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Urbanidade e Desigualdade

Não percebo bem como é que “urbanidade” acabou como sinónimo de cortesia ou civilidade, quanto mais leio, vejo e ouço sobre a vida nas cidades menos faço essa ligação. Urbanidade devia ser antes sinónimo de indiferença, confusão e desordem.

No outro dia uma amiga queixava-se de que o vizinho de cima estava a ouvir música muito alto e eu ri-me para mim com a noção de viver sobre a casa de outra pessoa e com a casa de outra pessoa por cima da minha , coisa tão normal  como respirar mas que nunca deixa de me fazer certa impressão.

Dantes dizia que só contemplaria viver numa cidade se fosse milionário, hoje nem isso,  se tivesse muito dinheiro visitava cidades mais frequentemente mas seria incapaz de viver numa. A ideia da vida urbana, o contacto das multidões, o ritmo infernal do trânsito, a pressão comercial a cada esquina e a cada momento, a sujidade e poluição, o custo mais elevado de tudo, a constante comparação e avaliação dos outros que acontece quer se queira quer não, a necessidade de “mostrar  uma boa imagem”, ou seja, estar conforme um padrão seja ele moda seja ele modelo,  tudo isso me deixa muito desconfortável. E as multidões que me fazem impressão não são necessariamente as massas , o “proletariado” que se encontra nos transportes públicos às 7 e meia da manhã, esses fazem-me tanta impressão como uma multidão que se encontre na abertura de uma exposição de arte moderna ou de um concerto numa sala de espectáculos.É gente, tudo gente, tudo igual, seja no Lidl seja no Corte Inglês, gente a mais.

As cidades atraem sempre mais habitantes, o interior perde-os. Um “tuítador” sugeria no outro dia que uma medida boa para combater a desertificação era criar nos municípios do inteiror bibliotecas e centros artísticos , evidenciando assim outro grande problema relativo à desertificação:  os fazedores de opinião, jornalistas e políticos só saem de Lisboa e do Porto de férias para ver o folclórico e o pitoresco, fazem fraca ideia das necessidades , aspirações e modos de vida do interior, dos rústicos  que certamente anseiam por instalações de arte moderna e recitais de dança interpretativa quando andam 80kms por uma consulta médica, por exemplo.  Na minha ilha temos uma biblioteca em cada sede de concelho e nenhum artista, NENHUM, fica sem poder criar  o que lhe der na mona por falta de espaço para isso, e não é isso que faz com que a desertificação se inverta. Além do mais  quem propõe “investimentos culturais” do Estado para combater a desertificação não tem bem a noção do que está aqui em causa, que é precisamente a falta de oportunidades e condições para a economia privada florescer e a sobrecarga de impostos sentida por todos e que obriga muitos a viver nas cidades onde estão, sem surpresa, os trabalhos que pagam melhor.

Nas cidades estão os trabalhos que pagam melhor e mais maneiras de gastar o rendimento e a paciência. No outro dia circulou o vídeo de um indivíduo a retirar o bloqueador da roda do carro aplicado pela odiada EMEL. As pessoas em Lisboa ralham contra a falta de estacionamento ao mesmo tempo que ralham contra medidas para disciplinar o estacionamento. Creio que o direito a um lugar conveniente para parar o carro não está na Constituição mas há poucos assuntos que inflamem tanto os lisboetas, que não aceitam que ter um carro numa cidade é um luxo e que os luxos pagam-se.

Esse indivíduo que retirou o bloqueador foi saudado como herói mas não passa de um imbecil, primeiro porque tinha o carro numa zona assinalada de cargas e descargas mas como bom tuga achou que não se aplicava a ele. Depois porque pensou que se ia embora e não lhe acontecia nada, característica comum a todos os infractores menos dotados de capacidade de análise de consequências possíveis   mais estúpidos. Por fim porque se justificou com a pressa de estar no aeroporto, como se isso interessasse a alguém , como se ter pressa para ir ao aeroporto fosse tipo ter um ferido a sangrar no carro ou estar  a fugir de um psicopata, essas sim poderiam ser atenuantes.

Parece que o indivíduo vai pagar pela gracinha cerca de 10 vezes mais do que lhe custaria meter-se no taxi e pagar a multa e o desbloqueio, mas aposto com quem quiser que vai insultar e ralhar e dizer-se vítima da EMEL até ao fim. Do lado da  Câmara ou do governo não vale a pena esperar nada que melhore ou racionalize os problemas do trânsito e dos transportes, muito porque nem uma das pessoas com poder de decisão e influência alguma vez se chega perto de um transporte público, a maioria anda em carros que não paga, com combustível e manutenção que não paga, tem lugares reservados de estacionamento e qualquer multa que eventualmente apanhe por engano é paga pelo Estado, como teve  a bondade de nos explicar o saudoso dr Soares uma vez que o seu carro foi apanhado a mais de 200 na autoestrada. Há uma casta com regras e financiamento próprio, as regras são eles que as fazem , o financiamento somos nós que  fornecemos. Quer queiramos quer não.

