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Energia boa, energia má.

Ontem foi o dia de visitar  o lar de idosos da Santa Casa  para o nosso “espectáculo” de animação. Lembrava-me de uma vez lá ter entrado e ter ficado chocado com o  cheiro, que depois soube que é  comum, e passei o mês dos ensaios a preparar-me mentalmente para aguentar aquilo. Mais uma vez mostrando que o melhor é prepararmo-nos e esperar o pior, entrei, respirei fundo e fiquei surpreendido e aliviado, não notava nenhum cheiro especial e não faço ideia de a que se deve essa diferença de uma visita para a outra.

O lar é impecável, é daquelas coisas que nos faz achar que há parte da dívida pública que vale a pena. Tem nesta altura 23 utentes com capacidade para 32, se não estou em erro, os que não estão de cama estavam no salão principal e ainda vieram algumas amigas para ver a apresentação.

As canções eram belíssimas, abanei o “ovo” de percussão com competência relativa, os teatrinhos foram engraçados,  a minha historieta trouxe vários sorrisos lindos e isso recompensou-me à larga. Pediram-nos para a semana irmos apresentar o mesmo ao lar de Santa Cruz. Não sou  pessoa de crer muito em  auras nem magnetismos e afins mas parece-me  óbvio que uma troca como aquela traz “boas energias” a quem dá e a quem recebe. Como é que meço essa energia? Não tenho maneira, mas se saio a sentir-me melhor do que entrei e se quem me ouviu sorriu e passou uns momentos positivos, isso é boa energia.

-Temos que publicar essa história, tu escreves muito bem, devias escrever mais

Dizia-me uma amiga de cá, eu ri-me e disse que escrevo umas coisas mas para minha edificação e entretenimento pessoal e que não via necessidade nem vantagem em   publicar uma historieta tão básica feita para uma ocasião específica.

 Nunca quis publicitar este blog, especialmente desde que vivo aqui, saber que todos os meus  vizinhos  podem ler o que escrevo ia-me condicionar um bocado. Nem sequer lá ia com um pseudónimo, primeiro porque gosto sempre de assinar o que escrevo e depois porque, para escrever como gosto, toda a gente percebia num instante quem era. Haverá um ou outro leitor disto aqui na ilha e tenho uma mão cheia de amigos pessoais que acompanha estas páginas e para mim está bom assim.

A meio da tarde, outro tipo de energias, as energias da bola. O meu amigo Beru, francês que cá vive há uns anos bons, ex marinheiro, marceneiro, carpinteiro e em geral uma pessoa adorável,  é desde o ano passado o meu companheiro do futebol. Nunca tinha ligado muito mas hoje é sportinguista que já conhece os jogadores e já se exaspera e celebra como o resto. Todas as semanas lhe mando um sms com a hora do jogo (ele também vive fora do alcance da “comunicação social”)  e lá nos encontramos no bar do porto.

Ontem foi difícil, e quando o Bas Dost falhou o penalti e dois benfiquistas atrás de nós celebraram efusivamente pensei “é isto o nosso destino” , mas até ao lavar dos cestos é vindima e o Sporting lá arranjou energia, determinação e força que, com a imprescindível ponta de sorte, meteram a bola lá dentro e nos colocaram nos quartos de final da Liga Europa.

Para o fim do dia estava marcada uma apresentação e discussão pública de um projecto da EDA  para a ilha, uma nova mini hídrica, um projecto de energia daquela que se mede .

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Se alguém tem algumas dúvidas de que a democracia directa é uma má  ideia basta-lhe ir a uma destas sessões e fica logo esclarecido. Por partes:

– Desde 1990 que a EDA anda de volta disto, o aproveitamento hidroeléctrico de duas das ribeiras da costa Oeste.

-A conclusão dessa mini hídrica permitirá (?) à ilha ter as necessidades energéticas satisfeitas sem utilizar a central térmica , ou seja, a par com a renovação das eólicas aquilo pode permitir às Flores ter 100% de energia renovável, coisa que no mundo só a Islândia consegue, por via da geotermia.

-O auditório estava completamente cheio, foi o  melhor da noite, prefiro o conflito, protesto  e discussão à apatia e alheamento.

-A EDA mandou o presidente e mais uma data de engenheiros e especialistas, incluindo da EDP, e preparou  uma apresentação detalhada.

-Todas as pessoas que  pediram a palavra (pelo menos até eu me ter levantado e saído por estar exasperado com o nível da discussão) já iam com a sua opinião formada, são liminarmente contra e seriam sempre. Não foram para conhecer o projecto, foram para protestar.

– Estes  protestos não se baseavam em nada técnico, não se questionaram a sério os cálculos ou desenhos, a objecção é simples e é sempre a mesma: não se deve construir mais nada porque assim é que é bom , há que conservar tudo como está e queremos que os turistas não se incomodem com nada.

-A maioria dos activistas tem como facto comprovado que as empresas, todas as empresas, existem para destruir , espoliar e lucrar com essa destruição e que as obras são para gerar lucro. Se o presidente da EDA diz que o investimento vai ser de 20 milhões e que só será recuperado, eventualmente, em mais de 30 anos, eles dizem que é mentira e obfuscação, sobretudo porque o homem usa gravata e é presidente de uma empresa, logo, o demo encarnado.

– O representante da associação ambiental local acusou a EDA de não ser fiscalizada por ninguém, levantou-se o representante da Direcção Regional do Ambiente e informou que por  lei eles fiscalizam  as actividades da  EDA. Não serviu de nada.

