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Crónica de um Serão

Refiro-me muitas vezes aos hippies num tom de gozo mas o que é certo é que tenho muitos amigos que se podiam classificar na categoria, se é que fica bem ou faz sentido andar a classificar pessoas por categorias.

Não conheço muitos exemplos de hippies que tenham burlado milhões, passado leis iníquas, poluído o ambiente, iniciado guerras, maltratado bichos ou em geral sido prejudiciais ao seu próximo, ao passo que se fosse fazer uma listagem de pessoas que tomam banho todos os dias, usam gravata  e roupas caras, têm educação superior, são bem informadas, vão à missa e que depois tomam decisões e têm acções que prejudicam milhões, tinha para horas.

Às vezes gozo um bocado e critico certas inconsistências e contradições, mas em procurando encontramos inconsistências e contradições em toda a pessoa que tenha uma filosofia de vida consciente, que fale sobre ela e a pratique. Só um cadáver adiado que procrie, alguém que só pense nas tarefas a fazer para receber meios de subsistência e que não tenha realmente opinião formada ou discurso  sobre a realidade e o seu lugar nela é que está livre disso. Há vantagens em  ser amorfo e apático.

Ontem recebi uma mensagem a convidar-me para uma festa de aniversário de um francês que fazia 39 anos, vive ca há pouco mais de dois anos,  com uma alemã da mesma idade e dois filhos. Se os vissem na rua , por exemplo sentados a tocar djembés numa esquina, talvez lhes atirassem  uma moeda, ou então torciam o nariz e seguiam caminho ,  só vagabundos andrajosos,  madraços e drogados , parasitas… Muitas vezes não passamos de olhar a superfície e nem sequer pensamos no que está por baixo.

Se não tenho razões fortes para recusar, tipo compromissos prévios ou um desdém marcado  pela actividade  (sessão de dança interpretativa, por exemplo) vou sempre que me convidam para qualquer coisa. Neste caso tinha o problema de nunca ter ido a casa deles apesar de saber mais ou menos a localização, combinei com outros amigos ir com eles. Esses também cresceram no hipismo e nas militâncias da extrema esquerda e do anarquismo mas já passam dos 40, têm filhos que acreditam não se vão conseguir sustentar de indignação, irreverência  e subsídios estatais, viram muita hipocrisia, inconsequência  e estupidez pura em 20 anos de lutas pelo que se “desradicalizaram”, mantêm hábitos saudáveis e modos de vida respeitadores na natureza  mas abraçam com gosto a maior parte da modernidade e a economia de mercado.

Não são uma família muito “normal” (por exemplo não têm frigorífico e os miúdos lêm livros, falam duas línguas  e não têm smartphones) mas em muitas coisas são como todas as outras: demoraram quase dez minutos a sair de casa. As minhas botas?? Maaaae! Não podes levar esses chinelos! Anda para baixo, já te chamei! Vai buscar o outro casaco!Onde é que está o não sei quê? Vai fazer chichi! Apagaste a luz lá em cima? Não, não podes trazer isso! E todas as coisas que são familiares a…familias e que fazem sorrir pessoas como eu que quando querem sair de casa vestem-se e saem de casa, demora cerca de 30 segundos.

Fomos em dois carros, podíamos ter ido num mas eu nunca vou a lado nenhum de onde não me possa vir embora quando me apetecer ou ficar mais tempo se me apetecer. Parámos os carros perto de uma canada e daí foi quase uma boa meia hora a subi-la, à casa do aniversariante só se chega a pé ou a cavalo e há que não ter medo de um bom   quilómetro de caminho de mato. Eu medo não tenho, mas tenho que parar a cada cinco minutos, especialmente se for íngreme como é o caso, mas não me faz diferença porque a cada pausa, enquanto recupero o fôlego, olho em volta e consolo-me, sei que no Mundo não há muitos sítios tão bonitos como esta ilha.

Ao pé de uma bifurcação na canada, marcada por um crâneo de vaca espetado numa árvore que foi lá posto pelo C, o aniversariante, para marcar o cruzamento, quando já se viam umas luzes e ouviam vozes ao longe, salta-nos ao caminho o Tito, com um haaaa!!!. O Tito é o filho mais velho do C,  tem uns 9 anos, fala francês, alemão e português, é loiro, tem a cabeça rapada menos da parte de trás onde corre uma grande trança. Nunca vi uma mudança tão grande numa criança como no Tito, quando o conheci era um verdadeiro corrécio, olhava para tudo com cara de mau, batia em adultos e miúdos, nunca parava , estragava, gritava, habilitava-se a estalos na cara, resumindo, era um índio que validava  os preconceitos sobre o modo como os hippies criam os filhos. Não sei o que aconteceu nestes dois anos mas hoje o Tito é um doce de um miúdo. Não perdeu energia nenhuma, antes pelo contrário, continua um dínamo, mas trata bem toda a gente, não bate em ninguém, brinca e partilha com os outros, é generoso, obediente, simpático, enfim, já tinha dito aos pais que não sei o que fizeram mas parabéns pelo que fizeram. Eles agradeceram, como todos os pais quando veem os filhos elogiados, e disseram que não fizeram nada. Não houve psicólogos nem ritalina, deve ter sido mais esse estranho método de deixar os garotos serem garotos e andarem à vontade, mas eu não sei nada disso.

