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Os Moralistas

Tenho-me rido  com o modo como a vida está a correr ao Pablo Iglésias nas últimas semanas. Para quem não sabe ,o Pablo Iglésias é uma figura que surgiu em Espanha no tempo da última crise económica e ajudou a criar e dirigir um movimento de extrema esquerda chamado Podemos, que defende  as opções clássicas da extrema esquerda. Se se incomodam com o qualificativo “extrema”, chamem-lhe “radical” , que vai dar ao mesmo e eles próprios se definiram assim muitas vezes.

Com o seu rabo de cavalo e retórica anti-capital e anti qualquer coisas que mostrasse conservadorismo, arvorou-se em paladino da moral o seu cavalo de batalha era a exploração dos pobres pelos ricos, os abusos dos políticos e capitalistas e as desigualdades.

Só vê-lo a defender o Maduro, ainda antes de a Venezuela estar à fome e a ferro e fogo, chegava-me para o considerar um hipócrita perigoso , mas não se pode negar que muitas das injustiças que ele denunciava eram (e são) problemas reais, como a corrupção e a evasão fiscal.

Os anos foram passando, a Espanha , sem ser com ele aos comandos, recuperou da crise , pelo que tantos como os que lhe deram ouvidos quando ouviam que “outra solução é possível” agora também já  sabem que outra solução sem ser a dele também é possível.

 Iglésias recebeu centenas de milhar de euros da Venezuela e do Irão, é legítimo um movimento político financiar-se mas essa é a primeira hipocrisia: É legítimo para nós recebermos dos nossos amigos estrangeiros para fazer a nossa propaganda, mesmo que os amigos sejam autocracias catastróficas, mas  se os outros o fazem são uns vendidos e é uma ingerência, já para não falar da vergonha que é  um país onde há fome generalizada estar a “investir” na política de outro país.

Entretanto Iglésias, que em 2011 dava entevistas na cozinha da sua casa que podia ser uma sub cave em Odivelas com o lava louça cheio e tudo, muito terra a terra, um tipo modesto e normal, a ralhar contra a burguesia e os capitalistas consumistas, subiu na vida. As desigualdades e exageros nos vencimentos dos políticos de carreira permitiram-lhe comprar, mais a sua companheira cuja profissão é deputada, uma bela casa no campo com piscina e tudo por 600 mil euros. Caíram-lhe em cima, muitas vezes esquecendo que o problema não é comprar a casa, é ralhar contra os que querem e compram  casas de luxo no campo.

Seguiu-se outra maravilhosa: afinal a casa não eram 600 mil, era um milhão e tal, mas para evitar a carga total de impostos, declarou esse valor e o resto foi em contado, como fica bem fazer a todo o cruzado da moralização que combate a evasão fiscal dos ricos.

Ri-me a bom rir quando lá foram ao chalet pendurar uma tarja a dizer “Refugiados e Okupas são bem vindos”, é verdade que ele sempre defendeu que quem tinha condições para acolher refugiados tinha uma obrigação moral de o fazer e os okupas eram um movimento legítimo. Não havia grandes condições na sub cave dos subúrbios mas naquele chalet ajardinado já pode receber algumas famílias. A seguir vi  (lamento não ter links mas não será difícil de encontrar) uma entrevista da sua companheira e deputada que é de antologia . A jornalista, uma daquelas a sério, pergunta-lhe sobre a inconsistência de ter um discurso contra os ricos e os políticos e seus investimentos e depois fazer o mesmo, especialmente quando massacraram o anterior ministro das finanças que comprou um apartamento desse valor. A deputada hesita, pensa e responde que é  diferente comprar uma casa para habitar e comprar uma casa para especular. A jornalistas pergunta-lhe:

-Como e que sabe que  Luis de Guindos comprou a casa para especular?

A deputada fica por uns dez segundos num dos mais hilariantes e encavacados silêncios que já vi na TV, levanta-se e vai-se embora.  Já hoje , dia em que soube que na segurança do chalet no campo dos líderes do Podemos estão destacados 8 guardas e 2 viaturas, vi um vídeo do Iglésias aqui há uns anos a fulminar os políticos nos quais o Estado gasta centenas de milhar em segurança, privilégio desnecessário , um abuso, temem o Povo.

Mesmo que o Iglésias levasse uma vida de asceta eu ia ser contra a maior parte das  suas ideias, contra o seu estilo e contra a maior parte das suas propostas.Estas revelações só mostram que além de criticável pela ideologia também é criticável pela hipocrisia e falso moralismo.

Entretanto por cá qualquer trapalhada e confusão entre negócios privados e vida pública dos políticos no governo se pode explicar e descartar com um “foi um lapso” ou “não tinha conhecimento”, e até um deputado do BE, irmão do Podemos em quase tudo, declarou que vivia na sede do partido em Braga mentindo sobre a sua residência em Lisboa para receber mais umas centenas de euros. Creio que ainda não se demitiu,  sem dúvida que estará pronto a apresentar em breve um discurso sobre a necessidade de moralização da vida pública, tema sobre o qual todos os políticos estão de acordo.

 

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