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Respirar

Choveu, não se deram as últimas demãos de tinta no segundo bote. Estão ambos magníficos na rampa. Tenho-me lembrado muito dos livros da saga Aubrey-Maturin, os livros da minha vida, e da descrição  que se fazia na Marinha Real Britânica no tempo das guerras napoleónicas dos navios de  “spit & polish” , que  priviligiavam a pintura,  a limpeza, a perfeição do aparelho, o brilho e o polimento em deterimento da operacionalidade. É como nós, temos os botes lindos, espelhados, brilhantes e sem um risco mas nem temos companhas completas e somos (ainda) uma miséria a navegar.

Um pescador a quem eu mandei um berro no outro dia quando ele estava no cais a mandar bitaites enquanto nós saíamos no bote, a perguntar-lhe se ele queria vir e ensinar-nos ou talvez pegar no leme, chamou-me, ainda pensei que me ia falar dos botes mas foi para me pedir se lhe podia dar uma olhadela na sonda da lancha, que está avariada. Infelizmente não o consegui ajudar, vai precisar de uma nova.

Amanhã há sopas do Espírito Santo e como já 3 pessoas me disseram que não me esquecesse e como é na minha freguesia, vou. Não sou devoto do Espírito Santo nem das outras figuras da Trindade juntas ou separadas e ficava um tanto desconfortável a participar numa coisa que é de devoção, mas vou, é uma tradição quase tão social como religiosa e a tradição é alimentar toda a gente que apareça sem distiguir nem perguntar nada, como verdadeiros cristãos.

Fui visitar amigos e depois de vários assuntos não consegui evitar tocar no que me anda a doer mais, por ter que declinar um convite para um “evento” amanhã à hora da final da Taça. É virtualmente impossível explicar a um estrangeiro que não se interessa por futebol o que significa o futebol para um adepto português, lá me esforcei para dar uma ideia mas está bom de ver que a paixão clubística não tem explicação racional, havendo na minha opinião apenas dois motivos racionais para se apoiar um clube em vez de outro: ou é o clube na nossa terra, bairro, vila ou  cidade ou é o clube onde praticamos um desporto. Nenhum dos casos se aplica a mim nem a milhões e milhões de outros adeptos. Fui-me embora de casa deles a sorrir por a minha amiga francesa, depois de me estar a ouvir por um bocado a falar do Sporting, ter dito.

-Fico contente por saber que sempre há uma parte irracional, emocional e inexplicável na tua vida.

Nesta foto vou ao leme de  uma parte bem racional e que se explica facilmente, se bem que também é bastante emocional. Foi tirada na primeira saída do bote este ano, com a companha que se desfez logo a seguir porque o moço da proa, que manobra a vela a que chamamos gibra por corrupção do inglês jib, teve que voltar ao seu Faial natal e deixou-nos sem uma perícia crucial para a manobra. Agora um dos maiores problemas da minha vida é conseguir aprender e ensinar o suficiente para não fazermos má figura no campeonato em Julho. Quando um dos meus principais problemas e preocupações é esse, tenho que concluir que sou um gajo de sorte.

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