A casa , que muita gente chamaria uma enxovia miserável , é um assombro. Isto porque  não só  é num sítio tremendo mas porque foi feita toda pela mão do C, com os materiais que ali encontrou e preparou, com as suas ferramentas.  O homem, que trabalhou desde miúdo, muitas vezes em trabalhos duríssimos como matadouros, tem uma capacidade de trabalho incrível, pode passar seis horas seguidas a escavar barro , cavou o seu próprio poço  (ao que sei é o primeiro poço desta ilha em 500 anos de povoamento) e se por exemplo precisa de cascalho não vai comprar ou mandar vir cascalho, pega numa marreta e passa oito horas a partir pedra até ter o cascalho que precisa. A casa é principalmente de madeira, árvores enormes, tábuas todas cortadas por ele e tudo revestido de adobe feito por ele, todos os móveis feitos por ele.

Já me tinham dito que era espectacular, eu fiquei impressionado e era de noite, vou lá voltar em breve de dia para apreciar melhor. Não tem electricidade de rede nem precisa, tem paineis solares que chegam para a música e as luzes, e o resto é como na idade média. Também não tem porta nem outras amenidades que se encontram nas casas modernas mas ninguém pode duvidar de que é o abrigo suficiente de uma família feliz. O C tinha uma fogueira enorme no jardim  que num minuto trasformou num tapete de brasas perfeito para grelhar a carne.

-Olha que fazer a festa à noite na rua a 25 de Novembro se calhar não foi muito boa ideia…Comentou outra amiga enquanto nos chegávamos ao lume

-Isto para mim é Primavera. Quando o Tito nasceu estavam 20 graus negativos e vivíamos na roulotte que ficou presa no mesmo sítio por 2 meses . Quando saía tinha que fazer dez quilómetros de bicicleta só para chegar á aldeia mais próxima, nem sabes.

Chegou outro amigo com um balde cheio de carne. Um balde, e pedaços do tamanho de um prato.

-Assim sim, isto  é grelhar carne a sério ,  comentei eu

-Pá , isto aqui é tudo à flintstones, diz o amigo, algarvio e o único outro português da festa.

Havia um bolo, pão caseiro,  quilos de carne grelhada e uma sopa de feijão e lentilhas para os vegetarianos mas acho que foi feita mais por reflexo e hábito porque toda a gente comeu carne. Ultimamente  a espécie mais comum de vegetariano que encontro é o vegetariano que evita comer carne, estou encorajado a começar a dizer o mesmo, porque ser vegetariano tem um certo cachet social e basta-me dizer que sou, que evito comer carne. Evito comer carne até me ser impossível evitar, acontece-me  muitas vezes, quando me apetece muito comer carne não sou capaz de o evitar.

Gosto bastante desta dieta e deste menu de festa, não gosto muito das festas tradicionais em que a maior parte do esforço vai na apresentação de uma mesa farta com trinta e duas  qualidades de coisas em quantidades absurdas cuja metade ou terço fica sobre a mesa no fim da festa, é uma tristeza.

A música  já foi um bocado mais difícil, punk rock e hip hop francês são intragáveis e quando ao tecno trance que também se consome por ali, é um genero de música que acho impossível de suportar sem tomar os medicamentos. Felizmente oscilou-se entre isso e o reggae , que nunca deixa ninguém ficar mal na sua simplicidade, monotonia e uniformidade imbatíveis.

Partilharam-se as novidades e “quadrilhices”, entre elas uma que me deixou alarmado, uma moça pela qual eu tenho um fraco bastante forte foi picada por vespas, tem a cara toda inchada e está em casa com  febre e irritações na  pele pelo corpo todo. Ela e o companheiro (de quem sou amigo) são radicais da natureza e dos remédios naturais e têm uma certa aversão a tecnologias ,  sobretudo à química moderna.

-Então mas está a melhorar? quis saber da minha amiga que a tinha visto.

-Não…

-E o que é que fizeram?

-Olha , fomos consultar o dr. Google e…

Acabei a frase por ela

-Anti histamícos, sim, e foram à farmácia buscá-los??

-Ainda não , estivémos a ver anti histamínicos naturais…

-Ó paciência, e quais são os anti histamínicos naturais?