– Outra objecção era devida às alterações verificadas no curso das ribeiras ao logo das décadas, ia-se construir em zonas que já foram pontualmente leito das ribeiras. Lembrar que  os pontos de captação e condutas servem igualmente para regularizar e estabilizar os leitos e caudais não serviu de nada.

– Uma sala cheia de ambientalistas foi insensível à possibilidade de se alimentar toda a ilha com electricidade sem importar e queimar gasóleo.

-Um indivíduo americano que cá vive há mais de 3 anos, é iluminado, conhece O Caminho, nunca se coíbe de apontar os problemas, dramas e falhas da ilha e dos habitantes mas nunca teve tempo nem interesse para aprender uma palavra de português, atirou “dude, your numbers are fake!” , deixando-me na dúvida de como é que ele conhece os números ou o próprio projecto já que não há versão inglesa. Devia ter visto  que eram falsos pelas gravatas dos engenheiros. Mais tarde disse que o que era preciso era racionar e diminuir o consumo de energia. A sua companheira, que ao menos fala português, esclareceu (aqui ninguém nunca se tinha lembrado disso, valham-nos estes beneméritos) que fala com quase todos os turistas  e que o que eles querem é pureza e silêncio. Nós a pensar que eles vinham pela vida nocturna e as praias. “A mini hídrica vai arruinar a economia da ilha”, com essa demonstrou  que nem percebeu bem o projecto nem conhece a economia da ilha como pensa que conhece.

– Outra moça protestou que ninguém tinha medido os caudais das ribeiras , eram estimativas. Foi explicado como se fazem as estimativas, por pessoas que há décadas, pela EDA e EDP, se dedicam a estudar e calcular caudais, com aparente sucesso na medida em que as luzes estão acesas e as barragens trabalham, mas também isso não fui suficiente.

– O gerente do maior e mais famoso aldeamento turístico da ilha, pessoa que me parece confundir o interesse da ilha com o do seu aldeamento e que acha que a cada passo que se tome nesta ilha ele deve ser consultado e dar o seu acordo, diz que o nível de ruído é inaceitável. Tenho a certeza de que qualquer nível de ruído acima de zero seria inaceitável para ele.

– Uma outra  moça, que foi mãe recentemente e como tal está energizada para lutar por um mundo puro para  sua cria, protestou que a mini hídrica não servia no Verão porque havia tempos em que as ribeiras estão quase secas. Não adianta explicar como funciona um centro de retenção, ou sequer a própria mini hídrica, isto são objecções que vêm do coração, não há técnica nem economia que as contrarie.

Foi por esta altura do debate entre o Bem e o Mal que abandonei a sala, pegando na deixa de um interveniente que afirmou, cheio de razão, que convocam estas reuniões quando os projectos estão feitos e as decisões tomadas, pelo que é uma perda de tempo.

Eu fui lá simplesmente para saber do que se tratava, convicto de que a minha opinião não conta. Se contasse, diria que acho positivo trabalhar para que a ilha não tenha que importar e queimar gasóleo às toneladas para gerar electricidade; que acho que a paralisação geral de tudo e o regresso ao passado não são  resposta para nada; que as pessoas que acreditam que é têm bom e rápido remédio: vivam sem electricidade, água corrente e apreciem a enorme superioridade moral que isso lhes confere.Também acho que as empresas como a EDA cometem muitos erros mas que dado que é precisa uma política de energia se queremos ter energia, essa política deve ser entregue a engenheiros e não a activistas; que os activistas acreditam demasiadas vezes que o seu trabalho é obstruir e condenar e que especialmente os estrangeiros e imigrantes recentes adoram a paisagem da ilha mas  para os habitantes estão-se nas tintas, para não dizer que os consideram um empecilho, uns atrasados e manipulados que não conseguem entender.

Para terminar, duas notas que não têm a ver com a ilha mas têm tudo a ver com o tema:

-Aqui há poucos meses a Associação Ambientalista Zero, que como o nome indica propõe e defende crescimento, emissões e tudo o mais a zero, levou a cabo uma campanha de re plantação no extinto Pinhal de Leiria. Plantaram mil sobreiros, o que para quem conhece o terreno e clima das terras do Pinhal de Leiria só ilustra uma certa  discrepância entre as intenções destas pessoas e o seu conhecimento da realidade.

– Está calculado que os 15 maiores navios de carga do mundo emitem tantos poluentes como todos os automóveis do mundo, devido ao tipo de combustível que usam. Há mais de 50 000 navios de carga no mundo. Apesar disto ser do domínio público, os ambientalistas batem as palmas quando se proíbem carros velhos ou a gasóleo nos centros das cidades e se promovem os carros eléctricos como uma coisa que vai fazer alguma diferença.

De cada vez que um porta contentores passa aqui ao largo das Flores polui mais que um ano de tráfego rodoviário, mas em breve vamos ter aqui os leafs e prius, a assinalar a virtude, subsidiados, claro está, e apresentados como uma coisa positiva para o ambiente, mesmo que a simples fabricação de uma bateria para um deles polua mais que todo o ciclo de vida de uma automóvel a gasóleo.

Nas questões ambientais para mim o principal problema é a ordenação das prioridades, e continuo sem vislumbrar uma esperança de que isso mude.

Ps: Acabo de ver isto, chamo portanto a atenção para o  facto de ontem à noite o Presidente da EDA se ter mostrado  mal informado, apesar de ter estado recentemente em Paris numa reunião das pessoas importantes do sector. A acreditar no Canal Arte a ilha de Hierro é 100% autónoma num sistema que só reforça os argumentos dele.Não percebo porque não mencionou isto. Energia e Engenharia, de aço e betão e  biológica. Equilíbrios para um futuro possível, talvez.

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