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O Assessor

Este Natal vou passar algum tempo com os meus sobrinhos mais novos e espero falar com eles sobre carreiras futuras. Existe um sector em que vai continuar a haver grandes oportunidades de avanço e criação, o tecnológico, pelo que a aposta mais segura são as Ciências Exactas e as Engenharias, é por onde passa todo o futuro. Se fossem para enfermagem ou medicina seria sinal de que os ia ver ainda menos, parece que a maioria dos jovens médicos nacionais está só à espera de terminar a especialidade para se mudar para um país que pague o que eles acham que devem receber. Se forem como o tio terão algumas dificuldades naturais com os números e as fórmulas e uma carreira na Ciência será muito difícil.

Vou desencorajá-los das Letras e das Artes, primeiro porque (odeiem-me,  artistas unidos) acho que mais um ou menos um não faz diferença nenhuma, a Humanidade não avança por mais um soneto,  acorde ou pintura. Para me convencerem do contrário teriam que me explicar que a actual  avalanche de produção artística que temos disponível (e da qual não somos fisicamente capazes de usufruir de 1/10 sequer) não satisfaz as necessidades humanas correntes . Tenho para mim que estamos bem servidos, não ganhamos nada em incentivar medíocres e os génios não precisam de incentivos nem se acanham ou recuam por serem desencorajados.

As Ciências Sociais são um bom caminho para duas coisas, primeiro, o que eu escolhi,  perceber um pouco melhor como isto funciona e como é que se sabe como isto funciona. É óptimo para ficarmos cínicos e perdermos a esperança, ou ficarmos militantes  e perdermos a noção. É um caminho de satisfação puramente pessoal, para quem entenda o conhecimento  como um fim em si. Profissionalmente, a saída dos cursos de Ciências Sociais vai estar sempre ligada ao ciclo da governação: havendo socialistas no poder contratam-se mais sociólogos, genericamente falando. Estando os menos socialistas no poder, contratam-se menos, isto muito porque em Portugal quem tem que dar a fazer a sociólogos é o Estado, daí os períodos de expansão ou contracção. Agora estamos em expansão e vamos estar até pelo menos às próximas eleições ou bancarrota, o que acontecer primeiro. A Sociologia não é  a única Ciência Social, é certo, mas dado o tamanho da nossa economia e das nossas empresas, alguém que faça um mestrado em Demografia, por exemplo, tem 99% de hipóteses de trabalhar para o Estado e 85% de hipóteses de esse trabalho ser a ensinar. Inventei agora essas probabilidades  mas não deve andar longe disso.

O Direito é a opção por defeito de toda a gente  que aspira a formação superior mas não tem uma vocação clara e específica,  é aquele curso que dá para fazer de quase tudo e confere o almejado tratamento de doutor assim que se conclui a licenciatura, uma das nossas idiossincrasias mais bizarras . Li há muitos anos que o número de advogados era um dos principais problemas dos Estados Unidos, não será o nosso mas talvez para lá se caminhe, uma sociedade em que  há excesso de gente a argumentar, justificar, criar casos e litigar , tudo coisas que fazem falta mas que não deviam criar a sua própria procura , como é o caso nos EUA. A cultura de processar por tudo e por nada nasce daí, do trabalho infatigável de hordas de advogados que mais não fazem do que procurar rentabilidade em agravos sofridos por outros, reais ou imaginados. Não é muito saudável para a sociedade.

Se os meus sobrinhos não mostrarem uma vocação, talento ou ambição vincada, de serem astronautas ou canalizadores ou cozinheiros ou arquitectos, vou-lhes recomendar vivamente que considerem a profissão de assessor, em Portugal não conheço nenhuma que tenha tantas vantagens e tão poucos inconvenientes.

Assessor:  Pessoa que tem como função profissional auxiliar 

um cargo superior nas suas funções. 

Como não existe nenhum curso de assessor em que se possam matricular quando chegar a altura, vou ter que lhes fazer um plano de estudos e progressão. Começam bem posicionados porque são lisboetas. O governo está em Lisboa, tudo o que importa passa por lá, o resto do país é paisagem pelo que só pelo facto de serem lisboetas já têm meio caminho andado para o topo da carreira da assessoria.

A seguir, a educação. É essencial matricularem-se numa universidade, e quanto mais renomada , melhor. Isto não é  por causa da exigência curricular, é porque é nas melhores universidades que se conhecem os rebentos das elites e se socializa com os aspirantes à casta do governo, sejam os que lá vão parar por morgadio seja por mérito próprio. Depois da matrícula o passo principal é a participação em tudo o que seja “vida académica” aquela expressão que engloba tudo o que os estudantes fazem menos estudar. É preciso entrar nas disputas das associações académicas que rivalizam entre si para ver quem tem maior capacidade de organizar sessões de alcoolemia colectiva e música de merda ao vivo. Este passo é precedido de um muito mais crítico: a inscrição numa juventude partidária. Aqui há que ser pragmático, eu vou-lhes sugerir que se filiem na JS, isto porque pelos meus cálculos quando eles andarem pela universidade já o país foi outra vez à falência e voltou a ser resgatado, estando por essa altura numa fase de expansão, tradicionalmente a fase que cabe ao PS, que nessa altura vai estar a contratar em grande, como agora.

