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Sobre a Fauna

Para me lembrar de que está o Inverno à porta, ontem pela primeira vez tive que sair de casa debaixo de vento forte e chuva grossa para ir tratar das ovelhas. Para me lembrar das características do clima destas ilhas, assim que voltei a casa, ensopado e mal disposto, abriu o céu, brilhou o sol e tivémos um resto de manhã radioso, para à tarde voltarem os aguaceiros mas já sem vento. Cliché Açoriano #3 : as 4 estações num só dia.

As ovelhas, além da despesa e do trabalho que ultrapassam em muito a rentabilidade, dão-me preocupações. Tenho agora 11, uma com diarreia, já este ano me morreu outra, fizemos-lhe a autópsia e o veterinário não conseguiu descortinar a causa da morte. Tenho uma que teve que ter uma pata amputada e agora, ao contrario das outras, tem  muito medo de mim. As ovelhas reconhecem rostos, todo o tempo em que teve a pata doente eu dava-lhe injecções e  limpava-lhe a ferida, segurei-a quando se fez a cirurgia e depois mudava-lhe o penso, tudo coisas dolorosas portanto a ovelha associa-me a dor, obviamente que não percebia o que eu estava a fazer nem se convencia com o que eu lhe ia dizendo e agora  quer-me é longe. Tenho curiosidade em saber se vai ser sempre assim ou se à medida que os anos passarem ela perde o medo.

Há uma história a que acho muita graça e que já vi muita vez repetida como se fosse original, de quem ouviu mesmo isto : num parque público está um gajo com um cão e às tantas ouvem-no a dizer alto NÃO! e depois baixinho:   ja tínhamos falado disto…rio-me sempre porque falo muito com a minha bicharada. Ao gato, que é muito vadio, é  quase todos os dias quando o encontro:  Ó Moby, tás aí? e ele olha para mim com aquela expressão de gato que poderia perfeitamente querer dizer o que é que te parece? e de cada vez que ele volta a casa pergunto-lhe onde é que andaste? já quase como reflexo. Depois rio-me e penso que enquanto tiver consciência de que estou a falar com um bicho que não me responde nem percebe, não estou a ficar maluco.

Já com o cão as conversas são mais do género do outro: já tínhamos combinado, pá! ou já devias saber bem que não. O cão tem seis anos, nunca , mas nunca comeu nada da mesa mas isso não o impede de se ir sentar a olhar para mim quando estou a comer, na esperança de que caia alguma coisa.Nunca caiu nem vai cair, ele só come na tigela dele ou na cozinha, onde aí sim, de vez em quando cai alguma coisa, mas esperar ao meu lado quando estou à mesa chateia-me. Mas tás à espera de quê? Ele não perde a esperança.

A antropomorfização  é uma realidade muito presente nos animais de estimação  (já vi escrito que agora  em  Portugal também se começou a dizer pets, se alguem me disser isso pessoalmente não vai ser bonito de ver) e agora há uma corrente animalista que acha incorrecto e porventura opressivo que nos designemos como donos dos nossos animais pelo que o termo correcto é tutor. Não, aqui não, nem em sítio nenhum que eu conheça e respeite, eu por exemplo tenho três galinhas que são de estimação e não minha tutela, são minha propriedade tal como era o galo que agora está na arca congeladora porque nunca se soube comportar decentemente.  Os bichos compram-se, vendem-se , criam-se e são nossos, a posse não tem nada a ver com o modo como se criam e tratam, dizer que não somos donos é equiparar os bichos a pessoas com um destino, vontade, personalidade, potencial   e caminho próprio, isto talvez vá ser verdade no futuro mas comigo esse futuro está longe.

