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Inverno

Isto de viver sozinho no meio de um campo numa ilha remota é muito bonito e muito romântico e tal mas o diabo é quando se  fica doente. Nestas alturas não parece uma situação assim tão ideal, toda esta paz e independência e tranquilidade, e trocava-se bem alguma desta liberdade toda por um prato de sopa quente, a louça lavada e a roupa da cama mudada , mas é só nestas alturas.

Assim que fiquei de cama o cão resignou-se a sair de casa uma vez por dia e passou  os seus dias e noites aos meus  pés  sem se queixar. O gato desapareceu imediatamente, não o vejo vai para uma semana. Cães e gatos.

O tempo tem estado o normal para esta altura excepto o frio, está muito mais frio do que o costume e está a humidade do costume, isto para mim é difícil. “Você devia ir viver era para o Algarve, ou melhor, para Marrocos ou Cabo Verde, um sítio quente e  seco, passava muito melhor”, disse-me  uma vez  um médico.   Eu sei que passava porque já lá estive e tanto Marrocos como Cabo Verde têm muitos encantos mas também têm dois enormes problemas: não têm água e são no estrangeiro.

 Só se me exilarem  é que alguma vez volto à condição de estrangeiro, repeti-o para mim muita vez na América: antes quero ser pobre na minha terra do que rico na terra dos outros, não que estivesse em risco de enriquecer lá  mas sim pensando e pesando bem o valor que tem  (e que só conhecem os que vivem fora)  estarmos na nossa terra. Percebo que pessoas com filhos emigrem, para lhes assegurarem mais e melhores oportunidades, mas  para mim não faz sentido uma pessoa só ir penar a distância e o desprezo só para ganhar dinheiro para um dia voltar, ou para construir uma vida marginalmente melhor, se contabilizarmos o que se sofre com essa distância e esse desprezo. Também percebo quem emigre por ambição pura, é normal e até de saudar, normalmente pessoas ambiciosas conseguem fazer grandes coisas, mas mesmo essas pessoas sofrem com a distância, a ausência e a diferença.

Se alguém tem uma experiência de emigração que tenha durado anos e nunca se sentiu olhado de cima para baixo, ignorado ou de qualquer modo mal tratado por ser estrangeiro, que avance e partilhe, eu duvido muito, muito mesmo, de que isso exista. Pode dar-se o caso de nunca ter reparado ou importado com essas  micro ofensas  (termo pós modernista…),  eu reparava sempre, importava-me sempre e nunca me esqueço.

Uma das razões pelas quais aqui vivo   é que aqui é o mais longe que me é possível estar sem sair de Portugal. Já pensei o bastante nisso e não consigo emular Sócrates , que  dizia “não sou ateniense nem grego, sou um cidadão do mundo” , frase que  muitos acreditam ter sido a  primeira  a descrever o cosmopolitismo. Eu não sou cidadão do mundo, sou português e por mais avacalhada e condenada que esteja a minha pátria, por mais desgraças , misérias, roubos  e humilhações sofridas e por sofrer, por mais defeitos que tenha, e são às carradas, esta é a minha terra, do Rio Minho à foz do Guadiana passando por este arquipélago, Centro do Mundo, não a troco por nenhuma e quero ver se morro aqui.

Espero que não seja uma morte muito húmida e fria, de qualquer maneira parece-me que não está para breve, lá resisti a mais umas febres e congestionamentos, desta vez até pensei, olha, vou dar uma hipótese à homeopatia, e comi um pacote de Halls mentolyptus mas não houve melhorias assinaláveis, essas vieram mais com  ibuprofeno em doses generosas.

Já estou operacional outra vez, e bem preciso porque nesta altura há 10 ovelhas distribuídas por 4 terras diferentes, duas delas doentes , quatro delas à beira do parto, uma já abortou uma cria e é sabido que os dias de temporal tendem a induzir  partos. Temporais não têm faltado nem estão para abrandar. Mesmo nos dias em que estive de cama tive que tirar uma hora para não estar de cama porque estes bichos requerem não só atenção “médica” como todos os dias um suplemento alimentar. Encontrei há pouco um francês que mora cá  há mais de 30 anos, também ele “ex marinheiro” e também ele criador de ovelhas, tem um “rebanho” do tamanho do meu. Fui-lhe mostrar umas terras e estivemos a falar de como iam as nossas “lavouras” e ele, que conhece bem  o trabalho, a despesa e a preocupação que as ovelhas dão e perante o lucro, que ele também conhece, perguntou-me porque é que eu gostava de criar ovelhas, o que e que me levava a simpatizar com os bichos, certamente não é a rentabilidade. “Não sei…” , respondi. É difícil explicar porque é que se gosta de algo, mas fiquei a pensar nisso e decidi encomendar-me  uma redacção com o tema “porque é que gosto de ovelhas”.

Uma vez no Panamá, a jantar no barco de um amigo skipper português com uma amiga americana dele, estava a falar das Flores e ela  pergunta-me:

-Mas vives sozinho, o que  é que fazes lá ? , ou coisa que o valha. E eu , em vez de dizer que entre outras coisas criava ovelhas disse:

-“Tenho ovelhas” , e a gargalhada dela foi das mais magníficas que já ouvi, e juntei-me  a ela assim que percebi como aquilo soava dito assim. Já ouvi todas as piadas com as ovelhas, muitas delas excelentes, e posso assegurar que há várias razões pelas quais gosto de criar ovelhas,  mas a companhia próxima não é uma delas.

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