Também é boa altura para lembrar aos que não sendo funcionários públicos acreditaram que a geringonça ia acabar com a austeridade, que os preços dos transportes públicos vão voltar a subir  ser actualizados.Depois vamos ouvir discursos sobre as preocupações e intenções dos autarcas  e governantes e fica tudo na mesma, vai crescendo o número de coisas que são aceitáveis e que se toleram porque o governo é de esquerda. Do lado que em princípio representaria a direita e se iria renovar com a saída do Passos, avança a brigada do reumático, entulho estatista que já aí anda há décadas e que vem propôr o mesmo mas de outra cor. Felizmente e finalmente , Portugal já tem um Partido Liberal, tema  a revisitar em breve.

Tal como uma pessoa que viva sozinha sente mais a solidão se viver numa cidade, no meio da multidão, também uma pessoa pobre sente muito mais a sua pobreza numa cidade, onde se cruza constantemente com Maseratis, lojas a vender roupas de luxo e restaurantes que cobram por uma refeição o que ela demora uma semana ou mais a ganhar. Para muita gente este contraste e tensão faz parte das forças e belezas da cidade, para mim é das coisas que  me custa quando estou numa, não só porque também estou na parte inferior da escala mas principalmente porque vejo que da parte das pessoas que andam de Maserati e gastam €300 no trigésimo par de sapatos não há  compreensão nem empatia com quem tem que se desenrascar num mês com menos do que lhes custou a última escapadinha de fim de semana.

Olha olha, este começou agora a preocupar-se com as desigualdades … Não comecei agora nem são as desigualdades em si que me preocupam, o que me preocupa é o modo como são perpetuadas e a falta de noção e vontade dos que poderiam fazer algo para realmente as diminuir. Preocupa-me o modo como se atinge um patamar superior, ou como não se consegue subir de um patamar inferior. Preocupa-me que no nosso país o mérito não valha o mesmo que ligações familiares ou políticas. Preocupa-me que os trabalhadores do sector privado sejam sistematicamente discriminados e mal tratados em detrimento dos do sector público. Preocupa-me o corporativismo, herdado do Estado Novo e de boa saúde, que faz com que por exemplo o sindicato dos médicos se esteja nas tintas para a saúde e o dos professores nas tintas para a educação. Preocupa-me a absoluta falta de vergonha do Estado e seu polvo que (uma de centenas de exemplos odiosos) tem uma empresa que gasta 60 mil euros em cafés , por ajuste directo, e que em 2018 vai gastar cerca de 80 milhões em viagens,  um Estado que permite aos seus operadores melhor posicionados contratarem amigos e família a peso de ouro, competentes ao não, façam falta ou não.

São coisas como estas que fazem aumentar as desigualdades e a sensação de impotência perante elas, e isso é que é terrível. Não são as desigualdades , é perceber que não há hipótese.  Quando estou no meu quintal olho em volta e penso que no ano que vem a vida pode ser melhor e mais bonita, quando estou na Praça da Figueira ou no Colombo olho em volta e interrogo-me como é que isto não rebentou já tudo.

 

Hoje é dia grande de futebol, daqui a nada o meu Sporting  vai medir forças com o poderoso FC Barcelona, em Barcelona, é daqueles jogos em que é permitido sonhar e aconteça o que acontecer , já fizemos uma figura razoável na Liga dos Campeões deste ano. No futebol, que chafurda em lodo nauseabundo com alguns clubes salpicados e outros enterrados até às orelhas, há poucos momentos em que um adepto pode realmente sonhar com transcendências,  glória e alinhamentos planetários favoráveis, hoje é um deles. O Sporting pode vencer o Barcelona, a Juventus de Turim pode empatar ou perder em Atenas e nesse caso passamos à fase seguinte em grande.

Em Lisboa também há um jogo, outro clube vai jogar com uma equipa menor e tentar menorizar o descalabro vergonhoso da sua participação nas competições europeias deste ano. A equipa visitante é da Suíça , uma equipa ridícula que na recepção a esse clube lisboeta lhes aviou cinco secas. Ontem houve “batalha campal” em Lisboa quando os Suíços mostraram demasiado entusiasmo nas celebrações , à noite no Cais do Sodré .

A foto que acompanha esse artigo sobre a “batalha campal” é esta, e foi por vê-la que comecei a escrever isto. Como é que e possível alguém sair de casa à noite para se ir meter aqui?

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