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Assédio

Por estes dias ficámos a saber que Hollywood é um antro de maníacos egocêntricos onde impera a vaidade e a sexualidade  como moeda de troca e  meio de pressão e negociação, com rédea solta e desrespeitando normas , regras e decência. Que está repleto de actores, produtores, agentes e outros que se acham tão espectaculares que são irresistíveis e não são abrangidos pelas leis que regem os comuns mortais e que como tal podem fazer o que lhes apetece quando lhes aparece à frente uma mulher que lhes agrada. A novidade é só uma : as vítimas começaram a queixar-se em público.

É preciso ser um bocadinho  básico para não perceber  logo à partida que uma indústria que gira em torno de fantasias, ilusões, sonhos, sexo e publicidade não esteja  contaminada por comportamentos abusivos . Também é preciso uns óculos cor de rosa ou muita ingenuidade para não saber  que legiões de jovens actrizes e actores chegaram ao sucesso e à fama não por serem melhores do que quem  estava ao lado mas por terem dormido com a pessoa certa. Quando a coisa resulta nunca mais se ouve falar no caso, se não resulta , ou se a boa vontade do tubarão já não é necessária, denuncia-se.

Hollywood podia amanhã ser engolida pela falha de San Andreas num tremor de terra que a minha vida não mexia um millímetro nem perdia nada, é a importância que eu dou ao que se  faz lá e a quem lá anda.  Apesar disso , e apesar de me falhar um bocado a solidariedade para com as starlets e vítimas que decidiram entrar na selva mesmo sabendo dos tigres e tarântulas, observo isto com uma certa atenção e interesse porque deste debate, acusações, defesas e condenações estão a sair novas regras que todos devemos perceber e seguir, no nosso próprio interesse.   Observo com satisfação as vítimas de abusos a perder o medo e a falar e denunciar, coisa impossível há dez anos, por falta de meios técnicos. Observo as “estrelas” que se achavam  fenomenais a ver o mundo a chamar-lhes porcos e a negar-lhes a carreira e a posteridade, e acho piada a isso.

Acho menos piada a uma certa hipocrisia que no entanto persiste, a maior delas o facto de o país agora a espumar de ultraje contra os abusadores sexuais ter um presidente que está gravado a gabar-se de ser um predador sexual . Já acho outra vez piada aos contorcionismos dos republicanos e idiotas sortidos para se tentarem safar dessa evidência. Volto a achar menos piada quando vejo que conseguem e que o país pede a cabeça de gente como o Weinstein mas perdoa um presidente que disse que “quando se é famoso pode-se fazer tudo. Agarrá-las pela rata, tudo.” e no fôlego seguinte descreveu graficamente e muito orgulhoso o modo  como assediou uma mulher casada. Passado pouco tempo foi eleito presidente, e ainda há  muita gente que estranha e critica o ódio ao Trump, não lhes ocorrendo que há pessoas que se arrepiam com predadores sexuais, de esquerda ou direita, e não confiam neles para nada. Porque são pessoas más, incapazes de empatia e respeito, que se lixem as opiniões políticas, é uma questão de humanidade.

Também há um aspecto que gostava de referir porque ainda não o vi referido em mais lado nenhum (também é verdade que não ando a ler tudo o que se escreve sobre o tema , nem conseguia mesmo que não fizesse mais nada na vida) : Tenho a impressão de que a qualificação de assédio  tem muito a ver com o nível de atractividade da pessoa em causa. Exemplo, a starlet  chega à Califórnia a sonhar com filmes, conhece Harvey Weinstein  que lhe faz uns avanços, apalpa o rabo e tenta levar para a cama: assédio . A mesma starlet conhece Brad Pitt que lhe faz uns avanços, apalpa o rabo e tenta levar para a cama: engate . É muito provável que esteja  enganado mas muita da qualificação de assédio depende da apreciação que a pessoa assediada faz do assediador. Passo a ilustrar essa relatividade com um exemplo pessoal.

Aqui há dez anos cheguei de barco ao Canadá, a  Yarmouth , vilória portuária da Nova Escócia, depois de mais uma travessia do Atlântico. Uma tarde no bar comentei que precisava de usar a internet para marcar as viagens de regresso , isto era antes do wifi e cyber café era coisa que não havia ali. Uma mulher, mais ou menos da minha idade, com quem já tínhamos (eu e a tripulação) falado nessa tarde, disse-me que eu estava à vontade para usar a ligação em casa dela, era mesmo ali. Aceitei de bom grado e lá fomos os dois. depois de vinte minutos de caminho comecei a estranhar a distância mas depois lembrei-me de que na América do Norte eles têm medidas diferentes das nossas. Casa enorme, no meio de um pinhal, não estava ninguém , mostrou-me o quarto onde estava o computador e disse-me para estar á vontade, vou tomar um duche , se precisares de alguma coisa ,é só dizeres … Eu sempre fui bastante tapado no que toca a mulheres e percebo pouco, a ficha só caiu quando ela entrou pelo quarto de roupão meio aberto e se sentou no braço da cadeira com a mão no meu ombro. Seguiram-se uns minutos confrangedores e muito desconfortáveis durante os quais tentei evadir-me das atenções dela sem ser bruto, o que , olhando para trás, só fez parecer que eu estava a hesitar quando só queria ir-me embora dali o mais rápido possível. Finalmente percebeu que não era o dia, foi-se vestir e levou-me de volta à cidade, viagem bem disposta como se pode imaginar.

Eu considero isto  assédio e lembro-me do episódio com um arrepio de desconforto,  mas só por uma razão: a senhora era um camafeu . Se fosse uma mulher que me atraísse provavelmente hoje falava nisso como uma das melhores tardes da minha vida mas  como era uma mulher que me repugnava, foi assédio. Tenho-me lembrado bastante dessa tarde em Yarmouth quando vejo todas as acusações  a voar pela comunicação social . Em quantos casos não será  o mesmo mecanismo em acção?

De qualquer modo, o tema não é muito difícil nem muito complicado: sexo é uma coisa muito boa mas têm que ser todos crescidinhos e estar  de livre acordo, se não passa a ser uma coisa muito má.

 

PS: Sara Sampaio, a maior exportação da aeronáutica nacional dos últimos anos, foi por alguma razão a uma conferência de tecnologia em Lisboa e disse que “sentiu muitas vezes que foi levada a fazer coisas que não queria”.  O emprego desta moça é desfilar e aparecer semi nua à frente de multidões, emprego  que já lhe rendeu o suficiente para não ter medo de o perder. Quando era levada a fazer coisas que não queria, o  cálculo era diferente. Tudo tem um preço, às vezes é a dignidade,  muitos pagam-no de bom grado.

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