Duas dessas galinhas só estão vivas porque lhes acho alguma piada e vão limpando a horta, porque foram compradas (não apareceram aqui de livre vontade nem me escolheram para tutor) para pôr ovos. Por razões que não conheço deixaram de pôr ovos há meses e os ovos que puseram na vida toda não pagavam o que já gastei em rede de galinheiro quanto mais em milho. Voltei a comprar ovos e deixei de me preoucupar, ficam para ali, também não é o milho que elas comem que me vai arruinar.O galo foi executado porque era mau como as cobras, além de me perturbar o sossego aos gritos ao pé da janela atacava tudo o que se mexesse, até o cão, perdi a paciência. Tenho duas gaalinhas no galinheiro e outra que é mesmo de estimação, primeiro porque também foi criada desde pinto, depois porque e linda , de um preto brilhante , uma beleza ao pé das outras pindéricas de pescoço pelado . Depois porque desde pequena que as outras duas lhe fazem a vida negra, sempre a atacá-la, a não a deixar comer, enfim, umas miseráveis. Isto teve um belo desenvolvimento, que foi que a preta cresceu e consegue voar. As outras duas não, estão no galinheiro, a preta vai lá quando há distribuição de milho, come e vai-se embora, é livre. Já a vi em cima de árvores e fiquei muito impressionado, mas o que acho mais piada é que é amigalhaça das ovelhas, anda quase sempre com elas, é muito engraçado.

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A história das galinhas mais velhas infernizarem a preta lembra-me de outra ideia falsa que é a da pureza e uma certa bondade do mundo natural, muito cara aos hippies e aos seus sucessores, aquela noção que equipara o natural ao bom e com a qual eu sempre tive problemas. Na Primavera passada uma das ovelhas pariu gémeos e recusou um, partia o coração ver o cordeiro desesperado a tentar chegar-se à mãe e ela a afastá-lo, às patadas se fosse preciso.Isso também é o mundo natural, ninguem sabe porque é que isso acontece mas acontece. É bom que nos lembremos, com todo o nosso amor e dedicação aos animais, da Lei da Selva que e muito real e  não se chama assim por acaso. Existem muitos exemplos de cooperação entre animais mas são todos explicáveis na logica da perservação do grupo e reprodução da espécie, é esse o mecanismo, que eu saiba não há outro e se há, espero conhecê-lo porque estou sempre desejoso de aprender sobre estes temas.

Se eu morresse aqui  e ninguém viesse buscar o cadáver, em menos de 48 horas  o meu Rofe e o meu Moby queridos começavam a comer-me, em menos tempo do que isso  se houvesse sangue e feridas abertas. Isto é um bocado macabro mas a Vida é muitas vezes macabra , os bichos não se compadecem nem têm as nossas medidas nem noções, isto é óbvio mas não para todos.

 

Ainda sobre bichos, soube hoje que os toureiros e as touradas não pagam IVA, e acho uma vergonha. Soube porque o Bloco de Esquerda (que volta e meia me lembra de que mesmo um relógio parado está certo duas vezes ao dia) apresentou uma proposta para acabar com isso. Não consigo encontrar nenhuma razão para isentar toureiros e touradas de pagar IVA, e mesmo que tivesse sido  uma medida introduzida   discretamente por debaixo da mesa há anos, aqui estava a oportunidade de corrigir isso, entre muitas outras razões porque estamos em 2017. A proposta foi chumbada por todos os outros partidos. Que o CDS, a casa natural dos marialvas, votasse contra, entendo. Que o PSD votasse contra, também não surpreende muito. O PS votou contra porque a isenção foi dada por eles no tempo do Sócrates e eles não só não têm vergonha do que andaram a fazer nessa altura como até têm um certo orgulho. Agora porque raio é que o PCP, que até se coliga com os Verdes, é a favor da isenção do IVA para toureiros e touradas já é para mim mais misterioso…a menos que a razão seja a relutância em viablizar alguma coisa do Bloco.É sabido que entre os comunistas a ideologia vem antes de tudo.

Até entendo e aceito que não se proíbam touradas, mesmo que aquilo me repugne. Que não paguem IVA , quando neste país até os medicamentos de doenças crónicas pagam, já é um bocado ofensivo. Muito gostava eu de ver os partidos a explicar a razão de terem votado contra esta proposta do Bloco.

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