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O Ministério da Solidão

Spiritual-Loneliness

Vi a notícia de que o Reino Unido tinha criado o Ministério da Solidão e nem quis acreditar, pareceu-me um sketch de comédia mas é mesmo verdade. Fui confirmar  que os Conservadores continuavam no poder e não os Trabalhistas, que tendem sempre mais a pensar que todos os problemas e questões, sejam económicos sejam sociais, se resolvem com mais organismos estatais, e ainda fiquei mais confundido.

É mesmo  verdade, e a nova Ministra da Solidão é uma senhora que até agora era  Ministra do Desporto, vai acumular as pastas. Começo já por aí , os governos e políticos modernos são sempre polivalentes, de tal maneira que uma pessoa que foi escolhida para tutelar o Desporto é considerada uma escolha natural para se ocupar de um tema como a Solidão, o que o cidadão conclui disto e que a perícia e qualificação em causa é mesmo ser ministro, assim em geral,  se estamos bem ligados, sabemos fazer os barulhos certos e percebemos os meandros da administração pública podemos ser ministros de seja o que for.

Fui ver o CV  da nova  ministra e duas coisas me chamaram a atenção : a primeira é que realmente tem qualificações para Ministra do Desporto, tem o curso de treinadora de futebol e toda a gente sabe que esse é o desporto que interessa. A segunda é o que no fundo a qualifica para Ministra da Solidão, ou de seja o que for: da Universidade saiu para assessora no parlamento e por lá ficou, nunca fez mais nada na vida e por isso tem a experiência correspondente.

Andei a ver notícias e comentários sobre este novo ministério, o primeiro que me saiu foi, sem grande surpresa , um artigo a dizer que a culpa do aumento da solidão é do neoliberalismo. Não podia deixar de ser, todos os dias se confirma que tudo o que é negativo na sociedade contemporânea decorre daí, e por extensão, do capitalismo, ao passo que tudo o que é bom decorre da natureza humana. O artigo começa assim: Anyone who really knows what loneliness is knows it well: that permanent vague aching sensation in your chest …. Tretas!, digo eu que sei uma ou duas coisas sobre solidão, mas se o autor me ouvisse dizer isso ia logo dizer que a chave é “quem sabe verdadeiramente o que é solidão” e como eu acho que a maior parte do artigo são tretas deve ser porque eu não sei verdadeiramente o que é, ele sim.

Nunca deixo de estranhar a relutância em aceitar factos da vida e evoluções sociais sem ter que andar a correr à procura dos culpados, de algo ou alguém a quem apontar para dizer “estão a ver este problema? A culpa é destes gajos”, que faz as pessoas sentirem-se melhor e pensarem que compreendem. No futebol é a mesma coisa, e eu sofro disso às vezes porque o futebol é uma parte da minha vida onde não só aceito como cultivo a irracionalidade: para muita gente nunca perdemos um jogo porque calhou, porque correu mal, porque tivemos azar. Há sempre algo ou alguém a quem se pode culpar. Às vezes é verdade , outras não , mas todos conhecemos quem nunca aceite uma derrota do seu clube e consiga sempre apontar o momento X em que algo alheio ao jogo determinou o resultado.

O Homem evoluiu como animal gregário, tal como os resto dos primatas e outros bichos que ainda vivem em bandos, pela razão  muito simples de que as tarefas essenciais à reprodução da espécie necessitam de esforço de grupo, desde a procura de alimento ao cuidado das crias à defesa de intrusos. Tanto quanto percebo nenhuma espécie animal evoluiria se não fosse pelo menos a dada altura parte de um grupo, nem que fosse  um grupo de dois, o necessário à reprodução. Como  as tarefas da sobrevivência se tornam mais fáceis e produtivas em grupo, foi em  grupo que os primatas evoluíram no caminho para Homo Sapiens. A agricultura, a caça, o cuidado dos pequenos, a transmissão de conhecimentos, a protecção do grupo foi-se fazendo melhor quanto  maior e mais sólido era o grupo, estabeleceram-se hierarquias, organizou-se o trabalho, criaram-se  normas e religiões e em grupo o Homem espalhou-se pela Terra e dominou-a.

A Comunidade é a forma de organização e vida reconhecida como  natural e lógica e a Família a fracção constituinte dessa comunidade. Como isto durou dezenas de milhar de anos é lógico que quem não estivesse integrado num grupo fosse visto como uma anomalia e também é lógico que quem não procriasse fosse visto como não contribuindo com nada para o grupo. Participar nas tarefas colectivas e  procriar, durante milénios era este o sentido da vida. Para muita gente ainda é.

Sucede que as condições e  “regras do jogo” estão a mudar a um ritmo dramático e hoje , ao contrário de há poucas décadas, quem vive sozinho não está condenado nem a uma existência isolada e sub humana nem a ser um peso morto que não contribui com nada. Não só a tecnologia  permite uma vida próspera, produtiva  e preenchida fora de um grupo ou família como muitas pessoas, no número das quais se inclui este vosso criado, encontram satisfação e compensação  na solidão e estão  apetrechadas com  ferramentas espirituais e materiais inconcebíveis há, sei lá, 200 anos, que permitem fazer um cálculo custo-benefício, pôr num prato da balança os inconvenientes da solidão e no outro os inconvenientes de viver em grupo,  e  depois  tomar decisões conscientes.

