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Alabama

A primeira coisa que vem à cabeça de muita gente quando ouve “Alabama” é  a canção dos Lynyrd Skynyrd  que toda a gente conhece, mesmo à das pessoas que se riem ao lembrar-se desse estado.  Não há muitos sítios que definam melhor o Sul dos EUA que o Alabama, e tudo o que sei dele, incluindo algumas passagens (não lhes posso chamar bem  visitas) e conversas com nativos  chega para o considerar o fundo  da nação, talvez dispute o título com o Mississipi, dá ideia que a única salvação do Alabama é  a equipa de futebol universitário, que é dominante a nível nacional, e não se pode tomar o futebol universitário como coisa irrelevante. Quem não gosta ou não segue futebol americano não tem lá nada para admirar, até a costa do Golfo do México está morta e degradada.

A história do Estado conta-se em pouco tempo. Os espanhóis foram os primeiros a passar por lá, no século XVI, vindos das suas deambulações por La Florida, sem fazer grande coisa que ficasse. Nos princípios do século XVIII  Instalaram-se  franceses e  fundaram Mobile, ainda hoje o maior porto do Estado. Quem já lá andava há muito tempo eram os índios, mas a esses nunca ninguém perguntou nada. Em 1800, apenas 20 anos antes de o Estado ser criado viviam no território do Alabama 1250 pessoas.Ou melhor, brancos, porque o resto não contava. No primeiro ano como Estado já lá viviam 127000 e acelerou  o processo inspirado pela teoria do Destino Manifesto que dizia que  Deus os levou àquela terra em reconhecimento da  virtude deles e que podiam fazer como entendessem, desde que de acordo com a Bíblia. Os selvagens, como tal, são para  expulsar e exterminar. Foi rápido, devido à desproporção de forças e ao influxo gigantesco de imigrantes europeus. Irónico, o ressentimento de tantos descendentes desses  imigrantes contra os novos imigrantes.

Depois do massacre e expulsão dos índios, a escravatura. Importaram-se centenas de milhar de africanos ou de pessoas que já não eram africanas por terem nascido na América mas eram tratados como bichos na mesma, e continuou a exploração. Em 1860 rebenta a Guerra Civil,  o Alabama foi dos primeiros a pegar em armas para defender os direitos dos estados , nomeadamente o direito a ter outras pessoas como propriedade. Não havia grande contradição, no Alabama de  hoje 78% da população é Protestante e desses, 49% são Evangélicos. ainda hoje mais de metade das pessoas do Alabama acredita no mundo criado em 6 dias, em  Eva  feita a partir de uma  costela de Adão e  na cobra falante. Tentei saber a proporção exacta de crentes em  Portugal, lamento mas não me apeteceu procurar muito e não encontrei, mas acredito e espero que a percentagem que aceita a Evolução seja muitissimo maior, tal como a dos que  não procuram orientação literal e fixa na Bíblia. No Alabama sempre houve mais pessoas que adoram e estudam a Bíblia literalmente, e sendo assim , encontraram  lá consolo e justificação para terem e maltratarem outras pessoas, especialmente sendo as outras pessoas filhos de Ham, como são biblicamente os africanos. Tem a ver com a história do Noé, pai de Ham, mas não me vou alongar sobre  imbecilidades senão isto nunca mais acaba.

O Sul perdeu a guerra civil mas se lá andarem hoje fartam-se de ver a cada passo muito orgulho nos  derrotados. Os escravos foram libertados mas como está bom de ver não basta uma lei, ainda por cima uma lei que levou a uma guerra, para que as pessoas comecem a olhar para as outras de modo diferente, ou,  vá lá, como pessoas. Os negros sempre tiveram a vida desgraçada no Alabama do pós guerra civil, com uma fracção dos direitos dos brancos e sempre, sempre sujeitos a toda a espécie de discriminações, abusos e violências, a começar pelas do Estado.  É ler “To Kill a Mockingbird”, por exemplo . O romance por excelência de denúncia e alarme contra  os preconceitos e iniquidades causadas pelo  racismo  nos EUA  passa-se  no Alabama. Como redenção na desgraça, mostra-nos que no meio dos animais se pode sempre erguer um Atticus Finch,  que há justos em todos os cantos do Mundo.