A seguir à filiação na jota e a fazerem o tirocínio na demagogia, combate político e manipulação da comunicação nas brincadeiras das Associações de Estudantes devem prestar alguma atenção ao CV, ou seja, ir fazendo uma ou outra cadeira aqui e ali. Como foi  demonstrado, neste país temos ministros e primeiros ministros com licenciaturas obtidas na Farinha Amparo, só agora alguns ministros e secretários de estado se começam a sentir escrutinados e (primeira grande vantagem do mundo da assessoria) dos assessores ninguém quer saber as qualificações. “Frequência suspensa do curso de Direito da U.Católica” dá perfeitamente.

O passo seguinte, escolher os amigos e ser-lhes leal. Aqui é preciso algum discernimento e não se podem favorecer os amigos mais inteligentes ou íntegros mas sim os mais espertos e desenrascados, sobretudo porque os primeiros raramente acabam na política. Não podem querer aquele das respostas lentas e ponderadas, a aposta é no que tem sempre resposta para tudo e nunca se atrapalha com nada. Os que nunca se envergonham e que adoram falar em público, é desses que o aspirante a assessor se deve aproximar e cultivar a amizade. Quanto maior for o círculo de amigos da juventude e da associação , melhor, é o princípio do networking, é nas “lides universitárias” que se começam a tecer as redes que nos têm a todos  nas suas malhas.  Nesta fase é muito importante não dar passos em falso, e o melhor para isso é não fazer nada, nunca tomar iniciativa nenhuma mas estar sempre disposto a seguir as  iniciativas dos outros, e ser sempre lembrado como um gajo de confiança que colaborava sempre em vez de um  gajo que teve uma data de ideias falhadas e/ou estúpidas e que fazia muitas perguntas. Se se falar pouco também se arriscam  poucas asneiras, pelo que o silêncio colaborativo e o apoio entusiástico a decisões já provadas correctas são fundamentais. É nesta fase que se deve começar a amealhar grande reserva de lugares comuns da profundidade de um  “é necessária uma política de mudança”, e  “queremos incentivar sinergias que promovam a resiliência” porque é essa língua que se fala lá e quanto mais cedo se começar a praticar, melhor.

Se neste espaço de tempo em que constrói a sua rede e aprende o vocabulário o futuro assessor  encontrar tempo para estudar, melhor, e se houver tese, que seja sobre um assunto pertinente ao Estado, tipo “A Influência do Período de Rotação de  Escala nos Recursos Humanos da Administração Pública da África Portuguesa” ou “Práticas de Comunicação Intermodal nas Políticas Contemporâneas de Transportes Urbanos” , temas que não interessam a ninguém nem contribuem para grande coisa mas que conferem lastro ao indivíduo e permitem que este se apresente como “dr não quantos, autor de trabalhos académicos na área da administração pública”.

Ao fim de dois ou três anos nestas ocupações universitárias haverá uma campanha eleitoral, aí o aspirante a assessor tem que dar tudo por tudo e por uma vez mostrar dinamismo e iniciativa, isto porque numa campanha não há muito que inventar : trata-se de fazer barulho, diminuir o adversário e fortalecer o candidato. São sempre precisos “colaboradores incansáveis”, e numa campanha eleitoral o futuro assessor tem oportunidade de provar a sua lealdade, dedicação e capacidade de trabalho, a colar cartazes, distribuir panfletos,conduzir carrinhas com megafones ou a desenvolver  outras actividades do género, tão necessárias à democracia moderna. Não há campanha vencedora sem espólio, e o espólio  tem  invariavelmente a forma de lugares no Estado. O facto de o termo comum ser “lugar” já diz muito sobre este processo. Ora o futuro assessor  tem que ser esperto e nunca se posicionar como candidato a coisa nenhuma, delegado de nada , nem sub nem vice nem, em resumo, nenhuma posição que implique responsabilidade e escrutínio, mesmo que esse escrutínio seja à portuguesa, ou seja, largamente teórico e sempre manso. O assessor deve, isso sim , esperar que um dos seus amigos, ou amigo de um amigo, seja  alçado à tal directoria, ministério  ou vereação para aí sim, ser contratado como assessor e poder descansar.

Um assessor não é eleito e enquanto dura o seu contrato  junta os habituais benefícios do vulgar funcionário público aos abusos egrégios da classe política. Sobre as qualificações do assessor e a sua necessidade só responde quem o contrata, que pode dizer o que quiser e não é obrigado a nada. Se apetecer ao senhor vereador contratar a louraça  que tem o 12º nas Novas Oportunidades mas que é muito amiga do seu amigo, nada o impede de o fazer, mesmo que já tenha 3 assessores.