Viver só não é muitas vezes questão de decisão, se  me perguntam “porque é que nunca te casaste?” eu não digo que decidi ficar solteiro, o que decidi foi, tendo em boa conta essa máxima maravilhosa que diz que mais vale só que mal acompanhado, aceitar sem dramas se a coisa nunca se proporcionasse e não fazer da busca  de um par a demanda de uma vida.

Cada vez há mais gente a viver sozinha e claro que cada vez há mais gente a sentir a solidão, e é por isso que a sociedade cada vez inventa mais coisas para lidar com isso. As redes sociais fervem de gente desesperadamente solitária que ali encontra ilusão de companhia e criticam-nas  por causa disso, mas há cem anos uma pessoa que vivesse sozinha e recebesse uma carta de um familiar ou amigo tinha ali uns minutos de companhia, era a mesma coisa, noutra escala. Vive-se sozinho mas há janelas sobre o mundo ao alcance de todos, formas de comunicação quase perfeitas e um sem número de modos de participar activamente e produtivamente na sociedade mesmo vivendo sozinho, e mais ainda, existem meios para que quem vive sozinho e quer deixar de o fazer possa conhecer e comunicar com literalmente milhões de pessoas nas mesmas circunstâncias e encontrar alguém, pelo que o indivíduo que vive sozinho não deve ser considerado anormal, um triste ou um doente, nem a solidão uma coisa necessariamente negativa. Será negativa para quem não suporta a própria companhia, não se conhece a si mesmo nem esta em paz consigo próprio, isso é outra questão diferente e pessoas assim terão sempre problemas mesmo que sempre acompanhadas.

O problema real e dramático não e a solidão em geral, são as pessoas idosas que se encontram completamente sozinhas no fim da vida sem nunca o terem escolhido nem desejado nem apreciado. A decadência física piora  tudo, vai retirando independência aos poucos e a situação agrava-se com o sentimento de abandono, tantas pessoas que deram tudo e viveram em função de famílias que depois não querem saber deles para nada. Muitos especialistas dizem que este problema é “culpa da sociedade”, eu digo que é culpa de individuos que são umas bestas, não é ” a sociedade” que faz um filho abandonar um pai.

Se é nessas pessoas, nos idosos abandonados, que o governo britânico está a pensar com o seu novo ministério, é positivo, mas ainda assim parece-me  ridícula a noção de que mais uma camada de burocracia estatal vai contribuir para minorar o problema. Não tenho dúvidas nenhumas de que o Reino Unido já possui serviços sociais em quantidade, poder e tamanho suficientes para se dedicar ao problema sem se criar outro ministério. Reforcem-se as redes de apoio domiciliário. Dêm-lhes animais de companhia e condições para os ter.  Melhorem-se e fiscalizem-se as condições dos lares de terceira idade e de outros apoios a idosos sós, não me lembro de muitas funções para o Estado mais importantes que zelar pelo bem estar dos que já deram tudo e merecem um fim digno e em paz.  Sejam criativos,  como os Holandeses, que sem ministério inventaram um sistema em que  estudantes residem à borla em lares de idosos, minorando as eternas dificuldades económicas dos estudantes e alegrando essas casas, dando companhia e movimento aos idosos. É preciso um ministério novo?

Se o governo do UK fosse Trabalhista não tenho dúvidas de que o Bloco ia exigir rapidamente um ministério novo em Portugal, que depois de criar umas dúzias de “lugares” , encomendar uns tantos “estudos” e torrar umas centenas de milhar ia propor mais ou menos o que eu proponho aqui, que de resto não tem nada de original. Como é uma medida dos Conservadores não vão pegar nisso, e ainda bem.

Daqui por 15 dias vou ao lar da Santa Casa aqui das Lajes participar com uns amigos numa sessão de histórias, está-se a trabalhar numa apresentação para alegrar um pouco a tarde daquelas pessoas. Não foi por sugestão da direcção nem de nenhum  ministério, foi por sugestão de indivíduos com compaixão que não precisam do Estado para lhes dizer o que fazer para minorar um problema que está à vista de todos. Entrei lá uma vez, não passei do àtrio   e até me engasguei com o cheiro, uma coisa incrível, nunca pensei, não sei se é o cheiro da morte em espera mas se não é  deve ser  parecido, e nunca mais pensei em lá entrar. Mas vou, aceitei o convite e vou participar pela mesma razão que tento sempre que guie as minhas interacções com os outros ao longo da vida:  faço como  gostava que me fizessem a mim.

 

 

 

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One thought on “O Ministério da Solidão

  1. Concordo contigo, mas o que gostei mesmo foi desta parte: Daqui por 15 dias vou ao lar da Santa Casa aqui das Lajes participar com uns amigos numa sessão de histórias, está-se a trabalhar numa apresentação para alegrar um pouco a tarde daquelas pessoas. Não foi por sugestão da direcção nem de nenhum ministério, foi por sugestão de indivíduos com compaixão que não precisam do Estado para lhes dizer o que fazer para minorar um problema que está à vista de todos. Entrei lá uma vez, não passei do àtrio e até me engasguei com o cheiro, uma coisa incrível, nunca pensei, não sei se é o cheiro da morte em espera mas se não é deve ser parecido, e nunca mais pensei em lá entrar. Mas vou, aceitei o convite e vou participar pela mesma razão que tento sempre que guie as minhas interacções com os outros ao longo da vida: faço como gostava que me fizessem a mim.
    abraço

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