Início » Ilha das Flores » Reparações

Reparações

Ando numa fúria interior por causa do Sporting, vou só dizer que não gosto do estilo do Bruno de Carvalho mas espero bem que continue como presidente,  e vou antes escrever sobre máquinas de lavar.

Muitas pessoas acreditam que há uma variedade enorme de produtos que têm obsolescência incorporada, ou seja, são feitos para estarem ultrapassados ou avariarem em pouco tempo. Eu acredito nisso e faz sentido: se somos fabricantes de telemóveis, por exemplo, temos mais interesse em vender um telemóvel à mesma pessoa a cada dois anos do que vender-lhe um que dure 10, ou vender-lhe um automóvel a cada 3, convencendo-a por meio de publicidade que o seu, mesmo que esteja funcional, já não serve. É um dos problemas do capitalismo, que se não fosse alavancado por esta voragem do novo talvez nos tivesse trazido a um ponto diferente na História.

É uma coisa que me ocupa bastante tempo, tentar  fazer a “quadratura” entre os problemas por exemplo ambientais provocados pela necessidade criada de mudar de carro a cada 3 anos e telemóvel a cada 2 e os milhões de empregos e salários proporcionados pela produção desses mesmos carros e telemóveis. O balanço entre os agroquímicos que deitamos na terra e o mal que fazem e os aumentos enormes de produtividade que permitem alimentar biliões a preços comportáveis. Quanto é que vale o sofrimento dos macacos, ratos e demais animais de laboratório e os lucros absurdos das farmacêuticas posto ao lado do sofrimento humano que minoram? Onde está o equilíbrio entre os problemas da exploração e refinação do petróleo e a maravilha que é entrarmos num carro e irmos até onde queremos?

Enfim , questões sem resposta, mas pela minha parte não participo na dança e não  compro alguma coisa porque é moda, nem  deito fora coisas que funcionam , seja um telemóvel seja uma peça de roupa, só porque já há melhor. Não me sinto de algum modo diminuído nem que me falta alguma coisa por o meu carro ter 20 anos,  usar windows 7 de 2009 e calças quase até ao fio . Rio-me bastante quando vejo críticos ferozes do capitalismo que sem se darem conta estão completamente absorvidos no sistema e a sua principal objecção é que o capitalismo não lhes está a proporcionar a eles o nível de vida material a que acham que têm direito, ou alternativamente, que beneficiam de tudo e incomoda-os que os outros não possam beneficiar igualmente, o que é de uma hipocrisia considerável. Este sistema opressivo que destrói o planeta, escrevem no seu Mac enquanto partilham o dia a dia nas redes sociais, pesquisam novos cosméticos, usam o visual da moda e vão de uber para o starbucks discutir as problemáticas transgénero antes da sessão de cinema independente da meia noite. Não devia funcionar assim.

Mas estou a divagar, voltando ao tema, que são reparações, como é fácil de calcular as pessoas aqui, por escassez de comunicações com o exterior, isolamento, uma certa pobreza endémica e o próprio tamanho do mercado que não justifica muitas empresas especializadas, sempre se habituaram a esticar a duração das coisas ao máximo e a reparar tudo até ser mesmo impossível continuar. Apesar de hoje os rendimentos estarem em linha (creio eu) com os do continente e se poder encomendar toda a espécie de tralha  pela internet permanece algum  espírito de desenrasque e recuperação, de utilização do que há até ao fim. Já tive a sorte de experimentar isso pessoalmente, a última vez com o carro, numa avaria em que de certeza um mecânico no continente me tinha feito comprar uma peça nova completa, o meu mecânico aqui cheio de arte e engenho pegou nuns arames e num pedaço de plástico e poupou-me uns €300 e três semanas de carro parado à espera da peça.

