Início » Política » Terra Santa

Terra Santa

Tenho três  problemas fundamentais com os israelitas e com os palestinianos, e tenho grande satisfação com o facto de a minha opinião ser irrelevante e não ter voto numa matéria tão séria.

Começando pelos israelitas, é  óbvio que o seu mito fundador é precisamente isso, um mito, se não aceitassem a Torah com palavra final do divino e base da organização das coisas  é provável que ao longo dos milénios tivessem evoluído num modelo diferente de povo, comunidade, nação. Sempre achei dos maiores testemunhos e tributos à  dissonância cognitiva necessária para se ser religioso o facto de os Judeus se considerarem o Povo Eleito. Se são o povo eleito e sofreram o que sofreram em 3000 anos e ainda sofrem hoje, nem quero pensar no que seria se fossem um povo ignorado por Jeová, tipo os escandinavos. Segundo pelo menos um historiador Jerusalém  foi atacada  52 vezes, capturada e recapturada 44 vezes, assediada 23 vezes e destruida duas vezes, não há cidade no mundo com um registo de violência extrema comparável com este, ligar isto com “Religiões de Paz” é certamente exercício para cínicos frios que não percebem a “espiritualidade” que envolve aquilo. A espiritualidade sempre foi um dos maiores impulsionadores da violência entre os homens,e é normal que numa terra que concentre espiritualidade em doses massivas como Jerusalém a barbárie se mostre mais, porque todos os beligerantes estão convictos de que são justos, fazem o trabalho de deus, vão ganhar a vida eterna com a sua violência e os seus oponentes são condenados por um poder mais alto.  Cada um tem o seu livro onde está escrito que eles têm razão, cada um acha os livros dos outros uma mentira e é assim que funciona a terra santa.

Sem narrativas bíblicas e corânicas desapareceria  imediatamente grande parte do racional que faz com que se guerreie e odeie tanto no Médio Oriente, mas as narrativas religiosas estão para ficar, quanto mais não sejam que dão muito jeito às narrativas políticas.

O outro problema fundamental que tenho com os israelitas é a desproporção das reacções , ainda no outro dia li a notícia de um grupo de colonos atacado à pedrada que respondeu como fogo de armas automáticas. Aqui há uns anos os israelitas abordaram um cargueiro turco que acreditavam levar armas, foram ameaçados com paus, responderam a tiro. Caem dois foguetes artesanais em Israel, levantam voo dois F15 e reduzem a entulho outro quarteirão de Gaza. Tenho ideia que  o livro deles prescreve “olho por olho” mas parece-me que eles observam mais “cabeça por olho”, que algumas pessoas podem achar boa estratégia, eu gosto de apreciar as coisas pelos resultados, desde que nasci que os israelitas estão em guerra com os árabes , sem sinais de acalmar pelo que acredito que o objectivo não é conseguir viver em paz.

E aí o terceiro problema: é para mim claro que os israelitas, ou a parte deles que tem sido governo nos últimos anos e claro, a brigada das trancinhas que não toca em mulheres  e acha que passar os dias a abanar-se frente a uma parede  recitando versos ancestrais é uma ocupação válida, não tem interesse nenhum em encontrar paz com os vizinhos. Desde a política dos colonatos ao modo como são tratados os árabes que vivem em Israel até aos periódicos nivelamentos de Gaza onde mantêm milhões de pessoas literalmente prisioneiras numa lixeira , não vejo rigorosamente nada que me indique que Israel esteja interessado numa paz duradoura, que só se pode conseguir com concessões.Se cedemos zero ao nosso inimigo não podemos esperar que ele ceda X e fique quieto, parece-me básico.

