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Reflexão Dominical

Aqui há uns meses, como prova de que nunca estamos verdadeiramente a salvo em lado nenhum, um casal de Testemunhas de Jeová chamou-me ao portão, ou melhor: o cão começou a ladrar, fui ver quem era, eram as Testemunhas de Jeová. Propunham-me alguns minutos para falar sobre Jesus, olhei para eles como se me tivessem proposto  fazer-me sócio do Benfica e recusei, resistindo à tentação de os convidar a discutir comigo por exemplo a viagem dos pinguins e dos koalas desde o Monte Ararat até à Antártica e à Austrália depois do Dilúvio ou o episódio em que  Deus mandou  dois ursos despedaçar 42 crianças  porque gozaram com a careca do profeta Eliseu  (Livro dos Reis, 2, versos 23 e 24, que isto não se inventa).

É de notar que os ateus não se organizam nem andam por aí a fazer proselitismo, primeiro porque não é fácil chegar ao pé de uma pessoa e dizer “venho-lhe falar do nada “, depois porque é difícil, dado que não há organização de espécie nenhuma, ganhar dinheiro com o ateísmo, ao contrário da mina que sempre foi a religião. Isso pode dever-se ao facto de que se  uma pessoa acredita no Antigo Testamento não é difícil fazê-la acreditar que tem que dar dinheiro ao mensageiro, do mesmo modo que se uma pessoa é céptica e desconfiada tem muita dificuldade em pagar por algo que não se explica nem demonstra nem vê.

Ainda ontem assisti aqui a uma peça de teatro  (não só há ocasionalmente Testemunhas de Jeová como  há ocasionalmente teatro, isto é muito mais do que se possa suspeitar), uma adptação de uma peça chamada Nunca Nada de Ninguém, de Luísa Costa Gomes, à qual o encenador decidiu, por razões que no meu filistinismo  me ultrapassam largamente, juntar uma secção em que conta a história de Job, um abastado e devoto lavrador a quem Deus resolve testar tirando-lhe tudo,  incluindo os filhos, por sugestão de Satanás. Estes testes divinos são muito pedagógicos, o pobre Job nem sequer tinha dúvidas na sua fé mas pelo sim pelo não, talvez num momento de aborrecimento, o deus do amor e misericórdia achou que devia  dar-lhe cabo da vida, para ver a reacção. Entre este deus de amor e um , sei  lá ,  Ahura Mazda dos Persas , antes o Ahura Mazda que ao menos acreditava quando os homens lhe diziam que eram fiéis, sem ter que os reduzir a nada  só para ter a certeza.

Tirando perturbações mentais e lavagens cerebrais como as que evidenciam seitas e cultos como as Testemunhas de Jeová, hoje em dia a maioria das  pessoas , mesmo religiosas, já percebeu que o Antigo Testamento é mitologia simbólica . Os milhões de católicos que vão acorrer às igrejas em mais um Domingo acreditam por exemplo na Evolução e na universalidade da noção de Bem, ou seja, que um árabe ou um yanomani pode ser bom e fazer o Bem mesmo não estando  inscrito no colectivo .  Ainda assim, existe uma grande variedade de premissas e dogmas dos católicos que não resistem assim lá muito bem a uma análise racional e acabam a ter que  ser defendidos pela Fé. Não é por nada que a Fé é um oposto da Razão,  a capacidade de crer sem provas e sem aplicar um raciocínio lógico.

Acabei de escrever um email a um dos meus melhores amigos, católico, a propôr-lhe um exercício para realizar amanhã na missa, e depois lembrei-me de o propôr aqui também. Este amigo é doutor, daquela espécie rara que é doutor por ter feito um doutoramento, e em História, pelo que se ri comigo a bom rir de coisas como a Arca de Noé. Também porque tem um sentido de humor parecido com o meu e passávamos muito tempo a dizer parvoíces e rirmo-nos delas. Desde que vim para aqui morar que só o vejo muito raramente, uma vez por ano de fugida, e desta vez tínhamos combinado que quando nos encontrássemos íamos falar de Deus a sério, sem sermos ridículos. Sucede que já sei que não vai haver tempo,  provavelmente quando nos encontrarmos no mês que vem vai ser mais numa ocasião curta que só vai dar para beber umas minis e falar de futebol e política com o resto da rapaziada, será difícil uma discussão séria sobre isto. Sendo assim , e como gosto de encorajar dúvidas , propus-lhe o seguinte exercício:

Que amanhã na altura de recitar o Credo faça uma pausa mental e considere bem cada frase e cada palavra que está a dizer.

A liturgia é feita de fórmulas e rituais, muitos deles com séculos e séculos. Toda a gente baptizada e criada no catolicismo como eu aprende a repeti-las desde criança, torna-se uma coisa automática que se recita de cor. A minha transição de católico a agnóstico (considerei-me agnóstico durante muitos anos até que ficar em cima da cerca para ver o que acontece deixou de me parecer a atitude certa)  deveu-se a uma espécie de epifania num Domingo, depois de ter assistido a cerca de quinhentas missas sem pensar duas vezes no que estava ali a dizer, porque tinha aprendido a responder desde pequenino. Foi como se me tivessem dado uma bofetada na cara, porque no fim de contas eu não acreditava que Deus foi o criador do Céu e da Terra e de todas as coisas visíveis e invisíveis e  que Cristo nasceu do pai antes de todos os séculos; não professava um só baptismo para a remissão dos pecados, nem sequer concordava com a noção de pecado. Já não acreditava, conforme ampla evidência, na santidade e unidade da Igreja  e certamente não esperava a ressurreição dos mortos, esta última por razões mais ligadas à Física e à Biologia. Se, pensando bem, eu não cria nestas coisas, como é que era capaz de me levantar ali no meio de dezenas de pessoas e afirmar em voz alta que acreditava?

Seguiu-se uma curta fase em que passava as missas em silêncio até que finalmente me deixei de hipocrisias.

Lembremo-nos que até ao Concílio Vaticano II, em 1969, a missa católica era celebrada em Latim. Não tenho dados nenhuns sobre isto mas suspeito muito de que a percentagem de fiéis que sabe e consegue acompanhar Latim, fosse  em 1600 fosse em 1969 ou que seja hoje, é muito, muito reduzida. Não concebo nenhuma razão para que se celebre um ritual numa língua que os participantes não compreendem, nenhuma além de manter a exclusividade da interpretação e explicação, desencorajar  questões e estabelecer a autoridade  do clero.

Tal como disse ao meu amigo, se depois de pensarem bem nas palavras do Credo concluírem que sim, que realmente, conscientemente e inequivocamente creem naquela lista de coisas, vão ficar com a fé reforçada e retirar paz, confiança  e satisfação de proclamar em público “É nisto que eu creio”. Caso contrário, é ir fazendo mais   perguntas  e não ter medo das conclusões.

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