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Um Professor

Sou filho de um professor e se sei pensar, escrever, ler e contar devo-o não só a ele mas a muitos dos professores que tive. Muitos outros andaram lá a ocupar tempo e espaço, eu deixei de ser aluno há mais de 20 anos mas tenho quase a certeza de que hoje existe o mesmo rácio de professores competentes para professores incompetentes. Qual é exactamente esse rácio? Impossível saber , dado que os sindicatos, com a  justificação absurda de que é difícil, injusto e incerto, se recusam a discutir e implementar um sistema de avaliação funcional,transparente e consequente. A única explicação que encontro para isto é a vontade de proteger os incompetentes e desqualificados.

Como se isso não bastasse, defende-se que para ter uma carreira na Educação basta entrar e lá estar, vamos subindo de escalão à medida que os anos passam, cristalizando uma ideia  que toda a gente que já andou na escola sabe que é falsa: quanto mais velhos, melhores os professores e mais devem ganhar.

Não me vou alongar muito sobre a curiosidade que é ver a dra. Mortágua a apoiar a última greve dos professores, greve que segundo quem a convoca serve  para protestar contra a situação provocada pelo orçamento votado e aprovado pela dra Mortágua. Isto é suficiente para uma pessoa poder pensar que está instalada a loucura mas depois lembra-se do Orwell, não só do que ele antecipou e descreveu mas, muito mais sério, que há pessoas, incluindo as Mortáguas, que citam o Orwell sem se darem conta que também era deles que ele estava a falar quando nos explicava conceitos como o duplopensar . Na cabeça dessas pessoas podemos apoiar um governo e votar-lhe os orçamentos às terças e quintas e às segundas e sextas ir para a rua protestar contra o governo, isto ata-me um nó na cabeça mas tenho a certeza de que há argumentos a favor e que demonstram, de um determindado ponto de vista, que é uma atitude não só legítima como necessária e louvável.

Falo dos professores porque ontem participei numa discussão que ainda me deixa incrédulo, não só por ter participado nela  activamente como pelo tema e teor. Então um amigo partilhou no facebook uma notícia da SIC sobre a conferência organizada pela Sociedade da Terra Plana. 

Podem estar a pensar: Como? Li bem,  isso existe? Não estamos em 2017? Pois é verdade, existe, e eu encolhi os ombros e passei à frente, mais uma americanice. Passado pouco tempo aparece-me outra vez a discussão, porque um amigo do meu amigo tinha comentado, com convicção, que até fazia sentido, estavam a descobrir-se muitas coisas e muitos argumentos em favor da teoria da Terra Plana. Meti-me na conversa, num espírito de galhofa. Tal como um creacionista se arruma com uma só palavra, fósseis, também um terraplanista, na ocasião improvável de encontramos um,  se devia poder arrumar com uma outra: satélites. Passado pouco tempo outro amigo manda-me uma mensagem:

– Não te lembras desse gajo? É o não sei quantos.

-Ah, já me lembro, coitado.

-Queres saber a melhor?É professor.

-Não acredito.

-Melhor ainda: professor de Geografia

Fiquei de olhos esbugalhados. Não podia ser. Fui confirmar. É verdade.Levei a discussão mais a sério e fui ficando cada vez mais chocado, porque o homem é claramente uma pessoa educada, articulada e que sabe argumentar, mesmo que os argumentos sejam inanes sabe expô-los e sabe discutir civilizadamente. A discussão é uma espiral de absurdos, cheguei a introduzir desenhos, sim , desenhos e a minha experiência de navegação oceânica que, tal como a de todos os navegadores desde o século XVI, só é possível porque existem métodos baseados num  facto conhecido, observável e demonstrado matematicamente e empiricamente desde o Pitágoras, há mais de 2500 anos: a Terra é redonda.

Não ponho aqui o link dessa discussão porque não quero estar a  identificar e humilhar o homem publicamente mas se alguém tiver real interesse ou duvidar disto, é só pedir e posso mandá-lo em privado .

