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O Museu das Descobertas

Li  um artigo  só  porque tinha no título “choldra“, é um termo de que gosto muito, ainda o ano passado ano reli Os Maias e quase me arrepiei com a quantidade de parágrafos que podiam  ter sido escritos hoje.

Não vou comentar o artigo, digo só que o achei deprimente e realista, acho que não se consegue ser realista sem ser um bocado deprimente e pela parte que me toca já desisti de esperar que Portugal mude para melhor. É uma choldra mas é a nossa choldra, e ou emigramos (hoje já não é um drama emigrar como foi durante o governo do Passos) ou aceitamos e seguimos com a nossa vida o melhor que pudermos. Portugal é isto e disto não passa, para usar uma expressão comum aqui na ilha. Quanto mais cedo aceitarmos isso mais poupamos os nervos e melhor  podemos organizar a nossa vida.

Bom, estava então a deprimir-me um bocado com o artigo quando vejo que há um projecto para a criação de um Museu das Descobertas, em Lisboa como não podia deixar de ser.

Uma das características da nossa choldra é que na cabeça do que entre nós passa por elite Portugal é Lisboa e “descentralizar” é um termo que deve sempre permanecer teórico e abstracto e nunca, mas nunca ser  aplicado consequentemente, como  ficou demonstrado pela rábula da mudança do Infarmed para o Porto. É um termo a utilizar por políticos em campanha pela província,  para esquecer na viagem de regresso à capital.

E onde querias tu um Museu das Descobertas sem ser em Lisboa?” Assim de repente ocorre-me Lagos , onde viveu grande  parte da sua vida uma figura que teve alguma importância nas Descobertas e é conhecido por Infante D.Henrique. Lagos foi  o porto de onde partiram as primeiras verdadeiras viagens de descoberta e  foi o centro da navegação  e expansão Atlântica durante décadas. Mas não  deve ser,  Lagos já tem turismo que chegue, ou talvez turismo a mais  (acho que isso agora é um problema, como não podia deixar de ser depois de termos turismo a  menos) , se calhar até alguém sugeriu isso mas os outros riram-se todos com a ideia de fazer uma coisa dessas  fora de Lisboa.

Sobre este futuro museu não sei mais nada, nem me vou dar ao trabalho de saber, só soube pelo mesmo artigo que existe polémica. Ao que percebo há um grupo de historiadores e cientistas  sociais que tem objecções, ou à própria existência do museu, ou ao seu nome, ou a ambas. Deixem-me adivinhar, a liderar o contingente dos historiadores está o Fernando Rosas, do lado dos “cientistas” está o Sousa Santos. Ponho “cientistas” entre aspas porque em fazendo meia dúzia de  cadeiras que tenho em atraso há  mais de 20 anos davam-me um papel a dizer que sou licenciado em ciências sociais, isso bastaria para me apresentar como “cientista social” mas o meu sentido de humor tem limites .

Como lembra o autor do artigo e como dizia o João da Ega, “aqui importa-se tudo. Leis, ideias, filosofias, teorias, assuntos, estéticas, ciências, estilo, indústrias, modas, maneiras, pilhérias, tudo nos vem em caixotes pelo paquete”. Substituindo o paquete pela internet e a easyjet e acrescentando à lista as causas e indignações, isto é  verídico cento e tal anos depois de ter sido escrito. Nos países anglo saxónicos e boa parte do resto da Europa hoje caminha-se sobre brasas e não só as figuras públicas se torcem e retorcem para evitar ofender seja o que for (este torcer e retorcer só é possível a quem não tem espinha dorsal) como nunca pára a denúncia e indignação com o que sai fora do cânone da “modernidade” e dos estabelecido como correcto. Exemplo recente, no Reino Unido dois tripulantes de um salva vidas foram despedidos porque tinham canecas com mulheres nuas e o comissário político que os controla escandalizou-se e arranjou maneira de os despedir. Em 2018 é ofensivo que marinheiros profissionais bebam o seu café em canecas com um desenho ou foto de uma mulher nua. Este pessoal  ofende-se com muito pouco, e isso só é grave porque de cada vez que se ofendem com merdas sem jeito nenhum arranjam maneira de encravar a vida ao próximo.

Então parece que falar em “descobertas” ofende ou incomoda muita gente. As ciências sociais (sem aplicar o método científico por ser impossível neste caso) proclamam que  a expansão marítima foi negativa, para não usar palavras mais fortes. A historiografia de esquerda abomina-a e nunca perde uma oportunidade de apresentar os seus protagonistas como bestas furiosas e quem os admira hoje como reaccionários fascistóides e insensíveis.