-É o não sei quê e o chá de não sei quê…

Nem ouvi bem. Fico fora de mim . Se fosse outra pessoa qualquer dizia, olha incha para aí com o teu chazinho,  mas esta  não. A moça vai ficar  a sofrer a esfregar-se com ervas , e ou a situação melhora no triplo do tempo que demoraria se tomasse um comprimido ou agrava-se de tal maneira que vai acabar por ir para o centro de saúde tomar o tal comprimido.  Uma suíça que por aí anda veio juntar-se à conversa, a oferecer um anti histamínico natural mas como ela mal fala outra língua que não o alemão suíço ninguém percebeu o que era. Sem dúvida outra erva fervida. Aqui há um mês foi  a mesma conversa com ela por causa de outro amigo, florentino, que está a morrer com a doença de Crohn.

-Procuraram remédios naturais?

-Remédios naturais para a doença de Crohn?

-Sim…

-Sabes o que é a doença de Crohn?

-Não estou bem a ver.

-Então não digas asneiras.

Às vezes metem-me nervos com as  ervas, decocções e placebos vários que mal aliviam uma constipação e depois andam a sugerir curas para doenças que nem compreendem. Quando arranjarem uma erva para o enfizema pulmonar avisem que estou interessado, e também  me interessa ver o primeiro caso de  um remédio natural a curar dois cancros seguidos. Já sei, há uma conspiração capitalista que abafa isso tudo, claro. Milhares de pessoas acreditam em mezinhas e bruxedos cujo principal princípio activo é o poder de sugestão, e depois olham com superioridade e desdém para a ciência, até ao dia em que precisam mesmo dela.  Uma alimentação saudável e natural (no sentido de não levar químicos) protege o corpo e o sistema imunitário e há muitas plantas que têm imensos benefícios para a saúde. Capacidade curativa, especialmente de condições severas,  é uma coisa muito diferente. A relação entre a evolução da ciência médica e da farmacologia e o aumento da esperança média de vida no mundo é ignorada pelo  pessoal da homeopatia, que nos sugere que usemos as mesmas terapias do tempo em que se vivia até aos 35 em media.Era natural.

Essa suíça tem um certo interesse na minha pessoa e apesar de eu não fazer esforço nenhum a disfarçar que não é recíproco, ela não atinge e insiste em cada ocasião em que nos encontramos, felizmente são poucas. Não percebo, deve ser mais estúpida do que parece, eu  consigo perceber se uma mulher não tem interesse em mim, por exemplo nunca falar comigo nem olhar para mim, mostrar zero interesse no que eu estou a dizer ou   afastar-se quando eu me aproximo são  indicações razoáveis de falta de interesse, registo e afasto-me, é simples. Esta anda há anos nisto e insiste, e eu já não sei o que mais hei-de fazer para ela não me vir melgar com olhos de carneiro mal morto. Ignorou a minha expressão de enfado e começou a falar-me no seu português macarrónico de um movimento colectivo da juventude Suíça que foi reprimido pelo Estado nos anos 80.

-Acredita, foi verdade!!

-Acredito perfeitamente, mas não me interessa nada.

Nem assim o raio da mulher percebe, não posso ser mais directo, às vezes incomoda-me, parece que está a tentar vencer-me  pelo cansaço, não sei.

Falou-se de mais isto e aquilo, o fogo foi esmorecendo, os garotos começaram a adormecer, daquelas alturas que há em todas as festas em que um diz “bom , está na minha hora” e meia dúzia aproveita a deixa e vai também. Hora de descer o monte, fui com os meus amigos com quem tinha ido, à frente o miúdo mais velho com uma lâmpada daquelas ecológicas que se alimenta à manivela, que são muito giras mas têm pouca intensidade luminosa, fazem muito barulho e obrigam a estar sempre a dar á manivela, pelo que saquei o telemóvel do bolso e iluminei o caminho com ele, a pensar “ora aqui esta uma boa metáfora para  estas questões da tecnologia”.

Cheguei a casa seria uma da manhã, o cão não estava. Quando vou a estas “ocasiões sociais” nunca o levo porque há sempre outros cães e o Rofe não se dá com outros cães. Como não gosto de lhe apertar muito a coleira e ele é esperto, já sabe que quando chove a coleira escorrega melhor e encontra maneira de se escapar.Normalmente quando se escapa está à  minha espera à porta. Esperei meia hora, nada.Ele dá as suas voltas à vizinhança mas nunca leva mais do que quinze minutos. Fui procurá-lo e chamá-lo, nada. Peguei no carro e corri a freguesia toda devagarinho, nada, e aí já estava a começar a ficar ralado. Mais uma volta, regresso a casa, três da manhã.O cão nunca andou a passear tanto tempo, pode ter-se perdido, já deliro e penso que mo roubaram. O que é que eu vou fazer sem o meu cão? Pus o pedido obrigatório no facebook, eram três da manha e quase imediatamente duas pessoas das Lajes o partilharam. Há sempre gente ligada aquilo. Passada meia hora aparece o animal, como se não fosse nada com ele, é  daquelas ocasiões em que apetece abraçá-lo e corrê-lo ao pontapé ao mesmo tempo. Antes assim.

 

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