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Países de Merda

Já estive em países de merda, assim à cabeça da lista ocorre-me o Haiti e há mais uns quantos que eu considero nessa categoria mesmo sem nunca lá ter estado, tipo a Eritreia, a Moldávia ou a Arábia Saudita. Já ouvi várias vezes portugueses e estrangeiros chamarem a Portugal um país de merda, eu não partilho da opinião mas consigo perceber como é possível chegar a essa conclusão. Não me chocam essas considerações e se alguém se chocar com as minhas isso é-me  indiferente,  porque pessoas privadas podem exprimir as opiniões que quiserem, a menos que vivam num país sem liberdade de expressão, logo por isso candidato à categoria “de merda”. São meras opiniões.

Se somos uma pessoa com responsabilidades políticas ja não é bem assim, tem que haver um filtro e têm que ser observadas determinadas convenções. Um político, seja presidente de uma junta seja de uma nação, não pode dizer o que lhe vem à cabeça, tem que ter consciência da diferença entre a sua posição enquanto cidadão privado e enquanto representante eleito. Para ter essa consciência é preciso que tenha uma logo de início, e algum discernimento, coisas que faltam ao actual presidente dos EUA, que anteontem se interrogava em público porque é que “tinham  tantos imigrantes de países de merda e tão poucos de países como a Noruega”.

É natural que o cidadão Donald ache que países pobres e de gente escura sejam países de merda, mas referir-se publicamente a eles como tal, enquanto presidente, só mostra a quem ainda não tinha reparado que além de racista o homem é estúpido. De resto, qualquer pessoa que sinta necessidade de vir publicamente assegurar que é muito inteligente, um génio mesmo, deixa bem expostas as suas limitações e inseguranças. Nesta historieta dos “países de merda” , o  fait divers trumpiano do dia , o que é mais engraçado é que logo a seguir a essas declarações os fãs da criatura regozijaram-se por finalmente haver alguém que não tem medo de dizer o que pensa, e que pensa como tanta “gente normal”. No dia seguinte e como de costume o Trump veio negar que alguma vez tenha usado a expressão, ou seja, ele não disse aquilo para agradar à sua base nem para mostrar que tem o toque comum e que diz o que os outros têm medo de dizer. Saiu-lhe, disse-o sem pensar, porque é limitado nesse campo, e depois teve vergonha e negou o que disse, desiludindo a base que no dia anterior lhe louvava a coragem e a frontalidade para depois o ver  a pedalar para trás, expondo bem a dimensão da tal coragem e frontalidade.

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Já disse várias vezes que o que me incomoda mais no Trump não são as as suas políticas, concedendo que ele sabe o que é uma política e tem uma própria. Posso não concordar com elas, é diferente de as considerar   ilegítimas. O que me incomoda mesmo, além do egocentrismo desmedido, da  ignorância  e do vocabulário de adolescente, é esta estupidez constante e a disposição para ofender vinda de quem não sabe medir as consequências do que diz e passa a vida atolado em mentiras.

Quanto à dissecação que se anda a fazer da expressão “países de merda”, ou  “shitholes” , é sintomática dos tempos: como toda a gente vê e sabe o que toda a gente anda a dizer, toda a gente se policía e controla o discurso, não só  o próprio como o alheio. Que se faça isso a presidentes, é fundamental. Que se chateiem cidadãos particulares por acharem que certos países são  países de merda, é ridículo. Há quem ache que o politicamente correcto é um avanço civilizacional porque faz com se evite ofender sensiblidades ou pessoas, eu acho que  querer um mundo em que ninguem ofende ninguém é querer um mundo artificial de pessoas auto reprimidas e condicionadas pelos comités que explicam às massas o que se pode dizer e o que não se pode dizer. Pela parte que me toca, e como não represento nada nem ninguém, se eventualmente ofender  X,  tem que ser X a sentir-se ofendido e a pedir satisfações, se for Y a vir pedi-las em nome de X vai-se embora de mãos a abanar, que esta questão das ofensas não funciona por procuração nem interposta pessoa.

 

O PSD vai hoje a votos para escolher o novo líder. Não vi nenhum debate nem andei a ler programas de um ou de outro,  faço conta de nunca mais votar no PSD, mas tenho a minha preferência, que é Santana Lopes. Isto apenas porque Rio já disse que por ele avançava um Bloco Central , coligava-se com o PS. A haver um governo do PS em  coligação prefiro mil vezes que seja com a extrema esquerda, e isto tem uma razão muito simples: com o Bloco e o PCP na oposição a vida é um inferno de protestos, greves, agitação, imprensa histérica, manifestações e “agitação social”. De luta. Como se vê  desde que a geringonça pegou nisto, estando os comunistas e trotskystas no poder ou perto dele o país acalma logo, os jornalistas são muito mais comedidos, as histórias negativas são contextualizadas,  dá-se tudo aos sindicatos para não haver greves e não há manifs e protestos a encravar a vida ao cidadão. Exemplo concreto, neste Inverno em  15 dias morreram 600 pessoas devido ao frio e à gripe. Há 3 anos teríamos actrizes da política a bradar que a austeridade mata e que o governo tem que cair , hoje se alguém do BE ou PC falar sobre isto será para lamentar e exigir que se tomem mais medidas. Os combustíveis vão voltar a subir para os maximos de 2015, a diferença é que nessa altura eram os neoliberais a destruir o tecido produtivo e a sufocar o cidadão para dar lucros às petrolíferas , hoje é a vida, estamos dependentes das flutuações dos mercados e tal. Em 2014 emigraram de Portugal 134000 pessoas, era o desespero , o drama, o desânimo e a revolta. O ano passado emigraram 97000, é um movimento migratório natural e até tem vantagens em termos de remessas.

Porque prezo muito paz e sossego e abomino histerias e exageros prefiro ver a extrema esquerda a comer à mesa do orçamento com os seus princípios em banho maria e a votar a favor apesar de serem contra, do que ver um governo PS/PSD a brigar pelos despojos do Estado com os comunistas a agitar nas margens, para mim o pior dos cenários. Se o PSD tem alguma veleidade de voltar ao poder devia assumir-se como partido de centro direita, como adversário do PS e que rejeita coligações à esquerda, mas  o mais provável é escolherem Rio, que propõe o caminho mais curto para o poder. Muitos milhares que já votaram PSD, como eu, estão satisfeitos por finalmente haver uma alternativa para  quem não defende o socialismo, o estatismo e os arranjos dos que nos governam desde o fim da ditadura: a  Iniciativa Liberal, , uma hipótese de renovação.Espero que na transição de iniciativa cidadã para partido parlamentar não desiludam.

 

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