Quero fazer dois comentários, o primeiro quanto à objecção ao termo “descobertas”. Diz-se que Índias e outras paragens não foram descobertas porque já lá existia gente e essa gente, mais os vizinhos, já sabia naturalmente da existência dessas terras. Isto é um bocado como dizer que o Fleming não descobriu a penicilina, uma vez que sempre existiu penicilina, já lá estava, e só porque o Fleming foi o primeiro a identificá-la e descrevê-la isso não quer dizer que a tenha descoberto, é isso? A Marie  Curie não descobriu nenhuma radioactividade porque  sempre houve radioactividade. Este pessoal nunca descobre um restaurante ou um livro, visto que já existiam antes de os encontrarem e já eram conhecidos por outros. Parece-me um argumento miserável.

Que já houvesse habitantes nas terras alcançadas pelos portugueses de 500 não tem nada a ver com terem sido descobertas,  como de resto qualquer dicionário pode confirmar. Se é de palavras isoladas que estamos a falar, nada como usar um dicionário. Se na Europa ninguém sabia da existência do Brasil por mais gente  que lá houvesse, se ninguém nunca tinha falado no Brasil nem fazia ideia nenhuma de que aquela terra ali existia, segue que quem a encontra, localiza, descreve e divulga a descobriu, e isto aplica-se ao Brasil e a todas as outras terras das quais os portugueses foram os primeiros a dar notícias na Europa. É eurocentrismo? Talvez, mas uma vez que somos europeus, vivemos na Europa e estamos a discutir História da Europa não é descabida uma visão europeia , ou é? Em que circunstâncias é que se poderia então falar em Descobertas?

Nunca ouvi dizer que os portugueses descobriram a Índia, descobriram sim o caminho marítimo para lá, podemos contar isso como uma descoberta ou não, uma vez que os oceanos e seus cabos e ventos sempre lá estiveram? É a verdadeira questão de lana caprina que prolifera nas academias e de vez em quando sai cá para fora quando querem dar prova de vida ou envolver-se nos debates da moda, obviamente importados da estranja.

O segundo comentário é quanto aos julgamentos de valor que se fazem dos portugueses de 500 e suas acções. Gente que consegue desculpar e justificar  Castros e Lenines em 2 parágrafos fica agastadíssima com a veneração a um Gama ou Albuquerque. Interesso-me por história colonial e da Expansão desde que me lembro , começou pelos sonhos incendiados em garoto por livros como a versão juvenil da Peregrinação do Adolfo Simões Muller e outras glorificações dos descobrimentos (leituras que não foram estranhas à carreira profissional que segui e à vontade enorme de seguir as esteiras dos navegadores) e está hoje numa visão realista , ninguém me consegue surpreender com  mais um exemplo das barbaridades e crueldades perpetradas no Ultramar e suas motivações.Mais de 20 anos de leituras e viagens tiraram-me as ilusões que tinha quando era garoto e  conheço suficientemente bem a História. Nem de propósito terminei ontem de reler um dos vários livros de VS Naipaul que esclarece bem o tema, nesse caso é a história de Trinidad.  Assim de repente e para quem quer uma introdução rápida às iniquidades e misérias do colonialismo sugiro mais dois,  A Brevíssima  Relação da Destruição das ÍndiasO Soldado Prático , este último comprei-o quando ainda romantizava as Descobertas, a pensar que era sobre a vida diária de um soldado português na Índia e acabou por ser dos livros que mais me chocou na vida, destruiu-me as ilusões quanto à organização e gestão do Império Português e às acções dos portugueses por lá. Equlibrem com qualquer livro do Charles Boxer, bom para dar a dimensão real da coisa e pôr as corrupções e violências em perspectiva e contraste com os avanços e construções.

Um dos problemas é que os que vituperam e demonizam os colonizadores (alguns sem dúvida verdadeiros demónios) partem de uma premissa improvável: tinha sido melhor para, por exemplo, os Guaranis, se o Cabral nunca tivesse descoberto (ou descrito, ou localizado, o que quiserem) o Brasil.  Não sabemos, não temos nem nunca teremos maneira de saber e dizer que só  levámos destruição e caos é ignorar tudo o que também lá criámos, o valor de todas as trocas e o valor para a Europa dessa descoberta. Se não fossem os portugueses seriam os Espanhóis, se não os Espanhóis seriam os Holandeses, o que é mesmo certo é que dada a assimetria tecnológica nunca seriam os Guaranis a atravessar o Atlântico e a descobrir Portugal. É impossível afirmar que não fora o Infante e Cabral e todos os outros os Guaranis , ou os Bantus ou qualquer outro povo, ia ter uma existência muito melhor. Isso é história contra factual e vale o que vale, vale um exercício. Será que a nossa vida seria melhor se não tivesse havido  conjura e Restauração em 1640? Nunca vamos saber.

