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Natal Lagarto

Um dos últimos comentários  jocosos que ouvi depois da eliminação do Benfica na Taça de Portugal foi “agora já sabemos como os sportinguistas se sentem no Natal”.  A boca vem de demasiados anos em que o Sporting, chegado a Dezembro, já estava afastado da maior parte das competições, senão de todas.  A expressão pegou de estaca mas  este ano , em que o Sporting lidera as tabelas no futebol, futebol feminino, futsal, hóquei a andebol e se mantém com possibilidades de vencer todas as competições, os benfiquistas recorrem a outro género de bocas, como essa.  A questão é que não é verdade, os benfiquistas foram  humilhados na Liga dos Campeões, eliminados da Taça de Portugal e não estão a jogar nada em Dezembro mas não sabem, nem nunca saberão, como se sentiam os sportinguistas em natais passados, por uma razão muito simples: os sportinguistas , além de desiludidos, sentiam-se roubados.

Existem várias diferenças importantes entre os  clubes, uma salta à vista neste facto : Jorge Gonçalves ganhou a presidência do clube, esteve lá cerca de 8 meses até ser corrido depois de se perceber que era um trafulha. Vale e Azevedo  ganhou a presidência do clube depois de ter sido expulso da Ordem dos Advogados por  falta de idoneidade moral e foi presidente 3 anos. Isto  indica um nível muito maior de tolerância a escroques e não me esqueço nunca de que numa altura em que se denunciava e combatia o arqui-corrupto Pinto da Costa, Vale e Azevedo se apresentava como “o Pinto da Costa Vermelho”, ou seja, ele não queria acabar com a corrupção, queria fazê-la trabalhar para a glória do seu clube. Com isto foi levado em ombros na Luz, são coisas destas que mostram que aquela conversa do “são todos iguais”  não vale.

Tal como tolerou e aplaudiu  Vale e Azevedo , a nação benfiquista acolheu, aclamou e deu carta branca a Luís Filipe Vieira, um indivíduo que já tinha passado pelo Alverca FC e cuja herança está patente na situação desse clube  hoje em dia (joga nas distritais) , que era sócio dos 3 grandes ( expliquem-me uma razão válida para isto) , que apresentava no CV uma condenação na justiça por roubo de um camião e que acumulou uma dívida de cerca de 400 milhões ao BPN, logo, ao contribuinte. Pareceu-lhes uma pessoa idónea e talhada para comandar o glorioso, e as vitórias apareceram.

A partir de uma certa altura a coisa começou a cheirar muito mal, tornava-se claro que havia demasiadas coincidências nas escolhas dos árbitros, nas decisões dos mesmos, nos castigos, nas convocatórias das Selecções, nas noticias da imprensa. O que para alguns eram coincidências inocentes para outros eram indícios de que o poder do Benfica ia muito para lá do futebol jogado por 11 em 90 minutos e que se fazia muita coisa no limite , ou mesmo para lá da Lei.

O caso dos vouchers é paradigmático: o Sporting queixava-se das prendas dadas pelo Benfica aos árbitros. Primeiro o Benfica dizia que não dava prendas nenhumas; depois admitiu que dava mas que eram irrelevantes; depois admitiu que eram significativas mas que não suficientes para influenciar os árbitros, e  por fim comprometeu-se a dar vouchers mais pequenos.  A PJ descobriu uma rede de tráfico de cocaína cujo ponto de venda era a porta 18 do Estádio da Luz, não aconteceu nada (ainda) porque se quer fazer crer que isso se podia passar sem que ninguém de responsabilidade no clube soubesse de alguma coisa. Depois há as claques,  como nos outros clubes mas  lá são ilegais, dado que não se registam nem o Estado cumpre a lei que as obriga a registar-se. Mais uma vez diz-se que são todas iguais mas  há pelo menos uma diferença, as do Benfica, além de ilegais,  já vão em dois assassínios.  O presidente diz que não sabia que o clube tinha claques, é talvez o único no país que não sabe. Também está registada uma sua frase lapidar que num país decente lhe teria valido o afastamento do futebol: “não é preciso ter os melhores jogadores se tivermos as pessoas certas nos lugares certos”.  Não acontece nada.  A PJ  investiga outros indícios de corrupção e quer fazer buscas no estádio, um  juiz não permite, bloqueia a investigação. Também esse juiz sente a chama imensa, é Águia de Ouro e a ideia de ver a PJ a devassar a Catedral é-lhe dolorosa demais. Para salvaguardar aparências, dá-se aviso e tempo suficiente para que o clube sanitize e organize os arquivos, e então lá vai a PJ. Lindo. Deputados, ministros , secretários de estado, directores gerais, centenas de funcionários como esses que nunca permitiriam nada na sua esfera que pudesse prejudicar o seu clube garantem a segurança. Enquanto  tudo isto se passa os benfiquistas atiram-nos os 15 anos sem ganhar o campeonato, aldrabam o número de títulos próprios e a data da fundação e mandam-nos jogar à bola.