A segregação racial, o KKK, o criacionismo nas escolas, durante toda a metade do século passado o Alabama ia ficando para trás enquanto o resto da América evoluía na direcção de reconhecer igualdade de direitos  entre raças, que já chegou em teoria mas ainda não chegou na prática. O Alabama permanecia firme no século XIX, e figura alto numa das minhas histórias preferidas, que li nesta Biografia de África:

Em 1957 Richard  Nixon, então Vice Presidente, foi ao Gana por ocasião da celebração da independência do país. Num cocktail depois das  cerimónias oficiais Nixon aproximou-se de um jovem impecavelmente vestido que ele tomou como  Ganês e perguntou-lhe:

-Então, que tal é ser livre?

-Não faço ideia, senhor. Sou do Alabama.

E nesta base se desenvolveu  o Alabama, que só chegava às notícias por causa da luta dos Direitos Civis. Rosa Parks tornou-se heroína da nação ao recusar-se a ceder o seu lugar a um branco no autocarro, no Alabama. Martin Luther King jr fazia discursos tremendos e marchas de protesto enormes, no Alabama. O KKK incendiava igrejas e enforcava pessoas a meio da noite, no Alabama.

Chegamos a 2017 e o presidente é um indivíduo que não se cansa de dizer que ama o Alabama e os seus valores, o que não surpreende dado que é o mesmo que foi processado pelo Estado nos anos 80 por só aceitar  inquilinos brancos nos seus prédios em NY, que se diz muito cristão apesar de já ir no terceiro casamento escabroso e  não vale a pena começar a tentar listar a podridão do homem senão nunca mais me despacho, ele é a podridão em forma de gente.

O lugar de senador do Alabama vagou e ontem houve eleição especial para o substituir. O candidato democrata era um homem conhecido por ser o procurador que processou membros do KKK pelo assassínio de quatro  meninas quando puseram uma bomba numa igreja , lá no tempo em que a América era Grande . O candidato republicano era um ex juiz chamado Roy Moore, conhecido entre outras coisas por ter sido condenado e demitido pelo Supremo Tribunal por ter mandado instalar no relvado do seu  tribunal uma placa com os 10 Mandamentos. Acredita e diz para quem o quer ouvir que Deus tem que ser  fonte da Lei, como dizem os Ayatolahs, e não aceita ( juiz, atenção) a separação constitucional entre Estado e Igreja sem a qual, concordam todos os lúcidos, não pode existir verdadeira democracia. É  declaradamente contra os direitos dos homossexuais , acha que devia ser ilegal e também  disse que ” eliminar as emendas constitucionais depois da décima eliminava muitos problemas do país”. 

A 13a emenda aboliu a escravatura ; a 14a confere protecção igual a todos os cidadãos; a 15a proibe a negação do direito de voto baseado na raça; a 19a dá o direito de voto às mulheres e a 22a instituiu termos de mandato para os presidentes. Já dá para ter uma ideia razoável do pensamento político deste homem. Apareceu num comício vestido de cowboy, a mostrar uma pistola e tudo, e ontem foi votar  a cavalo.Não percebo de cavalos nem sei montar  mas  achei cómico e toda a gente que percebe de equitação se fartou de rir, porque se o homem alguma vez soube montar, já foi há muitos anos,  fez uma triste figura.

Também de há muitos anos vieram acusações um bocado sórdidas: O juíz Moore, na altura procurador nos seus 30 anos, gostava de miúdas adolescentes, andava atrás delas , “namorava” com elas, algumas de 14 anos. Foi proibido de entrar num centro comercial por andar a importunar as moças. Se é crime não sei, mas mostra uma pessoa um bocado nojenta. Nestes dias se  se fala de nojo na política americana o Trump não anda longe, e claro está, acabou a apelar ao voto no Moore para Senador. Um racista que defende a teocracia e é um alegado abusador de menores. Categoria. Classe. Sentido de Estado.

Deitei-me a pensar na eleição (é estranho mas é verdade, e nem conheço ninguém no Alabama…) e hoje para variar tive boas notícias pela manhã, o Moore perdeu. Os resultados foram 49.9% para 48.4%, margem finíssima mas prevaleceu a decência. Claro que o Trump já veio dizer que sempre soube que o Moore ia perder, confirmando que está sempre ao lado dos seus amigos e apoiantes e que é um homem de convicções. No Alabama que vive no século XXI respirou-se de alívio e ganhou-se alento, em Washington consta que agora só falta aprovar o novo regime fiscal, feito isso os oligarcas já têm o que querem e já podem deixar cair o presidente, esse palhaço que é uma vergonha para a América. E que tem 55% de apoio no Alabama.

 

 

 

 

 

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