte que se caminha e há que continuar a sofrer. Porquê? Porque é a vontade de Deus. Como é que temos a certeza disso? Não temos.

Não esperava que este debate e votação fossem acontecer , só quando um grupo do CDS publicou um cartaz em que avisava que “a eutanásia mata” é que percebi que o tema tinha voltado, desliguei outra vez por ter uma boa noção do nível dos nossos deputados e das nossas “campanhas de sensiblização”. Felizmente não houve referendo, já é demais o número de pessoas que confunde eutanásia com eugenismo e o nosso nível cultural , neste tipo de debates, é sempre marcado pela religião. A nação fidelíssima e catolicíssima continua a carregar todos os preconceitos e ideias da sua religião, não percebe nem admite bem os que já deixaram essa religião para trás e pior, continua a querer (e conseguir) impôr as visões religiosas a toda a gente. Levaste àgua pela cabeça abaixo em pequenino e recitaram umas fórmulas mágicas na ocasião? Parabéns, és um católico e daqui em diante tens uma série de coisas que não podes pôr em causa nem questionar.

Tenho a ideia de que a Constituição impõe a separação clara entre Igreja e Estado mas apesar disso , como vimos mais uma vez ontem, muitas vezes o Estado legisla em conformidade com a Igreja, mesmo frente a oposição clara. Façam um exercício intelectual e tentem pôr de lado os argumentos religiosos como a sacralidade absoluta da vida humana e depois avaliem a questão da morte assistida. Em qualquer sistema moral que não esteja prisioneiro de dogmas de religião o caso contra  a despenalização da eutanásia é fraquíssimo, mas o nosso, com todas as hipocrisias inerentes, é de base católica e assim fica.

A minha querida mãe é muito devota e tem muitas expressões engraçadas, aqui há uns tempos, depois de resolvidos uns problemas difíceis que tive, dizia-me uma das suas favoritas: “Deus aperta mas não afoga”. A minha querida mãe acredita e ama um Deus que se entretém a apertar os pescoços das pessoas só para ver até quando é que aguentam, e depois, na sua magnanimidade , omnipotência e amor, larga o aperto e recolhe a gratidão dos seus filhos por não os ter afogado. Isto é hediondo, esta glorificação e aceitação do sofrimento. Mesmo que acreditassemos que as escrituras são a palavra factual de Deus, mas que Deus é esse que se contenta e alegra  com sacrifícios e sofrimento? Alguém me responde ou tem que ser a chapa cinco,  as vias são misteriosas , que dá sempre para tudo?

Defendo que os cristãos, ou os adeptos de qualquer outra religião, devem ter toda a liberdade de seguir, acreditar e praticar o que lhes pareça bom e plausível. Defendo igualmente que os cristãos, e os outros, devem deixar os que não acreditam levar a vida como lhes aprouver e deixá-los arcar com as consequências.  Não façam nada, nunca, que vá contra a vossa doutrina (claro que aqui a hipocrisia abunda e fede, milhares destes católicos anti eutanasia rebentam com outros  mandamentos numa base diária), não participem em nada que vos ofenda, e assim asseguram a vossa integridade.

Agora, deixem é em paz todos aqueles que não têm o mesmo conjunto de regras e que sobretudo não vos querem obrigar a fazer nada. Nem sequer o Estado tinha que intervir na eutanásia via SNS, bastava que autorizassem clínicas particulares a fazê-lo, e pronto, resolvia-se a questão. Mas não, celebre-se um Te -Deum, a justiça prevaleceu e milhares de moribundos agonizantes vão penar por mais uns meses, a custo enorme em dinheiro, ansiedade, tristeza e desgaste das famílias, prolongando assim um fim inevitável. Deus vai ficar certamente contente com todo esse acréscimo de sofrimento que pelos vistos lhe agrada.

Este negar da possibilidade de pôr  condignamente termo a uma existência completa que chega ao seu fim, prolongando o sofrimento humano até já não ser possível, é das coisas mais amorais que conheço na nossa sociedade. Amorais e estúpidas.

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