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Regresso ao Mar

O feriado foi dia de tirar o bote baleeiro do canto do porto onde passou o inverno, lavá-lo e metê-lo no barracão  onde vai ser lixado e pintado. Depois de lavadinho parecia-me a mim pronto para ser arriado e navegar, sobretudo porque no fim deste verão vai para o Pico para reparações, vai-se pintar um tabuado que vai ser desmanchado daqui a poucos meses, mas é assim. Não me vou alongar sobre os problemas que naturalmente começaram  assim que a época começou,  quero focar-me no essencial: ter aquele bote a navegar, treinar sempre que possível e em Julho estar na Terceira na linha de largada da regata e  não fazer má figura. Já percebi o ano passado que eu só mando quando o bote está na água, no resto das decisões todas não sou tido nem achado, e de certa maneira até é melhor assim. Desde que seja claro quem manda no quê eu funciono  bem, e pelo privilégio de navegar com aquele bote aturo muita coisa. Vamos ver como corre.

Parece que este ano não vai haver só navegação em botes baleeiros, também no feriado  recebi um email  do  armador de um HR45 que eu conheço muito bem. Comprou o barco a um turco em 2004 , quando  o barco estava em Cuba e eu fui lá e  levei-o para Gibraltar. Passados 7 anos de cruzeiros da família o barco estava em Salvador da Bahia, e chamaram-me para o ir lá buscar e  levar para as Caraíbas. Já em 2012 o  barco estava de volta à Europa, em Southampton, pronto a iniciar uma descida para o Mediterrâneo, e lá fui eu buscá-lo, dessa vez ficou em Bayona. Há três anos contactaram-me para ir à Sardenha busca-lo e deixá-lo na Croácia mas nessa altura altura eu estava noutro lado do mundo com outro barco e não pude. Tem navegado no Adriático e agora querem levá-lo para a Turquia, para refazer o convés de teca, e perguntaram-me se eu queria e podia fazer isso.

Pensei menos de um minuto e aceitei, por razões muito boas que tornam esta  diferente de outras ofertas que já declinei ou oportunidades recentes que não persegui. Primeiro, conheço bem e adoro o barco que apesar de ser antigo é mantido em condição impecável por eles. O filho é engenheiro de formação e quando compraram o barco fez um manual melhor que o de origem. Depois, é uma viagem curta, são umas 850 milhas que com alguma sorte e a ajuda dos  500 litros de gasóleo que  leva se podem cobrir  em seis dias. Por ele eu podia levar o tempo que quisesse e parar na Grécia, já lhe disse que um dos principais objectivos é só ver a Grécia ao longe, não só porque qualquer contacto com a burocracia e administração grega é sempre de evitar como pelo tempo que uma escala leva e também dado o destino final, os turcos e os gregos nunca foram muito amigos e não perdem oportunidades de se irritarem mutuamente em coisas como procedimentos fronteiriços.  Disse-lhe logo que se me tivesse pedido para levar o barco  para o Brasil tinha declinado, isto  creio que consigo fazer  em quinze dias, a contar do dia que saio da minha porta até que regresso. Terceira razão, não preciso de estabelecer uma relação com um cliente novo, não preciso de contratos, não preciso de explicar nada, com este  faz-se tudo com meia dúzia de emails, zero telefonemas e duas actualizações : “estou a sair”  e uma semana depois “já cheguei” . Há compreensão  mas não há grande pachorra para os armadores que querem seguir o seu barco em tempo real, e ir dialogando. Em quarto lugar, há muito tempo, é para o fim de Setembro , tempo para preparar tudo mas sobretudo tempo suficiente para juntar uma tripulação de amigos, daqueles que sabem o que estão a fazer.

Se isto implicasse um barco novo, um cliente desconhecido, uma ausência de mais de 15 dias e uma tripulação nova não tinha aceite, mas sendo assim, e ainda por cima sabendo que o meu preço não vai ser regateado, foi a tal proposta que eu não podia recusar. Apesar da determinação toda, e da real ausência de saudades dessa vida, sabia que mais tarde ou mais cedo ia chegar essa proposta, não esperava que fosse tão cedo.

 

PS: Quanto ao 25 de Abril de 1974 , acho que já ninguém consegue acrescentar nada à história e à História nem apresentar nenhum ponto de vista original,  creio que já está bem compreendido e explicado. Mesmo assim parece que é preciso afirmá-lo , por isso esclareço que celebro o 25 de Abril e estou reconhecido aos Capitães.  Claro que resta sempre espaço para a franja lunática, há um artigo de um blog chamado “marxismo cultural” que avança uma tese interessante, suportada entre outros pelo noção de que  os cravos são a flor simbólica da casa Rothchild ;  por um facto um tanto  menos notado que foi a presença de um porta aviões americano no porto de Lisboa nessa data  e por outro que está muito lembrado e documentado excepto que por ninguém, nunca:  os camiões da Nato que fizeram o abastecimento de cravos vermelhos a Lisboa. Das maquinações geopolíticas da CIA e dos Rothshilds, manipulando a Nato e a própria prima do Salgueiro Maia ,o plano maquiavélico e sobretudo discreto que saiu foi um porta aviões americano vir descarregar cravos vermelhos a Lisboa usando camiões da Nato. Parece-me plausível, viva a Liberdade e a loucura!

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