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O Fim do Mundo

Não tenho grandes dúvidas de que no dia em que tiver a minha microcervejaria pronta, instalada num edifício em conformidade com todas as normas da indústria tipo III e com todo o minucioso e extenso licenciamento em ordem, o Governo Regional vai legislar no sentido de reconhecer e facilitar a vida aos pequenos produtores de cerveja e isentá-los de exigências pouco justificáveis e  muito dispendiosas, como já se faz no continente.

Na mesma linha , não tenho grandes dúvidas que a acontecer um cataclismo global daqueles de parar tudo e rebentar com a sociedade tal como a conhecemos isso vai acontecer num dia  em que o Sporting esteja a liderar a tabela com 5 pontos de avanço a 2 jornadas do fim.

Quase desde que  comecei a ler  que conheço teorias , projecções  e premonições sobre o fim do mundo e  os cataclismos que nos esperam ao virar da esquina, lembro-me que um dos primeiros livros sérios que li foi  “Os Limites do Crescimento” , devia ter uns 12 anos e fiquei muito assustado e convencido de que se chegasse aos 30 ia ser num cenário miserável, estávamos condenados, os autores do livro defendiam  em 1972 que se estavam a atingir  os limites.

Desde os profetas esgadelhados aos berros pelos desertos do Médio Oriente  nos tempos bíblicos até aos alucinados que ainda hoje  fazem o mesmo nas ruas das grandes cidades, nunca houve falta de anúncios e avisos do Fim, sempre próximo. Tenho um vizinho um pouco distante que abriu um  Centro de Sabedoria Cósmica, de momento é só ele e a mulher na sua sala mas sem dúvida  que os discípulos se vão materializar, tem uma ligação  online permanente com um guru brasileiro que sabe e  pontifica sobre física quântica, metempsicose, ciência alienígena, enfim , fala  sobre tudo com um largo e cativante sorriso. Periodicamente o vizinho avisa via facebook , entre duas citações dúbias  do Leonardo Da Vinci e do Einstein  e três frases de sua autoria, que grandes mudanças estão para muito breve, aguardemos serenamente. Isto dura há 5 anos e já estive para lhe perguntar o que é que ele entende por breve mas  já aprendi a não me introduzir em debates assimétricos.

Creio que desde que o Homem tomou consciência de que vivia num planeta  num determinado espaço e tempo que começou logo a pensar como é que isto iria acabar.  Com o surgimento da internet e do facebook houve um  aumento exponencial dos malucos com possibilidades de espalhar a sua maluqueira e de bem intencionados com pouca noção da realidade e a possibilidade de chegar a milhares de influênciáveis, e  os fins do mundo têm-se sucedido com relativa frequência.

Na memória tenho dois, o da transição para o ano 2000 que muitos cretinos passaram ajoelhados a rezar e que apesar de o dia 1 de Janeiro de 2000 ter amanhecido tal como o anterior não puseram em causa as suas crenças, apenas avançaram a data, e o de 12/12/2012 , esse com mais influência do Calendário Maia. Os Maias eram um povo avançadíssimo que conseguia ver no calendário astronómico o fim dos tempos mas curiosamente hoje não há civilização Maia, já não havia em 2012,  o próprio  fim não lhes apareceu no calendário.

Já no ano passado apareceram-me vários avisos sérios de que a invasão alienígena estava iminente, era para Setembro. Não sei se repararam mas não aconteceu nada.  Um problema gravíssimo nestas coisas é que o número de visualizações ou visitas de um site ou vídeo converte-se em dinheiro, pelo que há milhares de pessoas não necessariamente ignorantes ou  crédulas que trabalham a inventar e propagar merda, porque é sabido que nasce um tanso a cada minuto e que se mandarmos a 100 pelo menos 10 acreditam, por mais descabelada que seja a proposição. Há milhões de americanos que acreditam que Deus fez Trump presidente , muitos serão pessoas que se riem dos emails do príncipe da Nigéria, demonstrando que há variadíssimos tipos de estúpido, cada um de sua maneira especial.

Voltando ao apocalipse, todos os dias é o fim do mundo para milhares de pessoas e ninguém lúcido concebe um “fim do mundo” como um boom em que isto vai tudo pelos ares e só se salvam os escolhidos, ou mesmo um em que não se salva ninguém. Creio que uma coisa dessas à escala do planeta só seria possível com um impacto de um asteróide enorme ou outro corpo celeste que chocasse contra  a Terra. Para aferir essa possibilidade felizmente hoje não consultamos a ancestral ciência Maia,  as Centúrias  ou o Livro das Revelações , temos entre outros a NASA e a AEE que observam o Cosmos e mais importante do que observar, têm uma noção sólida do que estão a ver e modo de fazer as contas ao que se vai passar a seguir.

Não sei se no caso de detectarem uma trajectória de colisão catastrófica iam preferir não dizer nada e que o Fim apanhasse toda a gente de surpresa ou se iam lançar o alarme e, consequentemente, o caos. Não perco muito tempo a pensar na possibilidade de aviso  porque havendo um asteróide a vir direito à Terra o resultado final é o mesmo, haja aviso ou não haja aviso. Se me perguntarem a preferência digo  que não avisem.

Pode não haver fim de tudo mas pode haver   uma variedade grande de catástrofes naturais ou humanas que causem um nível de destruição com consequências na vida de toda a gente. Por exemplo as Maldivas serem submergidas só afecta  quem lá vive, só é  grave  para eles, mas uma guerra nuclear entre a Coreia do Norte e os EUA já causaria milhões de mortos e teria consequências globais muito sérias.

