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Sem consciência

Um amigo mandou-me a seguinte anedota: “O que é se diz a uma mulher com os dois olhos negros? Nada, já lhe foi explicado duas vezes”.

Nem respondi. Não se pense que este amigo é um labrego (também tenho amigos labregos, felizmente) sem educação.Tem formação superior e tem o que se chama de “mundo”. Que há violência doméstica em todos os extractos sociais é bem sabido há muito tempo, se não foi a sociologia a explicá-lo foram as telenovelas e os tablóides, já para não falar da ancestral coscuvilhice. O que me espanta mais no caso deste amigo que conta anedotas sobre bater em mulheres é que ele batia na dele. Não era constante nem regular mas volta e meia acontecia e ao fim de muitos anos ela foi-se embora, e hoje está longe, próspera  e muito feliz. Ele está um desgraçado, arruinado de saúde e finanças e sozinho. Na história que conta a ele próprio sobre a decadência, a violência doméstica é um  pormenor menor, um detalhe. Na história que eu conheço foi  o que fez a diferença, e faz-me confusão que ele não tenha consciência disso, tal como não têm consciência disso pessoas que brincam com o tema mesmo sem experiência em primeira mão, ou que o desvalorizam sequer. A violência doméstica, não só o acto isolado mas a maneira como a sociedade lida com isso, é uma questão de civilização, e é pena que muita gente não tenha consciência disso. Vão sempre existir  relações tempestuosas e abusivas, na medida em que vão sempre existir pessoas assim, mas isso não devia ser tratado com tanta ligeireza por ninguém, desde o gajo na mesa do café a dizer “elas sabem porque é que levam” ao juiz que sentencia um caso.

Já me disseram que não sendo casado e por as minhas relações com o sexo oposto primarem pela escassez não posso perceber o que é,  talvez seja verdade mas  também é verdade  que as ofensas à integridade física são  crime, seja entre um casal seja entre desconhecidos.  Agredir as pessoas é crime, e se é crime é por alguma coisa. Sobre  prisões e julgamentos, que  envolvem  queixas, denúncias e processos, de facto não sei muito e por isso nunca serei eu a dizer que uma mulher agredida   devia era fazer isto ou aquilo. Se já é difícil e dúbio uma mulher aconselhar outra sobre algo de que não tem experiência, um homem  tem mais é que ficar caladinho. Sobre a acção da polícia e outras instituições que lidam com isso também não sei suficiente , sei só que  os juízes têm poder de aplicar a Lei com todo o seu peso, que os deputados podem alterar leis e que o governo manda nas instituições tipo Segurança Social. Mais uma vez, não me cabe dizer se  deviam fazer isto ou aquilo. A tarefa de reunir e organizar dados sobre o problema, enquadrá-lo, definir prioridades, criar e avaliar medidas e depois aplicar um programa é dura, complexa e longa, para ser bem feita, e já nem falo da parte em que se mede o sucesso do programa, tenho para mim que é das partes em que se falha mais. Creio que a prioridade devia  ser aumentar e racionalizar o apoio às vítimas, que sai caro mas tem retorno civilizacional .

É difícil saber como reagiríamos na pele de outra pessoa,  não sei  dizer o que faria no lugar de um homem na mesma situação mas nada me indica que reagisse com violência física. Ser propenso à violência nunca a pode justificar. Ah, ele é muito nervoso... Isso não  interessa nada , o mundo está cheio de gente nervosa, paranóica e deprimida que não recorre à violência por causa disso. Se dissessem perante um juiz “ele fez isso porque é muito estúpido”, devia ser tido como atenuante?   Uma das características que distingue os Homens dos outros mamíferos é a capacidade apurada de controlar os instintos. De cada vez que alguém “destranca” e reage com violência a uma situação não violenta está a exibir  o animal que há em si. O animal, é bom repetir.

É dramático que uma mulher que seja vítima de violência doméstica  tenha que fazer um cálculo tão complicado na altura de denunciar, ou não, que é vítima de agressões. E se ganha coragem para se queixar, se decide que já chega, tem que lutar   com um sistema que não está equilibrado. O ex ministro Carrilho foi absolvido  por ter tratado a  mulher a murro e insulto. Há muitos processos diferentes neste caso e entra-se ali num legalês que é bem capaz de demonstrar que a sentença é perfeitamente normal. Não devia ser. Parece que como a mulher é uma pessoa conhecida e instruída devia ter feito mais, ou seja, a culpa ainda é um bocado dela por não ter documentado as agressões e por dizer aos outros que era feliz. O que eu soube deste caso é que ficou provado que o Carrilho injuriava e batia na mulher, e a menos que a  mulher também lhe batesse a ele, a minha modesta opinião é que devia ter ido passar nem que fosse um mês à prisão. Este caso chegou ao jornais, quantas centenas de casos semelhantes correm, ou rastejam, nos  tribunais do resto do país, tanta miséria.

Com esta sentença mediática muito energúmeno ficou a rir-se,  com a consciência reforçada de que uma queixa de violência doméstica não lhe trará mais do que uma inconveniência. Muita mulher voltou a fazer contas à vida e a concluir que não vale a pena.

 

PS: Num post anterior sobre o feminismo critiquei as Capazes por não levantarem campanha contra esta pena suspensas. Foi  uma acusação falsa, falei sem conhecimento de causa, a verdade  é que já falam no caso desde 2016.

 

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