Com os palestinianos tenho logo em primeiro lugar um problema comum aos outros, a narrativa dominada pela superstição, a justificação religiosa para as suas neuroses e projectos. O segundo problema é a vitimização , os árabes são historicamente desunidos, os países árabes são atrasados e corruptos e é fácil culpar os sionistas por problemas que se eles não fossem assim conseguiam resolver sozinhos. Em vez de aceitarem a sua quota parte de culpa pelos seus falhanços culpam os judeus, esquecendo que antes de ser criado o Estado de Israel  a Palestina eram montes e pastores de cabras por onde a modernidade não passava, e continua a ter dificuldade em passar. A corrupção épica das lideranças árabes não ajuda, comparada com a dos judeus que podem não ser imunes à corrupção mas ao menos têm eleições, partidos diversos, tribunais e imprensa livre, só por isso já estão num patamar superior.  Se os palestinianos  e os países árabes trabalhassem mais em construir instituições e modernizar as economias a vida não lhes era tão amarga.

O terceiro problema é a retórica e o culto da violência, que no fundo radica na religião e que prescreve a guerra santa, a recompensa do martírio e o castigo divino dos inimigos. Também os árabes não param para se interrogarem sobre a razão pela qual Alá o todo poderoso está a levar tanto tempo a castigar os seus inimigos, andam naquilo há décadas, um foguete ali, uma bomba aqui, para ira divina parece-me bastante medíocre.

No fundo ambos os lados são culpados do mesmo: baseiam as suas queixas e razões em lendas e esperam a destruição total do inimigo. Assim não pode haver paz. O resto do mundo observa , a Europa ocupa-se mais da parte retórica e teórica tipo manifestações , boicotes e votos de protesto, a América é mais prática e sustenta a maquinaria de guerra de Israel, que tem os cérebros e tecnologia própria mas ainda assim depende dos biliões americanos para o músculo. O “processo de paz no Médio Oriente” é uma  abstracção que ouço desde que me lembro, nunca em altura nenhuma pensei “olha, se calhar aquilo agora tem hipóteses de melhorar”. O primeiro assunto que me lembro de comentar com os amigos na escola, porque coincidiu com o aparecimento do Público em 1990, foi a invasão do Kuwait primeiro pelo Saddam e depois pelos Estados Unidos. Até hoje olha-se para a Terra Santa e sua vizinhança e é difícil ver paz nalgum lado,instabilidade ou guerra aberta da Líbia ate à fronteira da Turquia , do Yemen ao Iraque.

Diz -se que a religião protege do desespero, e é provável, mas se protege do desespero também impede de reconhecer uma situação desesperada como tal, e parar. Encoraja a persistir no erro quando tudo demonstra que o caminho escolhido não tem saída, impele a pensar num milagre que tanto pode vir como não vir, creio que são menos as vezes em que vem. Esta negação do desespero incita a nunca pensar  noutro ponto de vista, noutra alternativa, noutra possibilidade. Já se perderam muitas causas que muita gente nunca quis nem quer dar como perdidas.

Chega o Trump, o oposto da ponderação, compromisso e equilíbrio. Desde que chegou ao poder que faz pouco mais do que contentar clientelas e apoiantes (o plano dele para os impostos é uma prova obscena) , e enfurecer os críticos e adversários. Esta decisão de reconhecer Jerusalém capital de Israel é uma oferta antes de mais aos Evangélicos, grande proporção dos seus apoiantes e uma das  seitas mais hipócrita e atrasada do mundo ocidental. Para os Evangélicos Jerusalém tem um valor altíssimo e não é por simpatia pelo povo Judeu, é porque é de lá, ou lá , que vai começar a “rapture”, nem sei como isso se traduz, um evento religioso em que os fiéis vão todos subir ao céu, vivos. Já falharam umas quantas datas preconizadas mas isso nunca impediu que se avançassem novas datas. Os Evangélicos exigem que Jerusalém esteja  em “mãos amigas” e exigem luta aberta com o Islão . Com este reconhecimento de Jerusalém Trump agrada aos Evangélicos, aos judeus sionistas (que não são todos), e à base puramente racista que quer confrontação com os árabes e muçulmanos em geral. As consequências não são importantes, nem o facto de esta decisão não contribuir em nada para o avanço daquela que é a possível solução defendida pelos moderados e realistas por todo o mundo : dois estados com Jerusalém como Cidade Internacional.

