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Em trânsito

Já não saía do arquipélago há um ano e sinceramente a vontade de sair não era grande, mas há que fazer um esforço porque um dia vão-me faltar os meus pais e vou ficar  a pensar “quem me dera poder ir vistá-los agora…” . O esforço é mais por causa da bicharada, para as ovelhas e galinhas é igual mas o cão e o gato ficam desorientados e tristes, não estou a inventar que o cão fica triste, os vizinhos ouvem-no a uivar à noite, e são vizinhos não muito próximos. Já o gato tem reacções mais discretas mas também tem os seus hábitos e não há-de ficar satisfeito.

Das Flores a Lisboa implica sempre reservar um dia inteiro para viajar, saio de manhã das Lajes e chego a Lisboa noite cerrada depois de escalas na Horta e Ponta Delgada. A (única) cafetaria do aeroporto das Flores além de ser estritamente vegetariana agora apresenta em todas as mesas um exemplar de um jornal chamado MAPA. Nunca tinha ouvido falar, é um jornal auto designado de informação crítica, cheio de artigos sobre a opressão capitalista. Aliás, vendo bem todos os artigos são sobre a opressão capitalista, desde a luta contra a opressão que impede os okupas de se instalarem em propriedades que não lhes pertencem até às empresas que têm a veleidade de querer explorar minérios no fundo do mar passando por esse problema mundial grave que é a existência de fronteiras.

Diz lá no jornal que o bar do aeroporto é o único ponto de venda nos Açores, mas dado que há um exemplar em cada mesa quer-me parecer que é mais ponto de distribuição gratuito, mostra o activismo dos concessionários do bar. São um casal, ela é venezuelana, gostava de lhe perguntar que tal acha que vai a revolução popular no seu país e porque é que não está lá, já que lá luta-se a sério contra o capitalismo e constrói-se uma alternativa de futuro. É um governo que não consegue que haja papel higiénico nas lojas mas que  vai lançar uma moeda electrónica. O rapaz é americano , e a ele gostava de lhe  perguntar o que acha da contribuição do capitalismo do seu país que lhe permitiu juntar o guito necessário para se instalar nas Flores e explorar um bar. É sempre a velha história, o capitalismo é horrível excepto na parte que nos beneficia a todos, esqueçamos essa, foquemo-nos no que é mau e louvemos a utopia.

Um dia quando tiver dinheiro hei-de ir de avião ao Corvo, é o voo mais curto do país e creio que um dos mais curtos do mundo, o avião nem chega a ganhar altitude ou estabilizar, mal levanta começa logo a baixar.Dado que a passagem de barco custa 25€ e o voo uns €70 é uma excentricidade, mas um dia faço isso. Para o voo desta manhã havia um passageiro, que curiosamente não pode embarcar porque havia um problema com um artigo na bagagem. Quase toda a gente lá conhecia o rapaz, trabalha nas obras de expansão do porto mas esqueceu-se lá de um material qualquer proibido, veio a PSP e tudo e o moço ficou atrás.Regras são regras, é incrível.

Depois da hora de atraso habitual lá levantámos, 45 minutos de voo, escala de 25m na Horta e depois direitos a Ponta Delgada, cujo aeroporto está movimentadíssimo, comparado com aqui há 5 ou 6 anos. Fui beber um café com um amigo que trabalha na ANA e a notícia que andava na boca de toda a gente era que o concelho de administração da SATA se demitiu em bloco esta manhã. Há problemas sérios, os sindicatos estão a ajudar a resolvê-los convocando greves para o Natal e a SATA tem um buraco financeiro que mais parece uma cratera. Agravou-se quando o Banif rebentou e passou ao Santander. Uma das razões pelas quais o Banif estoirou foi que era mealheiro da administração pública, quem tivesse os contactos certos e ligasse do departamento certo tinha sempre crédito, sobretudo o governo, que nesta região se confunde com o PS. Certamente que esse uso liberal dos fundos  não teve nada a ver com a falência do Banif mas o que é certo é que os gestores do Santander não acharam muita graça ao processo e fecharam a torneira. Ora a SATA opera em permanente prejuízo, apesar de pagar e dar regalias como poucas empresas privadas e estas coisas podem aguentar-se uns anos bons mas forçosamente chegam a um limite.

Parece que foi agora, o CFO da empresa demitiu-se, provavelmente ao ver que não havia dinheiro para as despesas deste mês, e os outros decidiram ir também. Ainda não vejo nada nos jornais mas estas notícias  não me chegam de um nível nada baixo na ANA pelo que acredito nelas.Também acredito quando me dizem que já se fala na opção Francisco César , acredito e acho graça, para quem não sabe o Francisco César é filho do Carlos César e a piada faz-se sozinha.

Se esta administração não for convencida a recuar na decisão espero que a próxima tenha mais cuidado e rigor com o dinheiro público e que ponha isto na ordem, porque se esta região rebenta pelas costuras de organismos estatais de utilidade e eficiência dúbia a SATA não é um deles, se há empresa crucial nos Açores é  ela.

Isso tem sido mau na medida em que gestores e sindicalistas sabem que o accionista mor nunca  a pode deixar cair, podem fazer quase como quiserem que o contribuinte assina sempre o cheque. É o que se vai passar desta vez, e descansem que mesmo se as notícias desta convulsão não chegarem à imprensa isso não significa que não vai haver mais um camião de dinheiro para a SATA.  Pela minha parte esses fundos deviam vir com uma obrigação: acabavam de uma vez por todas com as rotas tipo escandinávia e Cabo Verde e limitavam-se a fazer o serviço público : ligar as ilhas entre elas, com o Continente e com as Comunidades Açorianas mais importantes. Para o resto não temos falta de escolha no sector privado.

Já vi mais pessoas esta tarde do que nos últimos 3  meses e ainda nem cheguei a Lisboa, estou a ficar cada vez pior. Deixo este videozinho de dois minutos e meio, mostra animais a ajudar outros animais, é fabuloso e faz-me sempre pensar na necessidade de um poder e lei superior para se ser bom e mostra-me  bem porque é que prefiro passar mais tempo com bichos do que com gente.

Boas Festas , um Santo e Feliz Natal e  juntava mais votos se soubesse o que é que irrita mais a rapaziada do politicamente correcto e da modernidade linguística nesta altura.Um santo Natal é das melhores para o efeito, vou andar a desejar isso a toda gente este ano.

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