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Uma Imigrante

-Temos uma imigrante nova – informou-me um amigo francês quando o visitei na semana passada – do Hawaii!

Fiquei  interessado e o interesse deve ter transparecido por que me disse logo a seguir:

-É lindíssima…mas acho que não te vais dar muito bem com ela, é muito….esotérica. Muito mesmo

E acompanhou com um gesto daqueles que significa “muito para lá, noutra dimensão”. Confiei na opinião dele, que conhece bem não só a mim como ao género de visitante /imigrante que dá aqui mais à costa. Em Alcobaça dizíamos que os vales atraem os loucos, devia mostrar aos meus amigos de lá a colecção que aqui existe, entendendo obviamente “louco” não no sentido de demente ou insano mas no sentido de original e  pouco convencional. De resto, acho que também faço parte da colecção e é claro que também tenho a minha pancada.

Fiquei com uma certa curiosidade , especialmente por causa do “lindíssima” , mas não pensei mais nisso com a certeza de que com as coisas correndo normalmente era inevitável conhecê-la entretanto. A ilha é pequena  e este género de “imigrantes”  movimenta-se  no mesmo círculo, que não é muito grande e ao qual  passo frequentemente umas tangentes e secantes, de tal maneira que um dos meus vizinhos , seis anos depois, ainda não está bem convencido de que sou português, sempre que me vê pergunta-me “how are you, ok?” , eu respondo sempre no português mais claro que consigo mas por alguma razão voltamos sempre ao mesmo.

Entretanto recebi um telefonema de outro amigo francês a perguntar-me se eu estava interessado em fazer-lhe uma tradução, eu respondi logo que sim, de vez em quando faço isso, de português para francês ou inglês ou vice versa. Até alguém me vir chatear e querer multar por não ser oficialmente tradutor ou não declarar às finanças ou não ser sindicalizado ou o raio que os abrase  vou continuar a fazer isso quando há oportunidade.

Esse amigo vive com a família no alto de um penhasco pouco acessível numa casa toda feita por ele, combinámos encontrar-nos noutra casa que eles têm numa freguesia e que compraram para arrendar no airbnb, que mesmo os hippies  reconhecem as ferramentas positivas do capitalismo e os espertos aproveitam-nas.

O alojamento local gerou mais de mil milhões de euros para Portugal no ano passado, e isso não conta o valor gerado pelas transacções imobiliárias e pelo sector da reconstrução e requalificação , eu todos os dias agradeço ao Costa e à geringonça o terem-se lembrado de aumentar o turismo desta maneira, incentivado as pessoas a recuperar e alugar as suas casas e o terem  criado o airbnb, deve-se a isso a retoma, a par com a criação massiva de empregos públicos. Só na semana passada aqui nas Lajes a câmara municipal contratou mais 8, acho que já só falto eu, ninguém dava por falta de mão de obra nos serviços camarários mas não nos podemos ater a esses detalhes, o que é certo é que as pessoas não tinham emprego, agora têm e depois logo se vê.

Bom , lá fui  ter à tal casa como combinado e quem me abre a porta é nada menos que a nova imigrante, estaquei no lugar onde estava porque a descrição  confirmava-se. Tem dois miúdos pequenos, de cores diferentes, vivaços, sorridentes e andrajosos como é clássico,  e o porte, vestes e  expressão de uma sacerdotisa de um culto, adereços e tudo. Ofereceu-me um café enquanto eu esperava pelo meu amigo,  como estive no Hawaii há pouco tempo tinha algum assunto além desta  ilha, mas obviamente ela queria falar mais deste arquipélago e da ilha do que do Hawaii.

Tinha vindo aqui quase por engano, a objectivo da viagem era  S.Miguel, onde tinha ido à procura dos seus ascendentes que tinham ido dos Açores para o Hawaii nos famosos barcos dos ananases, quando no século XIX muitos trabalhadores açoreanos emigraram para lá para trabalhar na cultura do ananás, que conheciam cá e começava lá. Tinha crescido a pensar que os “pineapple boats” eram uma lenda e ficou fascinada quando viu os ananases em S.Miguel e percebeu que era mesmo tudo real. Conheceu lá uma alemã que vive cá ( que eu conheço e à qual ela se referiu como uma deusa e que eu considero uma cabeça de vento) que lhe disse que tinha era que vir para aqui, e cá está. Diz que sentiu logo a aura desta ilha, eu de costume dou pouco por auras mas olhei bem para ela e começou a tornar-se aparente que a racionalidade é uma coisa muito sobrevalorizada  neste mundo e que é muito provável que existam muitas realidades para lá da compreensão filosófica e científica tradicional.

Quanto mais olhava para ela mais achava que este mundo está demasiado cheio de cinismo, que devíamos reconhecer e respeitar capacidades  mais elevadas do que o intelecto humano, que a Terra fala connosco e assim. Nem sequer fiz a minha piadinha do costume quando me perguntam o signo:

-Sou signo Dinossauro  (às vezes digo signo Tremoço)

-Isso não existe!

-Os outros também não…

Ou outra de que também gosto bastante e funciona muita vez:

-De que signo és?

-Aquário

-Bem me parecia, eu vi logo…

-Não, sou Caranguejo.

Falámos da ilha, um tema em que quando discuto com recém chegados  oscilo entre “não conheço no mundo sítio tão bonito como este” e “os invernos aqui podem ser horríveis, as pessoas são difíceis e em geral nada é muito fácil”.

Entretanto chegou o meu amigo com os papéis que quer que eu traduza. Pensava que era alguma coisa ligada ao turismo ou aos  impostos mas o que se passou foi que no dia a seguir à sua festa de anos (que me mereceu um post inteiro aqui em Novembro) ia morrendo, ficou dois dias quase sem se mexer e quando emergiu desse estado teve uma espécie de epifania , decidiu deixar de beber e de fumar e pôs em 9 folhas A4 escritas à mão dos dois lados as suas considerações filosóficas sobre a vida contemporânea e os conselhos que acha que tem para dar a toda a gente. É esse tratado que eu vou agora traduzir, e até sou capaz de pôr aqui partes que ache interessantes porque ele quer aquilo traduzido em português e inglês  precisamente para poder ser distribuído por muita gente. Estou com uma certa curiosidade e não digo estas coisas com nenhum paternalismo ou condescendência, gosto dele , admiro muitas das suas características e tenho-o por um tipo inteligente, tem a tal pancada mas todos temos a nossa.

Despedi-me da sacerdotiza da aura que me olhou com uns olhos que  parecia que me queria perceber  de uma só vez e voltei para casa. Já hoje me cruzei com ela na estrada, ia a empurrar um carrinho com os miúdos mas não me parecia nada serena nem contente, o dia esteve mau e é sabido que o tempo agreste agrava qualquer dúvida ou problema. A ilha é pequena, a “comunidade” mais pequena é pelo que sei que a vou ver por aí outra vez, sei que o Universo tem um plano e tudo aparece por alguma razão no devido tempo.

Estou a brincar , não há planos nenhuns excepto os que nós fazemos, e eu só planeio ser simpático e cortês para ela (como sou para o resto das pessoas que são simpáticas para mim)  quando nos encontrarmos outra vez por acaso, isto no caso da atracção da aura sobreviver a Fevereiro, um mês que para quem não está habituado nem conhece isto, não tem amigos , é estrangeiro, “original”  e vive sozinho com duas crianças pequenas numa casa muito modesta e limitada num sítio como a Lomba,  pode ser brutal. Brutal no sentido literal da palavra.

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