O Trump não veio contribuir para nenhuma espécie de paz, só veio imprimir outro ritmo ao ciclo.

Anúncios

4 thoughts on “Terra Santa

  1. Engraçado que antes das cruzadas, e sob ocupação árabe, a convivência entre judeus e muçulmanos era pacífica. Por outro lado, aquando da expulsão dos judeus de Castela e depois de Portugal (os sefarditas), para além de terem ido viver para a actual Holanda, muitos foram para a Turquia e Marrocos, onde foram bastante protegidos. Isto para dizer que a religião tem importância, mas o problema tem, para mim, mais que ver com a noção de posse da terra. A ideia de terra-mãe. Ambos reivindicam o direito de chamar pátria a grandes parcelas do mesmo território (sendo Jerusalém, nesta problemática, um caso exemplar). Em toda esta situação, o papel dos franceses e, principalmente, dos ingleses foi tristemente importante. Por um lado, prometeram uma pátria aos árabes após a I Guerra, se lutassem contra o Turco; e simultaneamente prometeram o mesmo aos judeus para que estes pressionassem os EUA a entrar na Guerra. É claro que depois do Holocausto, a Europa não tinha como dizer que não às pretensões dos judeus e estas colidiam em parte com as dos árabes. O resto é História, e sem solução à vista.

    Abraço,
    Gonçalo

    Liked by 1 person

    • Antes das cruzadas e outras ocasiões tipo pós expulsão dos judeus da Península havia convivência pacífica porque os Judeus não eram uma entidade organizada de espécie nenhuma , eram um povo mas não eram uma nação. Enquanto não passavam de uma comunidade minoritaria no meio de uma nação dominada e regrada por muçulmanos ou cristãos eram tolerados, mas também há que lembrar que essa convivência pacífica era feita de grandes disrciminações e segregações , e pontualmente vinha por aí abaixo num “pogrom” quando era preciso um bode expiatório. O conflito tem muito a ver com a noção da posse da terra, como a maior parte, só que neste a posse da terra é divinamente ordenada e partes dessa terra, tipo templos e zonas circundantes, são importantes porque intimamente ligados à narativa religiosa. Quanto ao papel dos europeus, foi quase sempre uma vergonha mas nesta altura creio que é mais importante saber quem pode fazer o quê do que quem fez o quê, não é o inventário das causas passadas que vai minorar a desgraça.

      Gostar

  2. É claro que uma posição minimamente racional dirá que o importante é saber quem pode ajudar e não estar constantemente a escrutinar quem fez isto ou aquilo de errado. Mas os ressentimentos de parte a parte são muitos (e não é preciso ir aos anos 20, basta começar em 1947 e seguir até aos nossos dias – ainda há dias vi um documentário sobre um aspecto pouco falado e fulcral: a água e o controlo sobre os aquíferos.
    O inventário das causas passadas não vai minorar a desgraça, mas se cada parte fizesse a sua auto-análise, assumisse o que fez contrário aos acordos, às expectativas dos restantes, talvez o processo de edificação da paz (que passará sempre pela existência das duas nações) pudesse ter maior probabilidade de sucesso. Uma espécie de recomeço limpo.

    Liked by 1 person

  3. Era isso que podia tornar a paz uma coisa possivel, essa espécie de recomeço limpo em que ambas as partes dissesem “chegámos aqui, mais importante que discutir como chegámos é discutir como vamos daqui sair”. É impossível, começa logo pelo Hamas que continua a dizer que quer mandar os judeus todos para o mar e acaba nos colonos nos territórios ocupados que dizem que Deus quer que eles estejam ali e lhes deu aquilo. Pessoas assim vivem no passado, nunca conseguem pô-lo de lado para melhorar o futuro.

    Gostar

Responder

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s