Já hoje enviei uma mensagem à escola onde ele lecciona (e que divulga publicamente no seu perfil do FB) a pedir que me informem de como e onde posso apresentar uma queixa formal. Sou um defensor acérrimo da liberdade de se acreditar no que quer que seja que achemos plausível ou simplesmente agradável ou confortador. As convicções e crenças de cada um, mesmo que contrárias à realidade visível, são precisamente de cada um e se não causarem dano a terceiros, haja liberdade de acreditar à vontade. A questão neste caso é  o dano potencial. Este indivíduo, que renega a Geografia , aparece regularmente frente a miúdos em formação para supostamente lhes ensinar Geografia. Ele não refere os lunáticos da Terra plana como curiosidade ou história caucionária para nos lembrar dos perigos da disseminação da informação falsa e sem fundamento. Refere a Terra plana como uma hipótese, e isso não pode ser, tal como não se pode ensinar a Evolução como uma de entre várias teorias possíveis para explicar o Homo Sapiens, pelo menos no Ensino Público.

Não tenho filhos, tenho um sobrinho que nesta altura anda a construir robots no Técnico pelo que já passou o perigo de ser contaminado pela idiotia e outros cinco que  estão para lá do que eu possa fazer, e claro que não tenho nada que me meter na educação deles, mesmo que seja fortíssima em mitologia sem ser vista pelo lado filosófico.Não tenho por isso interesse directo no tema mas sou um cidadão que depende, como todos, das gerações que se estão a educar e nos vão guiar e governar. Deixa-me aterrorizado que se permita literalmente a qualquer pessoa com uma licenciatura ser professor em Portugal. Isto levou-me a imaginar (até dormi mal) a quantidade de coisas que se transmite às crianças por essas salas de aula fora, sem que ninguém , muito menos o sindicato que devia ser o líder dessa luta, diga :

-Temos que conhecer, analisar e avaliar bem as capacidades e convicções das pessoas que se propõem a ensinar as nossas crianças, porque ser professor não é para qualquer um.

Se este indivíduo fosse professor de Português ou de Musica eu não tinha grandes objecções a fazer, pode-se ser ignorante em Ciência e incapaz de raciocíno lógico, pode ser-se crédulo e propenso a ser enganado e apesar disso ser um excelente especialista na disciplina e bom a comunicar com crianças. Um professor de Geografia que admite que a Terra possa ser plana , isso já não se pode tolerar. Já não se devia tolerar.

 

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2 thoughts on “Um Professor

  1. Duas ideias.

    Quanto ao papel bipolar do Bloco e do PCP será hipocrisia, se não fosse pura estratégia política. Acho que os incêndios e as eleições autárquicas mudaram bastante a postura desses dois partidos. Precisam de mostrar, quando chegarem às legislativas, que tiveram ao lado das medidas generosas e amigas do “povo e dos trabalhadores” e contra as restritivas e, assim, não deixar fugir eleitorado para o PS. O que eu sinto (e eles também, por certo) é que o governo está a perder a mão nos seus apoiantes no parlamento.

    Quanto aos da Terra plana, fazem parte de uma longa lista de gente absurda que há muito que anda por cá, conjuntamente com os defensores dos partos em casas, do fim das vacinas até aos defensores de que foram os extra-terrestres quem transmitiu os conhecimentos e as ferramentas essenciais às primeiras civilizações. Para não falar dos teóricos das conspirações. A diferença é que agora o facebook & afins ampliou–lhes a projecção.

    Gonçalo

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    • O tema dos partos em casa é interessante ( mesmo da perspectiva de gente como eu e tu que não tem nada ver com isso…) primeiro porque se enquadra bem na “problemática” que está aqui em causa e depois para mim porque tenho dois exemplos em dois extremos: a minha irmã que trabalha nos cuidados intensivos dos neonatais e sabe o que há para saber sobre partos hospitalares e uma vizinha e grande amiga que já vai no 3º filho parido em casa, com resultados excelentes. A ver se volto a esse tema, se me ocorre alguma coisa original e relevante para dizer.Grande abraço, saudades.

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