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Que não separe o Homem…

…o que um ritual cultural uniu, excepto em casos julgados meritórios por pessoas que nunca foram  casadas  mas que sabem tudo sobre o casamento e mediante o pagamento de determinada quantia.

Fiz um esforço de memória e concluí que dos 9 casamentos aos quais fui nos últimos 20 anos só 2 permanecem “em vigor”, o resto acabou, apesar das juras , votos e bênçãos. Durante décadas a Igreja católica defendia  que o divórcio era uma coisa demoníaca, um pecado, intolerável., de tal maneira que um católico que se divorciasse era na prática excomungado, porque para eles fazia  sentido  as uniões serem eternas mesmo que o casal acabasse a odiar-se e a fazer-se mutuamente  a vida num inferno. Faz parte daquela noção de que o sofrimento é bom, a Deus  “oferecem-se  sacrifícios”, e não estou a falar dos Maias ou dos Hindus, estou a lembrar-me por exemplo do que me diziam na catequese, sofrer e sacrificar-me agrada a Deus, na altura isso não me levantou problema nenhum porque tinha 9 anos, mas chegada a idade da Razão e com o desenvolvimento da faculdade do raciocínio comecei a estranhar porque razão  o Deus do amor gostaria de ver os seus filhos sofrer. A resposta para isto, claro está, é que as vias do Senhor são misteriosas e fora da compreensão do Homem, excepto dos homens (mulheres não) que sentem a vocação e por isso se tornam os representantes de Cristo na Terra, para esses as vias são conhecidas,  esses sabem sempre o que é que agrada e desagrada ao Senhor, nunca se coibindo de nos explicar como viver e o que fazer. “Explicar” é uma forma de expressão.

Durante milénios os clérigos cristãos aterrorizaram as populações com o Inferno. Se não fizerem a vontade de Deus como nós a explicamos, vão arder para sempre nas fornalhas do demo. Isto foi parte integrante e fundamental do cristianismo e deriva do facto de se ter percebido cedo que a promessa de vida após a morte não era o suficiente para motivar e controlar as pessoas, além da promessa de algo improvável era necessária uma ameaça, e assim se inventou o Inferno, que ainda estava de boa saúde e era anunciado nos púlpitos do mundo há muito pouco tempo, até que o último Papa veio dizer, por outras palavras, que era uma aldrabice milenar, uma criação humana para pôr as pessoas na ordem,  que devíamos deixar de pensar no Inferno.

Não tenho dúvidas de que milhares de católicos pensantes disseram nessa altura “espera lá , então isto é assim? Tanta Verdade, tanta certeza, tanta infalibilidade e de um ano para o outro elimina-se um dos pilares da doutrina e segue tudo como dantes?“.  Alguns terão migrado para seitas e cultos cristãos que não reconhecem o Papa e se sentem mais confortáveis com o fundamentalismo, outros acharam que já chegava de hipocrisia e inconsistência e abandonaram a prática, outros ainda , a maioria, suponho, encolheram os ombros e continuaram como se nada fosse, fazendo de conta que uma revolução  doutrinária dessa envergadura não tinha consequências. Era uma actualização, porque mesmo que nos digam que “esta e só esta é a Verdade” nada impede  que as mesmas pessoas passado uns tempos digam “afinal esta é que é a Verdade”. Confunde-me bastante.

O casamento era uma das instituições  sagradas da igreja, tão sagrada que até é inadmissível uma união entre pessoas do mesmo sexo. A realidade era diferente, as pessoas juntam-se e separam-se sem que o Todo Poderoso tenha alguma coisa a ver com isso e apesar da invocação “que não separe o Homem…” , o  Homem separa constantemente. E quando não é o Homem a separar são os próprios representantes de Deus, desde que o actual Papa agilizou os procedimentos que o número de pedidos para acabar com as sagradas uniões duplicou em Portugal e o próprio clero pode declarar nulo e separar o que Deus uniu, é interessante.

Eu sou um bocado literalista  e tinha a impressão que  “sagrado” significa inviolável , com qualidades superiores e merecedor de respeito absoluto. Afinal não, pelos vistos até para a Igreja o que é sagrado hoje pode deixar de o ser  amanhã , mediante um processo administrativo e o pagamento de uns meros 1500€. Até faz algum sentido, vem na tradição iniciada com a santa prática das indulgências, em que num dia estávamos condenados ao tal inferno mas no próximo, se pudéssemos pagar, ficávamos outra vez puros e redimidos. Podem-me apontar que os 1500€ são para cobrir despesas burocráticas, não é só pagar e seguir como era com as indulgências. É verdade, mas isso não altera o fundamental: há maneira de dar a volta ao Sagrado, o que já se sabia na prática mas ainda não estava confirmado na doutrina.

Lamento muito por todas as pessoas que viveram vidas miseráveis presas a uniões nocivas só porque era ilegal separarem-se; sinto por todos os que, não suportando mais as tais uniões, se separaram mesmo e sofreram o ostracismo de uma  igreja à qual queriam continuar a pertencer. Para todas essas pessoas esta última “inovação” deve ser bastante amarga.

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