Há hoje hipóteses que há 10 anos pareciam absurdas mas que  já se voltam a ponderar, como uma invasão Russa da Europa Ocidental (que até já foi bem ensaiada na Ucrânia) ou um conflito aberto entre o Irão e a Arábia Saudita (que hoje decorre  “por procuração” no Yemen mas isso pode bem mudar amanhã) e não há falta de pontos de choque e tensão com potencial de escalada. Para mim a probabilidade mais séria é a de colapsos económicos conduzirem a guerras: quando um governo se vê sem recursos , fragilizado e odiado pelos seus cidadãos existe sempre a tendência de culpar estrangeiros e de organizar distracções em forma de guerra. A Venezuela é um caso concreto, o Maduro nunca hesita em culpar estrangeiros pelos resultados desastrosos da sua governação, os vizinhos temem o caos e degradação social nas suas fronteiras  e já pelo menos desde o Verão passado que há operações e incursões militares na fronteira entre a Venezuela e a Colômbia. Depois de demonstrar  como se arruína o país com as maiores reservas de petróleo do mundo culpando sempre terceiros, o socialismo bolivarianista pode passar à fase  seguinte , lançar o país na guerra (fome e peste já conseguiram) . Outra  guerra na selva da América Latina não é de consequência global nem pode escalar para nuclear, tal como a subida de um metro do nível do Mar teria consequências graves para muitas cidades e regiões mas não determinaria o colapso das sociedades.

Um derrocada financeira como a que eu, com a minha costela de Cassandra, aguardo para os próximos anos trará dificuldades enormes, uma quebra literalmente brutal do nível e condições de vida de centenas de milhões de pessoas e a oportunidade para os que guardem o sentido de humor se rirem a pensar em como achavam que as coisas estavam terríveis em 2013. Poderá trazer um ou outro conflito e no limite a desintegração de estruturas tipo a União Europeia, mas a vida continuará. Não posso criticar o pessoal do fim está próximo por dizerem que está sempre próximo e depois dizer que espero uma crise económica  para um futuro próximo, deixo aqui o meu prognóstico, vem abaixo em 2019. Espero bem estar aqui em Dezembro de 2019 preso no pelourinho cibernético a levar com tomates podres e escárnio por me ter enganado, caso não me engane não vou estar porque nem vou ter internet .

Com estes pensamentos ia visualizando possíveis futuros da Humanidade, sempre cínico que chegue quanto a invasões de extraterrestres, descidas de entes divinos ou novos dilúvios, e  céptico quanto a quaisquer possíveis causas de caos e destruição geral  que não fossem já bem conhecidas. Leitura recomendada para quem gosta de pensar em como é que isto pode ir tudo com o cão, “Colapso”,(do mesmo autor de “Armas, Germes e Aço”) , um livro que explora histórias e possibilidades de, precisamente, colapso.

Uma noção que ouvia de vez em quando nestes catastrofismos era a “inversão dos pólos”, e com uma certa arrogância, como muitas delas saída da ignorância, pensava que era mais uma criação de esotéricos e proponentes do sobrenatural. Há um Pólo Norte e um Pólo Sul e a simples possibilidade de se inverterem parecia-me absurda, inconcebível.

Pois sucede que não só é uma possibilidade real como  já se deu várias vezes, e eu sabia  zero sobre magnetismo terrestre. Li este artigo que me apareceu por acaso e fiquei a saber quase o mesmo, mas agora sei que esse magnetismo é muito real e  influi em  quase tudo, desde a electricidade até ao crescimento de espécies animais. Às tantas vai-se a ver e existem mesmo auras e pessoas que as vêm  e eu além de cínico sou um bocado estúpido na minha própria categoria.

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Não estou a fazer conta de o ler o livro  mas nessa recensão e nesse artigo que referi levantam a questão das possíveis consequências da tal inversão dos pólos nos nossos dias : catastróficas, à falta de palavra mais forte. Não é preciso ter uma grande imaginação nem elasticidade mental para perceber que uma quebra global de tudo o que é eléctrico significaria o fim do mundo tal como o conhecemos. É das sugestões que faço mais vezes a pessoas urbanas que não se preocupam com emergências nem cenários difíceis: imaginem-se  numa  Lisboa onde não há electricidade durante 3 dias. É mais do que  o suficiente para  o caos. Se este inverter dos pólos se verificar entretanto  esse caos pode ser global.

É bom pensar nisso, é um exercício tão velho como  os Estóicos da Grécia  Antiga que defendiam e propunham a visualização negativa como exercício intelectual, não sei se ajudou muito  a Humanidade mas sei que ajudou os Estóicos em particular e que felizmente chegou até aos nossos dias, não tenho dúvidas que muito gurus contemporâneos falem disso como se acabassem de descobrir a ideia mas devêmo-la a Zenão de Cítio, 3 séculos antes de Cristo.  Se conseguirmos “ver” tudo o que pode correr mal e em que escala,  podemos não só apreciar melhor a situação presente como preparar-nos melhor para eventualidades.

Como se não bastasse o aquecimento global, a poluição, a acidificação e o subir do nível do mar, o derreter das calotes polares, o aumento dos fenómenos meteorológicos extremos,  a contaminação química, as guerras convencionais ou nucleares, as desigualdades galopantes, o Benfica, as epidemias, a corrupção, a estupidificação e o controlo das massas, o triunfo do Ter e Parecer sobre o Ser, a exaustão dos recursos, as ditaduras, a opressão política e as violências de toda a ordem, temos também a inversão dos pólos com que nos preocupar.

A parte mais difícil destes textos é quase sempre o último parágrafo, encontrar a nota adequada para fechar o raciocínio, mas há dias em não me sai nada e tem que se terminar com batotas como esta.

 

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