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Entretanto na Polónia…

…60 mil fascistas de vários graus, desde o skinhead mais cepo à avozinha mais beata e  nostálgica saíram à rua para celebrar a independência do país e gritar por uma Europa branca e por “mais Deus”. Quanto à segunda, parece-me um pedido ou exigência estranha mas é assim desde sempre: Deus, apesar de omnipotente, omnisciente e omnipresente, precisa sempre de quem fale por ele, de quem o defenda, de quem proteste por ele, castigue os seus inimigos  e reclame a sua presença, porque ele sozinho pelos vistos não consegue. É uma omnipotência um pouco estranha, um poder que apesar de ser universal e absoluto tem umas certas dificuldades em impôr-se e em comunicar directamente, tem que ser sempre por mensageiros e sinais.

Quanto à Europa mais branca e presumivelmente mais católica, podia dizer “boa sorte com isso, contrariar  tendências demográficas com manifestações não revela grande  inteligência” mas é verdade que manifestações pressionam governos que depois inventam políticas para contrariar a realidade, que normalmente acabam por falhar, criando mais insatisfação e alimentando  um círculo vicioso.

Acredito que também na política e na sociedade se observa a III Lei de Newton : Para  toda a acção há sempre uma reacção oposta e de igual intensidade. Os tempos em que se manifestam estas reacções podem não ser os mesmos da Física, mas mesmo que seja anos depois , as reacções inevitavelmente aparecem. Se vemos milhares a marchar pelas ruas de bandeiras vermelhas é de esperar que as bandeiras pretas não venham  muito atrás.

Em Portugal isto não é aparente  porque levámos uma injecção de 48 anos que tornou o lado preto da moeda inaceitável e porque nunca vimos o lado vermelho a sério. Os Polacos tiveram o infortúnio de passar a maior parte do pós guerra debaixo das bandeiras vermelhas, por isso hoje por lá é tão aceitável ser de um dos vários partidos de extrema direita como cá é aceitável ser do PCP ou do BE.  Apesar disso acho que, depois do advento das redes sociais e dos jornais com a possiblidade de os leitores deixarem o seu comentário anónimo, ninguém duvida que temos por cá umas boas centenas de milhar de cripto fascistas e muitos mais simpatizantes da causa, ou causas.

De todos os países da  UE a Polónia é o que mais sofreu às mãos do nazismo e do comunismo e por isso , num mundo mais racional, seria de de esperar que fosse o mais predisposto a encontrar o caminho do meio e a renegar extremismos, mas um mundo racional é quase utópico por isso aí temos os Polacos a eleger um governo que tende mais para a direita do que seria confortável e uma população que apesar de ser dos países com menos imigrantes e gente de outras cores e credos é das que menos gosta deles.

Eu não sou um gajo muito tolerante, tenho os meus preconceitos, há coisas de que não gosto e preferia que não existissem, por exemplo o Islão ou os hipsters , mas sou antes de mais  um gajo prático e a seguir  respeitador dos direitos dos outros , incluindo o direito a serem enganados, a acreditarem em fábulas, a vestirem-se como lhes apetecer e, resumidamente, a fazerem  o quiserem das suas vidas. Desde que me seja permitido ter o meu espaço inviolável, viver de acordo com a minha consciência, e desde que não se ande por aí a maltratar pessoas por quererem fazer o mesmo, ou por características que estão fora do seu controlo tipo a etnia ou o sexo, por mim já não está mau.  O mundo é muito grande e complexo e para isto ir funcionando é preciso esse caldear, equilibrar e sintetizar de todas as forças e ideias. Parece-me  cada vez mais difícil.

Por isso incomoda-me ver estas coisas, ver os extremistas a ganhar força e voz a cada dia, a  ignorarem ou negarem a História, ver ambos os lados a alimentarem-se do progresso dos adversários e do medo que provoca,  ver as vozes da moderação a perder força na torrente de mentiras, propaganda  e demagogia que escorre pela TV e internet como o proverbial esgoto a céu aberto e se alastra a todos os sectores da sociedade. O Guardian , jornal britânico que eu considero pouco, passou um mês a rufar o tambor para o nacionalismo Catalão para hoje vir lamentar o nacionalismo Polaco. São incoerências dessas que me fazem acreditar que os melhores tempos da Europa começaram no fim da segunda guerra e estão a chegar ao fim, só   espero mais divisão, polarização, atrito e conflito.

 

PS: Também estou a perder a esperança de ver o Sporting campeão este ano.

PS II -Quanto à indignação do dia, a história do Panteão, o que fica é que o nosso primeiro ministro nunca tem culpa nem é responsável por nada que não seja positivo e que Portugal é governado ao ritmo das redes sociais, sondagens  e focus groups. 

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