A equipa era forte, construída com as ligações de Jorge Mendes, o super empresário que criou um esquema brilhante para inflacionar os preços e as cotações dos seus jogadores circulando-os entre os “seus” clubes , ganhando milhões de cada vez que há mudança. Exemplo claríssimo, o  Renato Sanches, que fez uma época boa, foi elevado a craque e estrela pela imprensa para lá de tudo o que seria razoável, a sua convocatória foi imposta na selecção, foi impingido ao Bayern pelo Mendes por uma verba astronómica e  hoje está a ser um flop total …  no Swansea. Mas tinham outros grandes jogadores, e com a protecção dos árbitros, cooperação da imprensa e silêncio das instituições , o clube sagrou-se tetracampeão de futebol.

Entretanto os negócios geniais e a “gestão 10 anos à frente dos outros” começa a mostrar algumas falhas, por exemplo gastam quase 5 milhões para “roubar” o Carrilho ao Sporting, um favor que nos fizeram, e vendem a maior parte dos craques . A equipa este ano ressente-se , desentende-se e começa a perder jogo atrás de jogo.

E  rebenta o escândalo dos emails, na medida em que pode rebentar um escândalo que a imprensa não quer ver exposto. Alguém roubou uma tonelada de emails do Benfica, entre funcionários e dirigentes, e o que se lê  é de vomitar. Mês após mês são claras  nessas trocas de emails as manobras e acções de altos funcionários e dirigentes do Benfica para corromper e influenciar as competições. Escolhem  os árbitros que querem para os jogos que querem; controlam a carreira dos mesmos arbitros, acumulam informação, muitas vezes de cariz mais do que privado, sobre os intervenientes no jogo desde o arbitro aos operadores de câmara; controlam as convocatórias das selecções, alimentam a comunicação social com as narrativas que escolhem; discutem fugas ao fisco e organizam corrupções e chantagens que metem de tudo o que é sórdido no mundo.

A primeira reacção do Benfica foi dizer que os emails eram falsos. Passado algum tempo, quando se viu que se tratava  de mais de 6gb de dados, começaram a dizer que “não havia ali nada”, que afinal eram verdadeiros mas não eram importantes, não havia lá nada de substancial. Ontem ameaçaram com processos judiciais a quem quer que toque naquilo, ou sejam admitem que são verdadeiros e são importantes. Tudo normal.

Começa a haver contestação interna, mas não se pense que é por estarem escandalizados com a corrupção, a contestação só começa agora porque não se vêm resultados positivos. Estivesse a equipa no topo da tabela e ainda em todas as competições e em vez de ouvirmos “espero que se investigue isso tudo, é uma vergonha para o meu clube” ouviríamos “é só azia, joguem mas é à bola”.

Os mais sensatos, cujo amor ao clube levou a nem quererem acreditar quando já tudo indicava que sim, estão agora preocupados e em silêncio. Depois de anos a mandar bocas  agora dizem “eh pá eu nem quero falar nisso, o futebol está um nojo”. Já está há muitos anos, mas quando éramos nós a dizê-lo éramos invejosos e tínhamos mau perder.

Os mais malucos continuam a negar , confundir, fugir para a frente e recorrer a argumentos tremendos como “vocês não ganham nada, essa é que é a verdade”. Se tudo o que está indiciado nestes anos todos, entre vouchers, fuga ao fisco, trafico de droga, corrupção e tráfico de influências, fosse levado  perante um juiz que detestasse futebol, aposto que dava para mandar o clube para a segunda divisão, prender 3 ou 4 e irradiar do futebol mas 6 ou 7. Como sou dos que acredita que a justiça tarda e muitas vezes falha não espero nada disto, a minha consolação é magra e é só uma : deixaram de poder negar a corrupção que praticaram e que lhes deu tantas vitórias, e a nós tantas amarguras, ao menos isso é certo.

Temos no Sporting um presidente que é odiado por muitos, o que não é mau, ele não está lá para agradar ao máximo de pessoas, está lá para agradar aos sócios e está a fazê-lo. As contas do clube são transparentes, em dia, auditadas, e a situação financeira é sólida e próspera. Correu com os empresários sanguessugas, acabaram os jogadores a granel, construiu-se um magnifico pavilhão para as modalidades, que estão vencedoras e de boa saúde. O estádio está quase sempre cheio de adeptos a vibrar com bom futebol. Os rivais podem ( e certamente fazem-no) revirar céus e terra à procura de indícios de corrupção no Sporting, além do episódio do Pereira Cristóvão, com o qual se lidou como deve ser, não há nada, zero.

Por tudo isto não gosto que me digam que “são todos iguais” porque claramente não são.  Podemos não ganhar nada mais um ano, não é muito grave, pode andar de cabeça mais levantada quem perde com  verdade do que quem ganha com mentira.

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One thought on “Natal Lagarto

  1. assino por baixo.
    P.S. não fosse a sofreguidão deles em ganhar a qualquer custo e se fossem sócios como deve ser já tinham demitido toda a direção tal é a quantidade de nojeira que tem feito ao longo do tempo que lá estão, e nada de dúvidas, o vieira é o responsável.

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