Outro problema: a ideia falsa mas muito difundida de que os Guaranis, ou os Hindus, viviam numa tranquila, pura e pacífica existência quando  chegaram os portugueses e deram cabo de tudo. Quando por exemplo o Gama chegou a Calicut o Samorim era a autoridade única e absoluta;  uma  vida humana valia pouco mais que nada, a escravatura e o sistema de castas eram regra há séculos, o comércio estava nas mãos  de mercadores estrangeiros e a guerra com os vizinhos (tal como em África e na Amazónia) era o modo de vida aceite e comum. Os indígenas Caribs faziam expedições com milhares de guerreiros às ilhas vizinhas só para capturar e comer outras tribos,  não é razão para lhes roubar a terra mas também mostra que paraísos plácidos e incorruptos existiam era na cabeça das pessoas. É outra que devemos ao Rousseau com o seu delírio do  bom selvagem .

Neste livro , que não recomendo aos “anti descobrimentos” nem a almas sensíveis que se chocam  com grandes feitos de armas e são mais de dar as mãos e cantar o Kumbaya, há uma tabela muito interessante com todos os soberanos do Indostão desde o ano 1001 até 1754. Em 750 anos tiveram 64 soberanos , desses 64, 25 foram assassinados,  vários  pelos próprios filhos. Mais de 1/3 dos soberanos morreu assassinado, aquilo já eram terras de violência extrema e instabilidade quando os portugueses lá chegaram e assim continuaram. Os escravos levados da costa ocidental africana para as Américas eram na sua maioria comprados a outros  indígenas, e quando não a outros indígenas , a árabes que desde há séculos desciam para a África sub sahariana ( ocidental e oriental) nas suas razzias e capturavam e comerciavam gente. Não inventámos nada, a não ser técnicas de navegação e só a extensão dessas, e os feitos marítimos perfeitamente assombrosos, deviam chegar para nos encher de orgulho. Claro que para reconhecer a dimensão de um feito marítimo é preciso compreender alguma coisa sobre navios, navegação e alto mar e para isso os livros não chegam.

Não há que branquear ou escamotear as atrocidades feitas durante a expansão mas por favor nem sequer me tentem convencer com a teoria  que pretende que invadimos um mundo pacífico, ordenado e justo, que fomos nós que levámos a opressão e a guerra e que se os tivéssemos deixado estar  tinha sido melhor para todos.

Não sei quem foi que disse que Portugal deu novos Mundos ao Mundo mas tenho para mim que é verdade, que é o nosso maior legado e contribuição,  termos iniciado a Globalização,  para o bem e para o mal. Quem é contra a globalização e as trocas e contactos entre povos distantes tem que admitir que prefere cada um no seu cantinho, cada raça sua raça sem misturas e  sem comércios. Quem diz que outra globalização é possível  não vive neste mundo e não se lhe pode prestar atenção.

Façam o Museu, não se armem em parvos e chamem-lhe Das Descobertas, façam-no por exemplo na Cordoaria já que é inconcebível que não seja em Lisboa, e encham-no de artefactos, representações  e documentos que mostrem como era a vida cá em 1400, como era a vida no Brasil , África e Índias em 1500, como é que os portugueses lá chegaram, o que é que levaram, construíram e trouxeram   e quais foram as consequências , boas e más,  dessa chegada e presença, para o país, a Europa e o Mundo. Estou seguro de que é possível, assim haja vontade e se excluam da organização os fanáticos dos dois lados, conseguir o equilíbrio necessário entre a visão romântica e a visão dramática, e depois deixem os juízos de valor para cada visitante.

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Termino com mais uma sugestão de leitura sobre o tema, um livro recente chamado “Conquistadores” , que tem a vantagem de ser escrito por um estrangeiro, logo, com um olhar  distanciado e imune às nossa quezílias e posturas internas. Detalha e ilustra bem a aventura extraordinária das Descobertas sem poupar no sangue, horrores e iniquidades mas sem nunca  desvalorizar a bravura,  determinação,  resistência e capacidades quase inacreditáveis daquelas gerações.

PS: vejo hoje que as carcassas da academia desceram das suas torres bafientas para propôr que o museu se chame “Museu da Interculturalidade”. Típico, este pessoal vive no seu universo e nem bate a pestana a propôr para nome do museu uma palavra que uma boa metade  da população não percebe e nem eles próprios conseguem definir sem um subsídio de investigação científica e 72 páginas de elocubrações.

 

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