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Sexta Feira Negra

Não percebo bem porque é que não começámos já a celebrar o Dia de Acção de Graças dos americanos, que se assinala hoje, visto que existe muito potencial comercial de comunicação (ie, jornais e TVs a encher chouriços) e mais um  feriadozinho nunca fez mal a ninguém.

Provavelmente ainda nenhuma luminária importou e promoveu o Dia de Acção de Graças por causa dos tons religiosos da coisa, importa-se tudo quase indiscriminadamente mas há limites, uma tradição que junta famílias em agradecimento pela sorte que têm não tem muito apelo no nosso pós modernismo e iam chover críticas. É uma tradição não só do heteropatriarcado como tem laivos de colonialismo e outros ismos, de Acção de Graças ninguém quer saber até porque hoje em dia, como descobrimos que temos direito a tudo e tudo nos é devido (sim, você merece), não faz sentido agradecer a nada nem a ninguém, muito menos em família, essa outra construção artificial que só serve para perpetuar estereótipos .

Hoje não há Acção de Graças mas amanhã já é Black Friday , uma ocasião que  prezo porque me permite criticar ao mesmo tempo cinco coisas que detesto, a saber:

  • A pequenez  de importar tradições estrangeiras sem a mínima relação com o nosso país
  • A parolice de usar nomes em inglês a torto e a direito.
  • O consumismo desenfreado e a gratificação por via da aquisição de objectos.
  • A vacuidade dos meios de comunicação social que transformam  operações comerciais  em assuntos.
  • A mentalidade de manada que faz com que muitas pessoas  gastem  dinheiro a comprar coisas porque veem os outros a fazer o mesmo.

Amanhã então há que encontrar tempo para ir às compras, quer se precise de alguma coisa quer não, mas que digo, é claro que se precisa, a distinção entre bens necessários e bens supérfluos já se esbateu há muito e tenho a impressão de que uma boa campanha publicitária consegue sempre transformar seja o que for numa coisa que faz falta.

No dia a seguir, o Sábado Lilás , vamos poder ver notícias sobre trânsito infernal, poluição, dificuldades económicas, endividamento de alto a baixo, desintegração social, desigualdades e esgotamento dos recursos, mas tudo isso empalidece perante a possibilidade de passar duas horas no trânsito e outras tantas num barracão com ar condicionado cheio de luzes e gente para comprar um plasma por €432, 16% de desconto, imperdível. Depois , já a usar aquele casaquinho que só custou 65€ e que é o sexto dos casaquinhos que teem lá num armário a abarrotar, vão poder pronunciar-se sobre a desgraça das crianças do Bangladesh que trabalham na indústria do vestuário e  de como as pessoas (as outras) só ligam às aparências.

 

 

 

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