Como o trabalho dos políticos é fluido, o dos assessores ainda é mais, isto para dizer que esqueçam relógios de ponto ou mesmo horários ou controlo de qualquer espécie , se a assessoria for mesmo boa nem precisam de pôr os cotos na repartição ou direcção geral que ninguém repara e ao fim do mês cai sempre na conta. Se o director geral ou secretario de estado faz merda da grossa ninguém nunca sabe quem é o assessor, ou seja, responsáveis políticos podem eventualmente ser condenados por tropelias várias e ser reconhecidos publicamente como escroques ou incompetentes, mas o assessor ficou lá atrás da cortina, ninguém soube, sabe ou quer saber quem era a figura.

Como não me pagam para isto ( e não me quero deprimir mais) não fui saber o regime de segurança social a que estão sujeitos os assessores nem quais são os seus contratos de trabalho . No entanto sei que é uma excelente opção de carreira , observação confirmada  pelas notícias que têm vindo a público sobre um caso paradigmático deste Festival Nacional da Assessoria , a Câmara Municipal de Lisboa. Podem ler mais detalhes aqui, e chorar .

Além dos que já lá estavam, a CML prepara-se para contratar 124 assessores para apoiar 17 vereadores, o que dá mais de 7 assessores por vereador. Desta fornada de funcionários sem dúvida imprescindível ao bom funcionamento da CML fazem parte muitos indivíduos que eram candidatos autárquicos em listas partidárias mas não foram eleitos, assim se repõe essa injustiça causada pela má vontade e relutância dos eleitores em votar nas pessoas certas. E esta alegre rapaziada que sem dúvida se vai esfalfar em prol do munícipe e chega carregadinha de qualificações técnicas como está bom de ver, receberá até um máximo de 3700€ , começando em todo o caso nos €2500. Se é preciso apoio técnico, abre-se um concurso e contratam-se técnicos especializados para o quadro, mas isto penso  eu que tenho assim ideias delirantes. Na vida real é esta demência de um vereador precisar de 6 ou 7 assessores a mais de 3000€ por mês cada um , e poder contratar pura e simplesmente quem lhe apetecer. Não e preciso ser uma àguia para calcular  que quem fez a lei que gere as contratações foram as pessoas que fazem as contratações.

Quando o arraial acabar o assessor  já terá no seu currículo outra  assessoria, mais o correspondente aumento da sua rede de contactos e favores, e estará equipado para prosseguir na sua carreira. Se o seu partido perder poder há mais de 160 fundações, institutos e outras  instituições públicas em Portugal onde cabe sempre mais um, onde nunca se paga mal e onde se reconhecem sempre os Pais da Democracia e seus afilhados. Além dessas opções não esquecer o grande sector económico do Estado onde jóias da coroa tipo CGD ou RTP estão lá também para isso, acolher  amigos e retribuir favores, e para onde se pode a qualquer hora do dia nomear para assessor um amigo que necessite.

Os assessores nunca são reconhecidos pelo público; nunca são responsabilizados por nada; nunca se exigem respostas ou acções aos assessores; nunca têm que ir a votos nem têm a sua competência ou qualificação questionada. Apesar disso podem ter uma carreira longa e lucrativa, seguindo os progressos e deambulações de um político pelos corredores e caves do poder. Quando isso acabar , ou se eventualmente o patrono do assessor acaba na prisão, pode sempre dedicar-se ao lobbying, a nobre arte de convencer os políticos a fazer o que é melhor para a nossa empresa ignorando o seu dever jurado de fazer o que é melhor para o país. É lindo.

Existe uma variação sobre o tema das assessorias que são os lugares em conselhos de administração, conselhos fiscais, consultivos e outros órgãos de entidades públicas, onde também floresce a arte de fazer pouco ou nada por muito dinheiro. Essas são posições usualmente reservadas à espécie  acima do assessor, um director geral ou  secretário de estado já pode aspirar a uma sinecura dessas para lhe compor o orçamento e tratar do Natal na neve. Que ninguém pense que isto está para mudar, se não mudou com a troika não vai ser agora, e a razão é simples: a classe política nunca vai votar nada que a prejudique, ponto final.

Nesta questão dos lugares públicos de nomeação e do tamanho da administração pública há um facto que eu gosto de referir porque ilustra bem diferenças de cultura e abordagem ao tema : os Estados Unidos da América têm 325 milhões de habitantes e o Supremo Tribunal de Justiça é composto por 9 juízes. Portugal tem 10 milhões de habitantes e o nosso Supremo Tribunal de Justiça tem 64 juízes. Concluam à vontade.

Para terminar quero pedir desculpa aos  assessores públicos que são qualificados, dominam a sua matéria, foram seleccionados por mérito, trabalham horas longas , são íntegros e  têm espírito de serviço público.Há-de haver alguns.

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3 thoughts on “O Assessor

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