Só pude comprar uma máquina de lavar roupa uns anos depois de cá morar, até lá dependia de vizinhos e amigos prestáveis e da enorme economia só atingida por gajos que vivem sozinhos e se estão nas tintas para a  avaliação que os outros fazem do grau de variedade e limpeza do seu vestuário. Foi um belo dia, e não me vou esquecer de ver o tipo da loja que ma vendeu quando ma veio entregar e instalar, a fazer os cerca de 50 metros da canada estreitinha de acesso a minha casa casualmente com a máquina ao ombro e um cigarro nos lábios.

Não mudou muito o meu ritmo de lavagem de roupa mas fiquei independente, e ainda por cima com a possibilidade de fazer o mesmo por um amigo se lhe avaria a máquina, ou de lavar umas máquinas a um conhecido que chegue aí num iate no Verão, já aconteceu. As máquinas de lavar roupa são daquelas coisas que as pessoas tomam por garantidas e já nem imaginam o que seria a sua vida sem uma, eu imagino e por isso gosto tanto da minha. Ao fim de três anos avariou.

IMG_20180206_114552

A máquina tem a sua própria casinha,  (essa planta é um cafeeiro, o sobrevivente de 20 pés de um palmo que trouxe do Porto da Lomba há 6 anos quando sonhava em ter uma plantação de café)  e por isso nunca a ouço a trabalhar. Carrego-a , ligo-a e passado umas horas ou na manhã seguinte vou estender a roupa. Por duas vezes a roupa estava ensopada quando abria a máquina, mas eu não me deixo incomodar por pormenores desses, estendia-a a secar a pensar que me tinha enganado num botão ou coisa do género. Isso seria difícil porque a máquina trabalha sempre no mesmo programa e temperatura, tudo é lavado da mesma maneira, mas  depois de secar uma terceira máquina e reparar que a roupa não cheirava lá muito bem é que me lembrei de depois de carregar no botão ficar a ver o processo. A máquina enchia-se de água, dava dois saltos e parava.

Liguei a um amigo electricista para cá vir e já estava a fazer contas à vida, peças, despesa, tempo sem máquina. Ele desmontou a tampa, olhou lá para dentro, pegou num secador de cabelo (acho que não é preciso dizer que não era meu)  passou 5 minutos com o secador apontado à placa electrónica e depois disso a máquina trabalhou como dantes.

Ninguém acredita que algum técnico de reparação de electrodomésticos numa cidade teria outra atitude além de diagnosticar avaria da placa electrónica e ou subsituí-la ou mandá-la para reparação, quiçá pronunciar  a máquina definitivamente avariada e recomendar a compra de uma nova.

A humidade é dos maiores problemas que temos aqui, para as casas, os aparelhos e as pessoas, e é uma guerra constante. Agora tenho uma lâmpada de aquecimento (que usava para os pintos) que montei em cima da máquina de lavar , abro a tampa e deixo-a lá quinze minutos a secar a parte electrónica antes de uma lavagem, e espero com isto estender a duração da máquina por muitos e bons anos.

Uma das coisas mais ridículas que já vi  e me convenceu de que as pessoas  em geral  pensam pouco e mal  e compram seja o que for que lhes souberem impingir foi há cerca de dois anos, um anúncio de uma máquina de lavar roupa com a revolucionária possibilidade de se abrir uma tampa inserida na tampa para juntar uma peça de roupa durante a lavagem. Para aquelas alturas em que a máquina já está a lavar mas chega a criancinha com a camisola que já vestiu uma vez (logo, imunda) e como certamente não tem outra nem pode esperar um dia ou dois, abre-se a tampa  da tampa e resolve-se esse problema.  Haver engenheiros a trabalhar neste tipo de merdas, marketeers a trabalhar para fazer crer que isto faz falta a alguém e consumidores dispostos a pagar mais centenas de euros pela possibilidade de juntar uma peça de roupa durante a lavagem é das coisas que me faz crer que este modelo não tem grande futuro.

Anúncios

Responder

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s