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Abanibi aboebe, idiotas.

Não gosto de festivais de nada, tirando eventuais festivais de bola que o meu clube raramente produz. Aqui na ilha há uns anos um  finlandês que cá vive juntou-se com mais uns amigos e organizou o “Green Dream Festival” , era para ser um festival internacional de música e ecologia, o resultado ficou um pouco  aquém do que se esperava e publicitava, vieram umas sete pessoas. Desde há uns anos para cá fazem  uma coisa a que chamam Azores Fringe Festival , eu chamo-lhe Cringe Festival, este ano a parte que toca a esta ilha  compõe-se de uma sessão de apreciação de cerâmica artesanal, uma patuscada num café local, um artista que vem cá falar de arte e um concerto de um pequeno grupo neo folclórico. A avaliar pelos anos anteriores tomarão parte no festival entre quinze e dezoito pessoas, claro que sou a favor da iniciativa mas não era mau que lhe dessem um nome mais coerente.

Aqui há uns anos fui de Alcobaça à Zambujeira do Mar e voltei no mesmo dia, queria mesmo ver o Peter Murphy mas não queria nada misturar-me com o maralhal por mais tempo do que fosse necessário para isso e nem sequer me imagino a ir a um festival de coisas que me interessam além de música tipo cerveja artesanal. Vou à Semana do Mar na Horta com gosto, é um verdadeiro festival, mas só vou porque me pagam a viagem e vou participar nas regatas.

E no meio dos festivais todos há a Eurovisão. Tive que ir ver de que ano era a única canção de um eurofestival de que ainda me lembrava de ter visto, ouvido, trauteado e que me ficou no ouvido, nem de propósito e estou a falar muito a sério, chamava-se Abanibi aboebe e era de Israel. Fui procurar o ano, 1978 , portanto eu tinha 5 anos e sem dúvida que me ficou na memória por a ter cantado com os meus irmãos que tempos, a sonoridade era bastante infantil e até havia o single lá em casa.

A partir daí nunca mais, não tenho ideia nenhuma de nenhuma edição nem nenhuma canção. O ano passado houve comoção nacional e ninguém escapou, mais uma vez não vi nada, ouvi a canção portuguesa duas vezes, fui ver a letra e escrevi aqui que era uma canção sobre abandono, obsessão, solidão, miséria mental, ilusão, esperança vã, mendicidade afectiva e resignação . Continuo sem me interessar, é por alguma coisa que se chama a certo género de canções “festivaleiras” . Li que íamos organizar o festival este ano, 20 milhões, pensei que no meio da roubalheira, saque e desperdício dos fundos públicos que se vê todos os dias isto não aquecia nem arrefecia, até era boa propaganda ao país. E pelos vistos é um espectáculo que prende milhões, eu quero é que as pessoas sejam felizes e tenham distracções.

Aquilo ia mais uma vez passar-me ao lado quando o Bloco de Esquerda teve mais uma genial inciativa política: a fim de protestar contra a ocupação dos territórios palestinianos e das acções militares de Israel em Gaza e na Síria e que mais há, apelavam a que não se votasse na canção israelita. Leram bem, estas pessoas juntaram-se num comité e concluíram que era importante e consequente uma campanha contra uma canção, mostrando pela enésima vez que podem ter várias noções mas a do ridículo não está entre elas.

Ao que parece a cantora israelita  até faz parte  de uma minoria oprimida, as gordas lésbicas que cantam mal , só isso seria motivo para ter senão a solidariedade pelo menos a tolerância do Bloco, mas não. Não lhes interessa que Israel seja uma democracia com imprensa livre em que no ano passado a marcha gay teve dez vezes mais pessoas do que a de Lisboa , ao passo que os países que o  Bloco prefere apoiar são geridos por fanáticos religiosos que mandam gays dos prédios abaixo, isso é irrelevante na luta.

Não sou fã de Israel nem dos seus métodos, já os critiquei aqui muita vez, sou contra os colonatos, as ocupações  e o bloqueio de Gaza mas não perco de vista as características, projectos e intenções dos inimigos de Israel e seus apoiantes como o Bloco de Esquerda e restantes anti semitas básicos.  Não basta serem anti semitas e terem a lata descomunal de tomar claramente partido por fundamentalistas religiosos contra uma sociedade aberta e moderna ao memso tempo que se dizem humanistas como ainda por cima  promovem iniciativas estúpidas como um apelo ao boicote a uma canção. Nem com as artes , supostamente uma bandeira, conseguem ser  lúcidos , é só raiva cega e vontade de agitar.

No Twitter ontem não se falava de outra coisa senão do festival, alguns tiveram a ideia de divulgar o número de telefone para votar em Israel. Não resisti e votei , e adormeci a rir-me.

 

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