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Em inglês fica sempre melhor

Uma das bandas portuguesas de que gosto são os Clã , que têm uma música muito bonita chamada “Problema de Expressão” , com este verso:

Devia ser como no cinema,
A língua inglesa fica sempre bem
E nunca atraiçoa ninguém.

É uma das nossas modas mais prevalentes e que  a mim me faz trepar pelas paredes por achar que é das mais estúpidas e sem justificação:  tudo em inglês.

-A  cidadezinha  onde cresci, Alcobaça, organiza regularmente um festival literário e de cinema. O programa está aqui , a edição deste ano já acabou mas estive mesmo agora a vê-lo. Dura uma semana, o número de autores de língua inglesa presente é aproximadamente zero, a percentagem de convidados nacionais andará pelos 98%  e  o número de livros ingleses apresentados também anda entre o zero e o dois, não tenho a certeza porque não vi tudo.Os filmes são na esmagadora maioria nacionais e não me consta que o evento sejam transmitido no estrangeiro. Qual é o nome deste festival de livros & filmes? Books and Movies.

-Aveiro tem uma revista que só conheci anteontem, chamada Litoral , e conheci-a porque um grande marinheiro português que muito honra a vela nacional, Renato Conde, recebeu uma distinção pública pela sua carreira numa cerimónia em que a revista atribui prémios. São os Litoral Awards.

– A recente “websummit” é um festival de startup networking empowering  and disruptive technologies em que os participantes estão estatutariamente obrigados a usar um termo em inglês por cada quatro palavras que pronunciem, independentemente da  audiência.

-O mundo do espectáculo carbura a anglicismos e palavras inglesas, artista que não use regularmente essas expressões fica para trás. Desde os anos 60 que  um  “yeah” é quase obrigatório na  música moderna  nacional, a maoria das novas bandas escolhe nomes em inglês e perde-se a conta às  letras de canções em inglês escritas por quem devia ir tentar melhorar o inglês.

-No comércio, serviços e eventos culturais nem vale a pena  pensar em só usar o português, parece que  a língua da modernidade e inovação é obrigatoriamente o inglês, eu vivo numa aldeia perdida onde isso não é aparente  mas quem vive em centros urbanos pode verificar isso facilmente.

-Num mundo que me interessa mais de perto, o da cerveja artesanal , nota-se bem que já existe mais craft beer do que cerveja artesanal e no mundo do hipsterismo , das pessoas cuja filosofia de vida se baseia não no visual mas sim no look ( grandes consumidores de craft beer, nem tudo é negativo…) as coisas acontecem mais frequentemente em inglês do que em português, mesmo se vivem em Cantanhede.

-No turismo , em conformidade com a evidência de que os visitantes procuram sobretudo experiências e vivências locais e autênticas, faz-se questão de que tudo seja apresentado em inglês, desde os nomes aos programas e aos produtos. Traduzir e explicar faz sentido, tudo em inglês logo à partida, já não.

-O Estado naturalmente partilha da doença e baptiza quantidades de coisas em inglês. Desde os anos 50 que todos os ingleses sabem o que é e onde é a Costa Brava , e adoram, nós para evitar confusões  é mais Silver Coast, Allgarve e parvoíces semelhantes.

Ora, há palavras , especialmente no campo da tecnologia e das finanças mas não só, que não têm tradução exacta ou clara, por exemplo stress , roaming ou upgrade, é normal que as pessoas que trabalham nisso os vão usando.   Do mesmo modo, se se trata de um evento inequivocamente internacional, faz sentido marcar isso.  O inglês é a língua dominante , aposto que vai continuar a ser língua de trabalho da UE quando o único país anglófono for a pequena Irlanda e é claro que aprender inglês é do interesse de toda a gente. Agora, que se sinta que é não só normal como positivo e quase mandatório polvilhar o discurso com palavras em inglês, já  me parece bizarro.

No jornalismo até mete medo, e nos sítios onde eles falam uns com os outros tipo o twitter chega a ser delirante, não só o uso dos termos e expressões em inglês (que ao invés de mostrar que dominam a língua só mostra que veem televisão e filmes) como a adopção regular de coisas que leem e veem na imprensa americana , a última é chamar alt right à extrema direita.

Uma parolice pegada, demonstração de preguiça para procurar a palavra certa (temos cerca de 600 mil à disposição, em princípio devia chegar, e hoje quase todos andamos com um dicionário no bolso…) ou simples presunção, a noção  de que se introduzirmos termos em inglês parecemos sofisticados. A mim dá-me sempre a ideia contrária.

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