Tenho hoje  um conflito de agenda, duas coisas importantes marcadas para a mesma hora, não me lembro da última vez que isto aconteceu nem fiquei contente quando percebi que tinha que escolher. Às cinco da tarde há o último ensaio antes do ensaio geral para o  pequeno “espectáculo” que estamos a preparar para  fazer no lar de idosos e igualmente às cinco da tarde em Alvalade o Sporting recebe esse colosso do futebol europeu que é o Astana do Cazaquistão. Um aparte para exprimir surpresa pela inclusão de uma equipa do Cazaquistão na Liga Europa, mas de organizações que por exemplo acharam boa ideia fazer um campeonato mundial de futebol no Qatar pode-se esperar tudo. O Sporting leva vantagem de 3 golos fora  pelo que só um colapso geral dos cérebros e pernas dos jogadores nos pode impedir de seguir na eliminatória, e há jogos todas as semanas pelo que não ver este não faz grande diferença.

O dilema da agenda não durou muito, vou ao ensaio, que é  importante não só pela causa que serve mas também pela ocasião,  aceitei participar para ajudar a fazer alguma coisa de positivo pelos velhotes do lar mas ao longo dos ensaios fui apreciando aquilo em si, especialmente pela companhia feminina. O grupo  sou eu e três moças, duas delas casadas com amigos meus, não há  interesses paralelos,  há o gosto de uma certa convivência que ajuda a não nos tornarmos uns bichos e faz  bem a tudo. Viver tranquilo e isolado numa ilha remota sim, tornar-me num eremita que só fala com animais, não.

Há as canções, parte em que eu preferia ficar de fora  mas por  insistências várias lá me resignei a ir marcando o ritmo abanando um ovo cheio de areia que há-de ter um nome específico. Têm uma versão muito divertida da Cantiga da Rua e outra muito bonita do Saudade da Cesária Évora, as canções ficam mais notáveis sobretudo pelo sotaque das moças, que são todas estrangeiras.

Depois há as histórias, uma em forma de canção, outra é uma dramatização de uma parábola  que ao que parece foi contada num livro do Osho. Sempre que me falam do Osho, do Deepak Chopra e outros assim, tenho um  problema em  pôr de lado uma certa  arrogância (é mau mas ao menos tenho consciência dela) que me leva a considerar essa canalha toda um bando de charlatões que reciclam os Vedas e Upanixades dos Hindus  e outras tradições filosóficas orientais ou ocidentais para as reduzir à expressão mais simples, embalar e vender a quem procura  soluções rápidas  e a orientação de quem já pensou por eles.

Mas já estou melhor, até já consigo aprovar, dizer que sim, que é interessante  mas agora  dispenso, tenho outras coisas atrasadas para ler, e consigo sinceramente desejar que as pessoas retirem para a sua vida algo de positivo daquele chorrilho de banalidades, evidências, mistificações, raciocínios e conceitos lãzudos e frases como “mesmo os ateus precisam de Deus”, esta de um livro do Osho que me emprestaram de boa vontade e que me forcei a começar, tendo-o posto de lado quando cheguei a essa frase e ao subsequente falhanço  em fundamentá-la e explicá-la de modo coerente.

A seguir no “alinhamento do espectáculo” há outra história dramatizada, “tradicional” do sul da França e  muito breve, de duas velhas amigas que todos os dias se juntam para ver o pôr do Sol e depois aparece uma terceira. É simples e engraçada, eu sou o narrador e tinha escrito a história num papel. Resultava que havia demasiados silêncios e que era demasiado curta, pediram-me que esticasse aquilo e assim fiz, demonstrando o modo como se produz alguma  literatura e jornalismo: originalmente a parte narrativa da história ocupava uma página mas facilmente enchi aquilo de  palha e agora diz-se o mesmo mas no dobro do tempo com o dobro das palavras.

Por fim há a minha história, que ainda não acabei e como  é normal vou acabar hoje, o último dia, assim que terminar  de escrever isto. Dei voltas e voltas à cabeça e nada, até que me decidi por uma abordagem mais, digamos, mecânica da coisa.

Sucede que há um método e organização estabelecidos na forma de quase todas as histórias, desde o Ulisses ao Hobbit , em síntese é assim:

– Uma introdução

– A apresentação do herói/personagem

-O surgimento do problema

– A dúvida sobre o modo de resolução do problema

-O auxílio exterior, humano ou sobre humano

-A superação de várias etapas

-O desafio final e a catarse

-A resolução e conclusão.

Dividindo a história nas suas partes constituintes e focando-nos no público para o qual escrevemos torna-se muito mais simples inventar e construir uma narrativa com pés e cabeça, e é desse modo que nestas horas que se seguem vou acabar de escrever a história da Rosa, uma moça da ilha que num belo dia de verão perde a cabeça por um marinheiro que lá passa e contra todos os conselhos e ordens acaba por fugir com ele.

A minha primeira ideia era a Rosa acabar por decidir ficar, acatar os conselhos dos pais e da sociedade em geral e encontrar a felicidade ali mesmo. Depois pensei noutra versão em que  a Rosa fugia  mas ia amargar muito e voltar à ilha de lição aprendida.  Perante os protestos veementes das minhas companheiras de representação afinal a Rosa vai ser muito feliz nas suas viagens e vai voltar à ilha com a satisfação  de ter visto o mundo e com a perspectiva que só a distância confere.

Isto numa história que se leia em cerca de cinco minutos e que o utente médio  do lar consiga acompanhar e apreciar sem dificuldade nem esforço,  reconhecer traços da sua ilha e, quem sabe, da sua juventude.

Uma das queixas que ouço mais vezes dos artistas de todas as artes tem a ver com a falta de público. Tenho uma sugestão para os artistas em construção: no nosso país há centenas de lares de terceira idade onde milhares de pessoas não só adorariam ver alguma forma, qualquer forma  de arte como seriam um público atento e agradecido, basta ir lá e propor uma apresentação. Eles têm o dia todo, todos os dias.       Músicos, escritores, pintores, actores, comediantes, têm à disposição todo este público que vos permitiria não só aperfeiçoar  o vosso ofício, experimentar coisas novas e praticar como vos daria a satisfação de fazer alguma coisinha pelos outros.

Ah, trabalhar à borla, queres tu dizer…Sim , quero dizer mesmo isso, primeiro porque a ideia que os artistas têm do valor do próprio trabalho em euros é sempre subjectiva e pode talvez não estar de acordo com a realidade; depois porque para um trabalho ser de qualidade deve ser treinado e treinado e treinado frente a um público vezes sem conta e por fim porque fazendo isso, indo de vez em quando  mostrar graciosamente a sua  arte a um lar de idosos, tornavam-se melhores artistas e melhores pessoas.

 

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